Gagueira sob uma perspectiva que articula linguagem, subjetividade e sociedade.
19 outubro 2005
Significado do Evento
- Em sua opinião, o que representa, para as pessoas que gaguejam e para a área da fonoaudiologia, o evento Dia Internacional de Atenção à Gagueira?
O Dia Internacional de Atenção à Gagueira representa, em um primeiro momento, a união de pessoas que gaguejam e fonoaudiólogos com o objetivo de mobilizar a sociedade, prestando esclerecimentos e contribuindo para uma mudança na consciência coletiva a respeito da gagueira. A qualidade de vida de uma pessoa com gagueira depende diretamente do grau de consciência que as pessoas que a cercam tem a respeito do problema - pais, professores, amigos, conhecidos, chefes, funcionários, comerciantes...
O Dia Internacional de Atenção à Gagueira é também uma oportunidade para que haja, além da mobilização, uma confraternização das pessoas envolvidas com o tema gagueira. Essa troca de experiências pessoas e profissionais tem uma riqueza inestimável para todos.
Enfim, é um dia que nos lembra o quanto precisamos trabalhar para tornar o sonho de um mundo de respeito e dignidade para as pessoas que gaguejam. E também para comemorarmos os passos que demos em direção a isso.
Fga. Me. Daniela Veronica Zackiewicz
Vice-presidente da ABRA GAGUEIRA
daniela.veronica@itelefonica.com.br
www.abragagueira.org.br
17 outubro 2005
Fórum Aberto
Oportunidade para todos
"GAGUEIRA NÃO TEM GRAÇA. TEM TRATAMENTO"
Convite:
A partir deste dia 16 de outubro haverá um fórum de discussão sobre gagueira e suas múltiplas abordagens no site da ABRA GAGUEIRA (www.abragagueira.org.br) ou diretamente na página http://abragagueira.org.br/forumonline.html.
Serão disponibilizados textos de doze profissionais cujo foco de interesse principal é a gagueira. Eles abordarão seus embasamentos teóricos e suas visões terapêuticas. Será possível elaborar perguntas para que estes profissionais possam responder às dúvidas. Isto tudo estará à disposição das pessoas que gaguejam, dos que as cercam, e de todos os interessados no tema. Teremos assim a possibilidade de conhecer um pouco mais sobre a sofisticada e complexa condição da pessoa que gagueja e as alternativas terapêuticas disponíveis.
Haverá um formulário próprio para o envio das questões no final do texto de cada autor. Estas serão encaminhadas a eles e as respostas constarão no site para que todos tenham acesso às mesmas. Os textos serão de autoria dos seguintes profissionais:
Profª Drª Ana Schiefer
Profª Drªnda Anelise Junqueira Bohnen
Profª Drª Beatriz Ferriolli
Profª Drª Claudia Regina Furquim de Andrade
Profª Drª Cristiane Oliveira
Me. Eliana Maria Nigro Rocha
Me. Fernanda Papaterra Limongi
Profª Drª Ísis Meira
Profª Drª Maria Cláudia Cunha
Profª Drª Mônica Britto Pereira
Profª Drª. Regina Jakubovicz
Profª Drª Sílvia Friedman
Com certeza, todos aproveitarão intensamente esta oportunidade de diálogo que muito nos enriquecerá.
PARTICIPEM!
Um grande abraço da Comissão Organizadora Nacional
Fga. Me. Ignês Maia Ribeiro - ignes@uol.com.br
Fga. Me. Eliana Maria Nigro Rocha - eliananigrorocha@uol.com.br
Fga. Mestranda Sandra Merlo - sgmerlo@yahoo.com.br
Fga. Me. Daniela Verônica Zackiewicz - daniela.veronica@itelefonica.com.br
15 outubro 2005
Novos Ventos
Kibô = EsperançaA coisa começa a mudar.
A ABRA GAGUEIRA (da qual sou associado) está fazendo um excelente trabalho. Não deixem de participar do fórum on-line. Mandem sua pergunta, sua dúvida, seu depoimento. Muitas fonoaudiólogas capacitadas para tratar gagueira estarão ao nosso dispor.
Mas a ABRA GAGUEIRA não está sozinha. O CEFAC e o HSPE também estão trabalhando na causa. Em diversas cidades do país, fonoaudiólogas co-organizadoras do evento estarão desenvolvendo ações de conscientização. Em todas as regiões brasileiras há pelo menos uma co-organizadora. Saiba quais cidades participam: Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Cuiabá e Várzea Grande (MT), Florianópolis (SC), Fortaleza (CE), Goiânia (GO), Ipiranga do Sul (RS), Itajaí (SC), Londrina (PR), Manaus (AM), Natal (RN), Porto Alegre (RS), Salvador, Ilhéus e Itabuna (BA), São José dos Campos, São Vicente, Ribeirão Preto, Marília, Jundiaí e Itaí (SP), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e Vitória (ES).
