15 setembro 2007

A Origem da Gagueira


A temática, como é recorrente em relação à gagueira, é polêmica. Existem diversos pontos de vistas, cada um defendendo o que acredita melhor explicar a origem desta patologia. De acordo com o que eu acredito, a gagueira tem origem na infância e surge em virtude das relações sócio-culturais que a criança vivencia em seu processo histórico.

A primeira infância (até os seis anos de idade) é o período que a criança mais aprende em toda a nossa vida. É neste período que ela também desenvolve e adquire a fala, a linguagem. Do mesmo jeito que ela cai quando esta começando a andar, é perfeitamente natural que algumas (umas mais outras menos, cada uma no seu ritmo) apresentem maiores ou menores quebras em suas falas. Na fonoaudiologia este período é denominado como "freqüentes disfluências", "gagueira fisiológica" ou "gagueira natural". São quebras na fala da criança que diferem qualitativamente da gagueira patológica (gagueira sofrimento) que muito discutimos por aqui. De um modo geral, quando a criança começa a apresentar essas freqüentes disfluências, aqueles que são significativos a ela começarão a interferir de maneira negativa em sua fala. Darão conselhos do tipo: "fale direito", "fique calmo", "respire antes de falar", etc..

Esse tipo de comportamento demonstra que a fala da criança não está sendo aceita e ela não poderá fazer nada de diferente, tendo em vista que a fala é algo espontâneo e que o falante sabe falar mas não sabe como fala. Além do mais, não se ensina a falar com orientações. O ser humano, em condições normais, aprende a falar ouvindo, através do modelo auditivo que recebe.
Tais conselhos além de não surtirem os efeitos desejados, contribuem para agravar a situação daquela criança que entenderá que sua fala não é aceita. A fala da criança é exigida e negada.

Com a constância desse padrão de exigência paradoxal (tem efeito contrário à intenção), toda situação de fala para a criança será de expectativa, onde ela tentará de tudo para falar do modo idealizado pelo seu interlocutor. O simples fato de "tentar falar bem" fará com que ela quebre a espontaneidade peculiar à fala, pois, de um modo geral,
o espontâneo não é tentado. A criança passa a sentir-se punida ou culpada pela sua forma de falar. Sua fala será carregada de antecipações, truques, sentimentos negativos que gerarão mais gagueira, que reforçará cada vez mais uma imagem de mau falante naquela criança. Surgindo assim a gagueira sofrimento.

Sabemos que uma fala adequada desenvolve-se em relações de comunicação que garantem a espontaneidade e reforçam a capacidade do falante (Friedman, 2004). Van Riper estudou diversos sujeitos adultos disfluentes que não se consideravam gagos. Ele afirmou que, muito possivelmente, esses adultos disfluentes, quando eram crianças, tiveram pais e professores compreensivos, que aceitaram o padrão de fala espontâneo de seus filhos e alunos.

Todas essas teorias estão embasadas e muito melhor explicadas no livro "Gagueira: origem e tratamento" de Silvia Friedman. O estudo foi feito através do discurso de sujeitos considerados gagos que contaram a história de suas falas.

A figura acima simboliza muito bem o que falamos aqui. Mostra uma criança diante dos seus pais e o seguinte diálogo:
P - Fale devagar...
C - Eu estou tentando mas...
P - Nós estamos querendo ajudar!
C - ...só faz piorar

03 setembro 2007

Depoimentos de Sucesso

Na postagem de hoje, colocarei três depoimentos de pessoas que superaram a gagueira sofrimento. Os dois primeiros sujeitos foram pacientes de Sílvia Friedman, e o terceiro de Mariângela Zulian. Os depoimentos foram retirados do saite "Gagueira - Novos Paradigmas". Eles comprovam a eficiência da teoria desenvolvida por Friedman. As terapias que abordam esta linha procuram valorizar o indivíduo, não a gagueira (como ocorre em muitos tratamentos), buscam modificações no modo de ver a fala, a gagueira, o mundo (os outros) e a si mesmo. É emocionante ler os depoimentos e ver o quanto essas pessoas mudaram o estilo de vida.

Os depoentes preferiram manter o anonimato. Mas seria ótimo que algum, caso leiam esta postagem, se manifestasse.

Aconselho os colegas a acessarem o saite acima indicado. É uma outra forma de ver a gagueira. Aglutina e vai além do orgânico, do psicológico e do emocional.

Boa leitura!

Caso 01:
Moça de 27 anos, enfermeira:

P: Nas entrevistas, né, antes de eu entrar aqui, eu ficava em pânico, né. Travava mesmo. Em seminário da escola, eu não ia lá na frente, mesmo. Eu não ia mesmo, lá na frente, ficava super travada, com medo. Só que agora, não. Eu vou, enfrento posso até gaguejar, mas eu vou. Não fico sem nota por causa disso, entendeu? E nas entrevistas eu vou também, eu faço a minha parte e aí, seja o que Deus quiser! Eu tou muito melhor. Depois que eu entrei aqui, eu me superei bastante.

T: E o que é importante pra você não piorar?

