Amigos, para nosso deleite (como afirmou Renato Cruz) temos um novo sítio voltado para "abordar a Fluência, Disfluência e Gagueira na visão dialético-histórica". Trata-se do "Gagueira - Novos Paradigmas", das Fonoaudiólogas Silvia Friedman, Polyana de Oliveira e Mariangela Zulian.
Na seção "Vínculos" ficará permanentemente o endereço. Aliás, eu agradeço às fonoaudiólogados do Gagueira - Novos Paradigmas por terem feito o mesmo com esse modesto blog.
Aliás, aproveito a oportunidade para colocar também na mesma seção outra novidade, o sítio "Gagueira on-line", da Fonoaudióloga Ignês Ribeiro.
Acessem-nos, leiam-nos, conheçam-nos, descubram-nos, quebrem velhos paradigmas, mudem...
Parabéns às autoras.
Gagueira sob uma perspectiva que articula linguagem, subjetividade e sociedade.
27 novembro 2005
26 novembro 2005
Relatos de um Paciente - Parte Final
continuando...
Apesar de todos os meus esforços em determinadas situações, ainda o medo aparecia.
Soube que se eu enfrentasse as situações, principalmente aquelas nas quais eu sentia medo, aos poucos eu iria descobrindo minha realidade e a realidade das coisas que ocorriam em mim e o medo iria diminuindo.
Já havia conseguido muitos progressos, mas os gaguejos ainda ocorriam e eu não os aceitava. Vi que em determinadas situações eu sentia mais fortemente que, por causa da gagueira, eu me frustrava e me punia. Aos poucos, por causa do que era trabalhado na terapia, fui percebendo que ninguém me punia pela gagueira e que a minha fobia de gaguejar era fruto apenas de minha fantasia. Comecei então a analisar as reações das outras pessoas e a perceber manifestações diferentes daquelas que eu estava imaginando. Passei a notar, muitas vezes, reações que indicavam aceitação e se, pelo contrário, a reação era de crítica, gozação, não-aceitação, eu me trabalhava, como fiz algumas vezes na terapia, para entender aquela pessoa e entender sua reação como sendo fruto de suas próprias dificuldades.
Assim, progressivamente, o medo das situações e de gagueira ia desaparecendo. Eu passava a compreender melhor tudo. Situações que antes eram difíceis iam se tornando mais fáceis, a tensão do corpo ia diminuindo e eu também progressivamente ia podendo transformar minha fala gaguejada em fala fluente.
Eu continuava a trabalhar a minha gagueira, na terapia e fora dela. Em casa eu fazia uma série de exercícios pra me preparar melhor para as situações de fala. Aí, nessas situações, era importante manter a minha consciência direcionada para meu modo de falar. Era importante fazer isso também quando eu estava numa situação natural de comunicação com um amigo ou até com um desconhecido. Aos poucos eu ia podendo comandar a minha fala e não gaguejar mais.
Após um ano e alguns meses de terapia, ainda me encontro descobrindo o que aconteceu comigo na hora da gagueira e em todos os momentos do dia eu vou modificando aquilo que vejo e que percebo que está errado. Às vezes me parece ter descoberto tudo que possa haver de errado comigo, mas depois de algum tempo descubro coisas novas e mais importantes.
Em todo esse tempo de descobertas, meu interior foi-se afirmando cada vez mais, e eu passei a confiar mais em mim e nas minhas possibilidades de melhorar minha comunicação.
Atualmente, o que está acontecendo comigo e o que eu sinto é algo totalmente diferente daquilo que há um ano e meio eu sentia. Sinto que estou eu mesmo, aceitando minha vida real e descobrindo novos valores em minha pessoa. Ainda estou gaguejando, mas estes gaguejos são muito leves, às vezes imperceptíveis, e não interferem mais na comunicação e na colocação de conteúdos. Meu interior já está bastante mais afirmado e equilibrado. Continuo me analisando e descobrindo coisas novas. A tensão e o envolvimento emocional continuam diminuindo e eu estou conseguindo não mais reprimir meus sentimentos. Em muitas situações estou conseguindo ser eu mesmo e consigo me comunicar e ser aberto às pessoas. Assumi meu problema e embora deixe o tratamento especializado da terapia, creio que agora estou apto e tenho forças para caminhar sozinho na conquista de minha nova posição de vida.
___________________________
Amigos, chega ao final o relato bem sucedido de uma terapia. Como eu falei, as palavras de G.A. se parecem muito com as que eu poderia escrever. Tomo-as como se fossem minhas para transmitir-lhes que realmente existe tratamento para a Gagueira. O indivíduo que alcança o patamar que G.A. alcançou vê a gagueira de outra forma. Eu por exemplo, já enxergo a gagueira como um presente divino, que me fez evoluir, sair de um ponto indesejado para outro mais interessante, e com isso poder ajudar outras pessoas que por ventura passem por tudo o que eu já vivenciei. É Eleide, nossa luta é GRATIFICANTE!
PS: Quem tiver algum contato com G.A., por favor avise-o que eu gostaria de trocar uma idéia com ele. Ele foi paciente de Isis Meira, alguém que a conheça pode diminuir a distância entre G.A. e esse blog. Agradeço desde já!