Além disso, há ainda as fonoaudiólogas colaboradoras e as pessoas que gaguejam. Estas distribuirão cartazes e panfletos, manterão contatos com meios de comunicação e/ou darão palestras em suas cidades. Estas eu faço questão de citar. Pois, para quem gagueja não é fácil dá a cara para bater. São elea: Dielha Maciel dos Santos (Anápolis-GO), Denison Tosta Mirandola (Cariacica - ES), Verusca Lino da Silva (Ilhéus - BA), Renato Cruz (Manaus - AM), Luiz Cláudio Nazaré de Mendonça Procópio (Ouro Preto - MG), Roberta Alves de Oliveira (Salvador - BA), Roberto Tadeu da Silva (São Paulo- SP), Fábio Bremenkamp (Vitória - ES) e eu (Natal-RN). Para todos o meu profundo respeito e congratulações. É verdade que são poucos gagos, oficialmente, participando da campanha. Nas listas que participo existem pelo menos 400 pessoas. Porém, somente nove se dispuseram a participar. Somos poucos, mas vamos fazer muito. Vamos fazer o nosso melhor. Outros, de maneira anônima também estarão fazendo algo.
13 outubro 2005
Sem Graça

“Gagueira não tem graça. Tem tratamento.”
Meu desejo aqui não é teorizar sobre a gagueira, mas falar sobre a mesma a partir da perspectiva de alguém que lida com sujeitos gagos há alguns anos.
Assim, não falarei de uma patologia, mas de alguém que por ela se angustia, sofre, teme, foge de algo que todos julgam tão simples: falar. Não posso deixar de considerar, então, por outro lado, as pessoas que riem, contam piadas, mangam maldosamente deste assunto...
Pergunto-me: como podem achar graça? Saberiam eles o que é falar e não ser aceito? O que é querer ser falante como qualquer outro, mas não conseguir? Ou ficar com vontade de falar algo, mas preferir se silenciar a se expor? Creio que não.
Lembro-me agora de um paciente quando abordado sobre o que achava quando as pessoas completavam a fala dele e, surpreso, respondeu inocentemente: “não sei como as pessoas conseguem adivinhar o que vou falar! É sério! A palavra prende e elas já sabem o que vou falar!” Pergunto-me, mais uma vez: saberiam as pessoas o que é tentar falar e ser falado pelo outro?
Saiba que por trás de alguém que gagueja há alguém que tem a capacidade de falar, há alguém que busca incessantemente esta capacidade, porque quer ser igual a você, aceito por você. Mas a gagueira tem tratamento! O sujeito gago pode encontrar seu caminho. Concorda que será melhor se não colocarmos pedras que dificultem sua chegada?
Pois é, a gagueira é algo sério e você ainda não deve ter visto por esse lado. Quem sabe você também tenha um problema e não gostaria que agissem negativamente em relação a ele.
Chega de rir do que não tem graça! Eu não precisei ser gaga para achar isso...
Priscilla Silveira
07 outubro 2005
Forte e Fraco
L. e K.
Tudo bem?
Como falei anteriormente, sou fono com mestrado e experiência clínica em gagueira. Meu marido apresenta gagueira e minha filha começou a apresentar também há 1 ano. Como trabalho com isso, eu tinha as informações prontamente sobre o que a família deve e pode fazer para ajudar a criança. Mas os livros, embora considerem muito o aspecto familiar da gagueira na infância, não consegue traduzir a dor, a angústia, o sofrimento, a impotência de você ver sua filha, que até o dia anterior apresentava algumas repetições no início da fala, sem tensão, sem comportamentos de evitação, de antecipação, conseguindo se expressar da forma mais linda e feliz que só uma criança pode fazer. De repente, aparecem os bloqueios, que duravam segundos intermináveis, a mãozinha levada à boca, mordendo os dedos, o olhar fixo cheio de lágrima. Um dia depois quase não queria mais falar... só apontava pra pedir as coisas... às vezes olhava pra mim com um olhinho assustado e falava “mamãe, eu não consigo mais falar”. Eu e meu marido esperávamos ela ir dormir para que pudéssemos chorar.
Foi a pior experiência da minha vida... Sentir a dor de um filho sofrendo...
Desde o início das primeiras repetições que ela apresentou nós já tentamos fazer algumas modificações em casa: deixamos os horários mais flexíveis, diminuímos as atividades fora de casa, priorizamos também brincadeiras não-verbais (o que é difícil de se fazer quando se tem um criança super falante) e procurávamos checar se estávamos dando tempo para ela se expressar, se havia momentos em que ela precisava competir pela nossa atenção...enfim, uma série de considerações que encontramos atualmente com bastante facilidade na literatura específica.
