13 outubro 2005

Sem Graça


Como o Dia Internacional de Atenção à Gagueira (DIAG) está aproximando-se, aproveito para publicar um texto escrito, em virtude deste dia, pela Fga. Priscilla Silveira, direcionado para as pessoas que sofrem com a gagueira. A mensagem vai ao encontro do tema da campanha pelo DIAG.

“Gagueira não tem graça. Tem tratamento.”

Meu desejo aqui não é teorizar sobre a gagueira, mas falar sobre a mesma a partir da perspectiva de alguém que lida com sujeitos gagos há alguns anos.

Assim, não falarei de uma patologia, mas de alguém que por ela se angustia, sofre, teme, foge de algo que todos julgam tão simples: falar. Não posso deixar de considerar, então, por outro lado, as pessoas que riem, contam piadas, mangam maldosamente deste assunto...

Pergunto-me: como podem achar graça? Saberiam eles o que é falar e não ser aceito? O que é querer ser falante como qualquer outro, mas não conseguir? Ou ficar com vontade de falar algo, mas preferir se silenciar a se expor? Creio que não.

Lembro-me agora de um paciente quando abordado sobre o que achava quando as pessoas completavam a fala dele e, surpreso, respondeu inocentemente: “não sei como as pessoas conseguem adivinhar o que vou falar! É sério! A palavra prende e elas já sabem o que vou falar!” Pergunto-me, mais uma vez: saberiam as pessoas o que é tentar falar e ser falado pelo outro?

Saiba que por trás de alguém que gagueja há alguém que tem a capacidade de falar, há alguém que busca incessantemente esta capacidade, porque quer ser igual a você, aceito por você. Mas a gagueira tem tratamento! O sujeito gago pode encontrar seu caminho. Concorda que será melhor se não colocarmos pedras que dificultem sua chegada?

Pois é, a gagueira é algo sério e você ainda não deve ter visto por esse lado. Quem sabe você também tenha um problema e não gostaria que agissem negativamente em relação a ele.

Chega de rir do que não tem graça! Eu não precisei ser gaga para achar isso...

Priscilla Silveira
Em homenagem a todos os sujeitos que buscam falar com liberdade!

07 outubro 2005

Forte e Fraco

A postagem de hoje é uma mensagem da Fga. Daniela Zackiewicz destinada a L. e K. que solicitaram ajuda na Lista Gagueira (endereço na coluna à direita), tendo em vista atravessarem momentos críticos com seus filhos. O texto está sendo publicado com o consentimento da autora. Eu o considero muito bonito, profundo, emotivo e de sensibilidade única. Talvez auxilie outros pais.

L. e K.
Tudo bem?
Como falei anteriormente, sou fono com mestrado e experiência clínica em gagueira. Meu marido apresenta gagueira e minha filha começou a apresentar também há 1 ano. Como trabalho com isso, eu tinha as informações prontamente sobre o que a família deve e pode fazer para ajudar a criança. Mas os livros, embora considerem muito o aspecto familiar da gagueira na infância, não consegue traduzir a dor, a angústia, o sofrimento, a impotência de você ver sua filha, que até o dia anterior apresentava algumas repetições no início da fala, sem tensão, sem comportamentos de evitação, de antecipação, conseguindo se expressar da forma mais linda e feliz que só uma criança pode fazer. De repente, aparecem os bloqueios, que duravam segundos intermináveis, a mãozinha levada à boca, mordendo os dedos, o olhar fixo cheio de lágrima. Um dia depois quase não queria mais falar... só apontava pra pedir as coisas... às vezes olhava pra mim com um olhinho assustado e falava “mamãe, eu não consigo mais falar”. Eu e meu marido esperávamos ela ir dormir para que pudéssemos chorar.

Foi a pior experiência da minha vida... Sentir a dor de um filho sofrendo...

Desde o início das primeiras repetições que ela apresentou nós já tentamos fazer algumas modificações em casa: deixamos os horários mais flexíveis, diminuímos as atividades fora de casa, priorizamos também brincadeiras não-verbais (o que é difícil de se fazer quando se tem um criança super falante) e procurávamos checar se estávamos dando tempo para ela se expressar, se havia momentos em que ela precisava competir pela nossa atenção...enfim, uma série de considerações que encontramos atualmente com bastante facilidade na literatura específica.

Mas duas coisas foram essenciais para nós nesse momento: A primeira foi a de reagir adequadamente ao problema. Adequadamente não quer dizer, como muitos pensam, apenas ignorando a gagueira e prestando atenção no conteúdo. Sim, isso é super importante mas se no momento a gagueira for algo que não está impedindo a criança de falar. Agora se a criança está num momento de sofrimento, sem conseguir falar, mordendo a mão, chorando... é impossível não reagir!!!!!