P: Ah, eu, aceitar. Eu não achar que eu sou assim, né, diferente das outras pessoas. Eu tenho que aceitar que posso fazer as mesmas coisas que as outras pessoas fazem. Que eu sou normal, não tenho nada de diferente. Que eu posso ir lá na frente, falar, posso gaguejar, também, e daí, entendeu? Eu tenho que me aceitar.

Caso 02:
Moça de 18 anos, estudante:

P: Jamais eu iria pensar que eu ia trabalhar de operadora de telemarketing. Jamais! Uma gaga, operadora de telemarketing? Mas na semana passada, a menina me avisou, aqui da minha sala:

- Ó, eu trabalho, lá. Eles tão precisando.

Ela me deu o endereço, eu fui. Aí, eu fui pensando que “eu vou conseguir”. Só que até a minha mãe...
- Você?
Eu falei:
- É porque? Eu consigo, eu falo!
- Então, vai. Se é isso que você quer, vai em frente.

Aí eu fui. Acordei cedinho. Cheguei lá às 7:40h. Era às 8h. Eu cheguei muito adiantada. Aí eu cheguei lá. Entrei no elevador e comecei a chorar. Tipo, isso era uma coisa que nunca aconteceu na minha vida, de pensar. Sabe, que eu tou indo procurar emprego e que eu consigo. (choro)

Porque isso foi muito difícil pra mim, chegar onde estou hoje... (choro).
Desculpa. (choro)

Porque antes, as pessoas olhavam pra mim, como, como se eu não fosse ninguém. Ninguém fazia amizade comigo, porque eu não falava. As meninas na escola nem ligavam pra mim. Hoje, hoje eu digo que sou muito feliz. Muito! Eu não era feliz antes Eu não era.

Eu tou muito feliz, graças a Deus, porque eu falo direito. E também sou muito chorona. E hoje eu tenho a certeza que eu tenho muita, muita capacidade de arrumar emprego e trabalhar. Que eu consigo. Antes eu não pensava assim. Eu pensava que eu ia ficar o resto da minha vida no meu quarto trancada. Ia ficar velhinha no quarto trancada.

Mas hoje eu penso bem que eu vou ser igual ao meu irmão. Vou dar duro pra entrar na faculdade, igual ao meu irmão, que é meu pai, né. Eu chamo ele de pai.

...a gente pensa diferente do que a gente pensava. Pensar que eu posso, eu consigo, que eu sou igual a todo mundo. Não igual eu pensava antes. Aí, eu comecei fazer fono. Se eu conheço a pessoa, logo falo que faço fono pra ela, quando eu começar falar, ela já não olhar como estranho. Apesar que eu acho que eu tou muito bem, tou falando muito bem. Eu eu tou fazendo coisas que eu não fazia. A hora no relógio, eu falo pras pessoas. Se pergunta onde é o endereço, eu falo. Eu peço informações na rua, mesmo sabendo onde que é. Só pra fazer, só pra fazer um teste. Eu sei onde que é, mas eu peço. Só pra ver se eu consigo. E eu consigo mesmo.

Falo com estranhos, eu vou no açougue agora (risos). Antes eu tinha medo. A não ia, tinha medo. Hoje eu penso o que aconteceu no passado. Eu penso... e porque que acontecia aquilo? É tão simples. Entendeu? É tão simples você falar a hora pra uma pessoa, mesmo que seja é a primeira sílaba com n, nove, entendeu? Porque antes eu não conseguia falar “nove”. Era um desespero, entendeu?” Alô”, no telefone. Quando eu dizia alô no telefone, eu falava ‘hello’. Quando eu atendia o telefone, eu ia na geladeira, colocava alguma de comida pra falar no telefone. A desculpa é que eu tava de boca cheia. Podia ser alho, cebola, o que vinha, aí, sei lá....

T: Então, não era a cabeça que tinha que tratar?

P: É, era a cabeça. Porque hoje, lá em casa, só eu atendo o telefone. Ninguém mais quer atender. O telefone toca, “Atende, Ma...”.

Porque se fosse antes, se chamava, chamava o dia inteiro, pessoal lá em casa não atendia. Podia ser uma emergência, um caso de morte. Não atendia, entendeu? Morria de medo. Falava a não saía o ‘alô’, tão simples.

Caso 03:
L. G., 25 anos, estudante:

Eu acho que todo esse processo que a gente passou aqui foi muito importante para eu descobrir algumas coisas que antes eu não percebia, ou que eu não queria perceber. Desde o começo eu sentia muito receio em trabalhar essa questão, por ela ser delicada e não muito fácil de se trabalhar, mas com o tempo e as nossas conversas eu fui percebendo que tudo é um "jogo" e esse jogo só acontece porque eu deixo ele acontecer. Então, a partir do momento em que eu entendi melhor como funciona a minha mente, eu tive em minhas mãos as ferramentas que eu precisava para sair desse ciclo que tanto me incomodava. Assim, eu penso que agora depende muito mais de mim, de eu querer que as coisas aconteçam, pois antes eu não tinha consciência do poder que meus pensamentos tinham sobre mim. Dessa forma, me sinto muito melhor, mais confiante para enfrentar este problema que tanto me incomodou.