Mas duas coisas foram essenciais para nós nesse momento: A primeira foi a de reagir adequadamente ao problema. Adequadamente não quer dizer, como muitos pensam, apenas ignorando a gagueira e prestando atenção no conteúdo. Sim, isso é super importante mas se no momento a gagueira for algo que não está impedindo a criança de falar. Agora se a criança está num momento de sofrimento, sem conseguir falar, mordendo a mão, chorando... é impossível não reagir!!!!!
No consultório eu trabalho com técnicas de promoção da fluência, cujo início é você contrapor o forte (gagueira – bloqueio) e o fácil (fala relaxada). Tendo esse princípio em mente, quando a minha filha começou a ter bloqueios muito fortes eu reagia sim à gagueira, olhando pra ela e dizendo “filha, a mamãe sabe ... está difícil de falar, né? Você está falando forte... não tem problema... você está aprendendo a falar...”
O segundo aspecto foi uma intervenção imediata - dois dias depois que ela estava nessa gagueira muito grave eu iniciei uma intervenção fazendo-a perceber o que era forte e o que era fácil em movimentos motores (jogar uma bola, apertar o meu dedo) e na fala (ex: bola, falando apertando os lábios bem forte e, depois, suavemente). Isso era feito de forma bem simples, uma ou duas vezes por dia, em situações agradáveis, de brincadeira, para que ela percebesse “sozinha” que havia o jeito forte e o jeito fácil de fazer e, para que usasse “espontaneamente” esse padrão na fala. Ela começou, após alguns dias, a nomear: “mamãe falei forte” e, em outros momentos eu nomeava “nossa, como você falou fácil...”, ou ainda “nossa, esse foi forte, quer tentar falar fácil?”
Hoje faz aproximadamente um ano que a gagueira começou. Nesse tempo teve dias, semanas totalmente fluentes e períodos de gagueira. Mas ela conseguiu estabelecer uma reação imediata à gagueira. Ela suaviza e o bloqueio acaba passando sem esforço para vencê-lo. Às vezes ela ainda fala “mamãe, falei fácil”, mas com um sorriso no rosto.
04 outubro 2005
De Pai para Filha
Porque as crianças se divertem de outras crianças
Para minha filha:
Minha filha, meu amor, eu desejo dizer-lhe algumas coisas. Eu sei que às vezes você pode não compreender tudo que eu escrevo para você, mas você irá, no seu tempo. Você sabe, eu quero vê-la bem sucedida na vida. Eu quero que você seja o melhor que você possa, apesar da gagueira. Você é a minha razão de ser, minha querida. Você faz-me tão orgulhoso!
O que nós falaremos é como você pode suceder na vida. Você fará somente o bem na escola! Com certeza, você enfrentará algumas situações bem resistentes, e talvez seja objeto de alguma ridicularização, mas nós estaremos preparados para isso, minha querida. Nós a enfrentaremos juntos!
Nós vamos tentar entender, antes de tudo, porque as crianças se divertem de outras crianças.
As pessoas estão sempre tentando "passar por cima" de alguma outra pessoa. É que às vezes, as pessoas se comparam a uma outra pessoa, com isso determinam se são ou não melhores do que a outra. E, às vezes, quando as pessoas pensam que você é melhor do que elas, começam a fazer piadas sobre você...riem de você. Este tipo de pessoa, na verdade, sente-se melhor quando podem rir do outro. Quando elas descobrem uma diferença no outro, pensam que isso as faz melhor do que você. Isto é muito comum entre pessoas mais novas. Mas o fato de uma pessoa ser baixa, alta, usar óculos ou gaguejar não a faz inferior a ninguém. Os outros que se divertem de você estão longe de serem perfeitos. Eles podem ser “os tais” agora, mas são muito inseguros sobre si. Por este motivo que eles fazem isso com você, porque vêem algo em você que acreditam que você é melhor do que eles. Meu bem, não ria com eles. Somente olhe-os nos olhos, ponha um pequeno sorriso em seus lábios e siga em frente. Não se incomode com isto. Não os deixem perceber. Se perceberem que você está magoada, eles ganham! E eu quero que você vença!
Todos têm algo que acreditam estar errado neles. Se não modificarem a idéia de “errado”, isto os impede de fazer o que desejam realizar. Assim, tornam-se pessoas infelizes. Você é uma pessoa maravilhosa, meu amor, e eu não quero que você mude em tudo! Em um outro momento, nós conversaremos sobre o que faz uma pessoa ser feliz consigo.
Seu Pai