No consultório eu trabalho com técnicas de promoção da fluência, cujo início é você contrapor o forte (gagueira – bloqueio) e o fácil (fala relaxada). Tendo esse princípio em mente, quando a minha filha começou a ter bloqueios muito fortes eu reagia sim à gagueira, olhando pra ela e dizendo “filha, a mamãe sabe ... está difícil de falar, né? Você está falando forte... não tem problema... você está aprendendo a falar...”

O segundo aspecto foi uma intervenção imediata - dois dias depois que ela estava nessa gagueira muito grave eu iniciei uma intervenção fazendo-a perceber o que era forte e o que era fácil em movimentos motores (jogar uma bola, apertar o meu dedo) e na fala (ex: bola, falando apertando os lábios bem forte e, depois, suavemente). Isso era feito de forma bem simples, uma ou duas vezes por dia, em situações agradáveis, de brincadeira, para que ela percebesse “sozinha” que havia o jeito forte e o jeito fácil de fazer e, para que usasse “espontaneamente” esse padrão na fala. Ela começou, após alguns dias, a nomear: “mamãe falei forte” e, em outros momentos eu nomeava “nossa, como você falou fácil...”, ou ainda “nossa, esse foi forte, quer tentar falar fácil?”

Hoje faz aproximadamente um ano que a gagueira começou. Nesse tempo teve dias, semanas totalmente fluentes e períodos de gagueira. Mas ela conseguiu estabelecer uma reação imediata à gagueira. Ela suaviza e o bloqueio acaba passando sem esforço para vencê-lo. Às vezes ela ainda fala “mamãe, falei fácil”, mas com um sorriso no rosto.

04 outubro 2005

De Pai para Filha

O texto abaixo é uma carta de um pai para sua filha que gagueja. O risco pela tradução é meu. Foi retirado do sítio da Universidade do Estado de Minessota.


Porque as crianças se divertem de outras crianças

Para minha filha:

Minha filha, meu amor, eu desejo dizer-lhe algumas coisas. Eu sei que às vezes você pode não compreender tudo que eu escrevo para você, mas você irá, no seu tempo. Você sabe, eu quero vê-la bem sucedida na vida. Eu quero que você seja o melhor que você possa, apesar da gagueira. Você é a minha razão de ser, minha querida. Você faz-me tão orgulhoso!

O que nós falaremos é como você pode suceder na vida. Você fará somente o bem na escola! Com certeza, você enfrentará algumas situações bem resistentes, e talvez seja objeto de alguma ridicularização, mas nós estaremos preparados para isso, minha querida. Nós a enfrentaremos juntos!

Nós vamos tentar entender, antes de tudo, porque as crianças se divertem de outras crianças.

As pessoas estão sempre tentando "passar por cima" de alguma outra pessoa. É que às vezes, as pessoas se comparam a uma outra pessoa, com isso determinam se são ou não melhores do que a outra. E, às vezes, quando as pessoas pensam que você é melhor do que elas, começam a fazer piadas sobre você...riem de você. Este tipo de pessoa, na verdade, sente-se melhor quando podem rir do outro. Quando elas descobrem uma diferença no outro, pensam que isso as faz melhor do que você. Isto é muito comum entre pessoas mais novas. Mas o fato de uma pessoa ser baixa, alta, usar óculos ou gaguejar não a faz inferior a ninguém. Os outros que se divertem de você estão longe de serem perfeitos. Eles podem ser “os tais” agora, mas são muito inseguros sobre si. Por este motivo que eles fazem isso com você, porque vêem algo em você que acreditam que você é melhor do que eles. Meu bem, não ria com eles. Somente olhe-os nos olhos, ponha um pequeno sorriso em seus lábios e siga em frente. Não se incomode com isto. Não os deixem perceber. Se perceberem que você está magoada, eles ganham! E eu quero que você vença!

Todos têm algo que acreditam estar errado neles. Se não modificarem a idéia de “errado”, isto os impede de fazer o que desejam realizar. Assim, tornam-se pessoas infelizes. Você é uma pessoa maravilhosa, meu amor, e eu não quero que você mude em tudo! Em um outro momento, nós conversaremos sobre o que faz uma pessoa ser feliz consigo.

Seu Pai

30 setembro 2005

Como eu me sinto

No sítio de Gagueira da Universidade Estadual da Minnesota (EUA), na seção destinada para crianças (Just For Kids), encontrei alguns depoimentos sobre como elas se sentem quando são motivos de brincadeiras de mal gosto por causa de suas falas. Quem já viveu, sabe bem como é.

  • Eu me sinto mal quando as crianças zombam de mim, mas me sinto bem quando meus amigos tentam me ajudar (Kofi, 10 anos).
  • Sinto raiva quando sou zombado por causa da minha fala, e conto à minha mãe. (Tyler, 7 anos).
  • Isto me faz muito mal, deixando-me chateado e triste. Sinto vontade de dizer para eles pararem de me apelidarem. (Emron, 9 anos).
  • Algumas pessoas se divertem comigo por causa da gagueira. Sinto-me mal! Eu não gosto do que as pessoas fazem comigo. (Benjamim R., 10 anos).
  • Quando zombam de mim, fico triste e algumas vezes muito para baixo. Algumas vezes as crianças imitam minha maneira de falar (Veronica, 9 anos).
  • Quando gaguejo, isto me deixa com o coração caindo para dentro da barriga. É como se eu não tivesse amigos. Pessoas me apelidam, também. Eles me chamam de "a menina gaguinha". Eu tive um amigo que me defendeu e aquilo me deixou feliz. O nome dele é Jake. (Alina, 9 anos).
  • Quando eu gaguejo sinto como se ninguém gostasse de mim. Sinto como se meus amigos não me entendessem quando eu gaguejo e algumas vezes eles riem de mim. Fico muito chateado e mal. (Manuel, 9 anos).
  • Pessoas riem da minha gagueira. Sinto como não pudesse falar na escola. Quanto o professor me faz uma pergunta, fico com medo de gaguejar e então eu finjo que não sei a resposta. (Nora, 13 anos).
  • Eu me sinto mal quando a criançada se diverte de mim. Quando eles fazem isso, eu só quero correr e me esconder de todo mundo. (Cameron, 11 anos).
  • Sinto-me desencorajado quando as pessoas fazem piadas de mim. Eles dizem coisas do tipo "OLHA AQUELE MENINO QUE NÃO CONSEGUE FALAR DIREITO". Algumas vezes eu tenho vontade de bater neles. Meu 'professor de fala' - speech teacher - tenta encorajar-me a manter a calma. Meus pais sempre me ajudam também. (Jack, 10 anos).
  • Eles deveriam respeitar as diferenças das pessoas. (Micah, 11 anos).
  • As crianças riem de mim imitando o quê e como eu digo as coisas. Isto magoa meus sentimentos. (Kyle, 10 anos).
  • Eu odeio isso. Algumas vezes eu choro. (anônimo, 9 anos).

O Mundo precisa saber disso! As crianças do presente e do futuro não podem passar por isso!

27 setembro 2005

Mito



O assunto gagueira é tão mitificado, tão amedrontador, que até muitos de nós, gagos, têm vergonha de enviar o panfleto do DIAG para amigos, familiares e conhecidos.

É...o assunto é muito sério. Se fosse o Dia Internacional de Atenção ao Estupro, todos enviariam o panfleto. Sem pensar duas vezes!

26 setembro 2005

Truques na Fala



- Encurtar frase;
- Silenciar;
- Trocar palavras;
- Planejar a fala;
- Engolir;
- Aspirar pela boca;
- Fechar os olhos;
- Tensionar músculos;
- Prolongar sílabas;
- Uso de objetos amuletos;
- Palavras bengalas ou desnecessárias;
- Omissão de fonemas;
- Comportamentos disparadores da fala; entre outros.

Esses são alguns truques que elenquei após uma análise pessoal, leituras e troca de experiências com outras pessoas que gaguejam. Os truques são bastante utilizados por nós, como uma maneira que encontramos para tentar falar sem gaguejar. A origem de recorrermos a tais acessórios para falar remota das privações, vergonhas e podações que sofremos quando desejávamos falar algo. Era sempre uma reação negativa dos nossos ouvintes: pare!, pense!, respire!, fique calmo, risos, zombações... Em muitas oportunidades as pessoas agiram dessa forma na inocência de nos ajudar. Outras na pura falta de respeito e de civilidade. Logo, fomos tentando colocar nossas falas dentro "do padrão aceitável" pelos outros. Fomos interferindo no espontâneo da fala. Mas essas interferências em nada nos ajudam. Quanto mais criarmos truques para falar bem, menos falaremos.


Sílvia Friedman, a esse respeito, diz o seguinte:


"a interferência no automatismo da fala determina um movimento de consciência que permite antecipar ou pressupor a ocorrência de novas falhas, o que colabora para a formação de tensão no falar. Conduz também à busca de mecanismo para evitar as falhas previstas, como troca de palavras, interposição de palavras desnecessárias, omissão de fonemas, movimentos associados ao corpo, enfim, toda sorte de comportamentos que a mente puder inventar e que são usados como truques para alcançar um padrão de fala idealizado e aceito pelo outro".