Minha Terapia (Parte Final)
Apesar de todos os meus esforços em determinadas situações, ainda o medo aparecia.
Soube que se eu enfrentasse as situações, principalmente aquelas nas quais eu sentia medo, aos poucos eu iria descobrindo minha realidade e a realidade das coisas que ocorriam em mim e o medo iria diminuindo.
Já havia conseguido muitos progressos, mas os gaguejos ainda ocorriam e eu não os aceitava. Vi que em determinadas situações eu sentia mais fortemente que, por causa da gagueira, eu me frustrava e me punia. Aos poucos, por causa do que era trabalhado na terapia, fui percebendo que ninguém me punia pela gagueira e que a minha fobia de gaguejar era fruto apenas de minha fantasia. Comecei então a analisar as reações das outras pessoas e a perceber manifestações diferentes daquelas que eu estava imaginando. Passei a notar, muitas vezes, reações que indicavam aceitação e se, pelo contrário, a reação era de crítica, gozação, não-aceitação, eu me trabalhava, como fiz algumas vezes na terapia, para entender aquela pessoa e entender sua reação como sendo fruto de suas próprias dificuldades.
Assim, progressivamente, o medo das situações e de gagueira ia desaparecendo. Eu passava a compreender melhor tudo. Situações que antes eram difíceis iam se tornando mais fáceis, a tensão do corpo ia diminuindo e eu também progressivamente ia podendo transformar minha fala gaguejada em fala fluente.
Eu continuava a trabalhar a minha gagueira, na terapia e fora dela. Em casa eu fazia uma série de exercícios pra me preparar melhor para as situações de fala. Aí, nessas situações, era importante manter a minha consciência direcionada para meu modo de falar. Era importante fazer isso também quando eu estava numa situação natural de comunicação com um amigo ou até com um desconhecido. Aos poucos eu ia podendo comandar a minha fala e não gaguejar mais.
Após um ano e alguns meses de terapia, ainda me encontro descobrindo o que aconteceu comigo na hora da gagueira e em todos os momentos do dia eu vou modificando aquilo que vejo e que percebo que está errado. Às vezes me parece ter descoberto tudo que possa haver de errado comigo, mas depois de algum tempo descubro coisas novas e mais importantes.
Em todo esse tempo de descobertas, meu interior foi-se afirmando cada vez mais, e eu passei a confiar mais em mim e nas minhas possibilidades de melhorar minha comunicação.
Atualmente, o que está acontecendo comigo e o que eu sinto é algo totalmente diferente daquilo que há um ano e meio eu sentia. Sinto que estou eu mesmo, aceitando minha vida real e descobrindo novos valores em minha pessoa. Ainda estou gaguejando, mas estes gaguejos são muito leves, às vezes imperceptíveis, e não interferem mais na comunicação e na colocação de conteúdos. Meu interior já está bastante mais afirmado e equilibrado. Continuo me analisando e descobrindo coisas novas. A tensão e o envolvimento emocional continuam diminuindo e eu estou conseguindo não mais reprimir meus sentimentos. Em muitas situações estou conseguindo ser eu mesmo e consigo me comunicar e ser aberto às pessoas. Assumi meu problema e embora deixe o tratamento especializado da terapia, creio que agora estou apto e tenho forças para caminhar sozinho na conquista de minha nova posição de vida.
FIM
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Amigos, chega ao final o relato bem sucedido de uma terapia. Como eu falei, as palavras de G.A. se parecem muito com as que eu poderia escrever. Tomo-as como se fossem minhas para transmitir-lhes que realmente existe tratamento para a Gagueira. O indivíduo que alcança o patamar que G.A. alcançou vê a gagueira de outra forma. Eu por exemplo, já enxergo a gagueira como um presente divino, que me fez evoluir, sair de um ponto indesejado para outro mais interessante, e com isso poder ajudar outras pessoas que por ventura passem por tudo o que eu já vivenciei. É Eleide, nossa luta é GRATIFICANTE!
PS: Quem tiver algum contato com G.A., por favor avise-o que eu gostaria de trocar uma idéia com ele. Ele foi paciente de Isis Meira, alguém que a conheça pode diminuir a distância entre G.A. e esse blog. Agradeço desde já!
21 novembro 2005
Entrevista para o RN TV - Repercussão

Antes de falar como foi a repercussão da entrevista, vou abordar o dia antes, o domingo. Este dia foi meio complicado, pois eu estava meio ressecado de algumas cerveja que bebi com meu futuro sogro. Passei o domingo todo indisposto, mas nada comparado com o finalzinho da tarde, adentrando à noite. O enjôo tomou conta por completo. Comecei a sentir calafrios, dores na barriga, ânsia de vômito, entre outras coisa típicas de quando eu ficava nervoso por ter que falar em uma entrevista de emprego, apresentação de trabalhos...Então, eu liguei essas sensações à entrevista que daria na segunda-feira. A noite toda fiquei deitado e conversando com minha namorada. Falei para ela que eu não estava me sentido capacitado para ser entrevistado e abrir para todo mundo o lado mais íntimo e mais sensível da minha vida. Cheguei a ligar para o meu contato dentro da TV Cabugi para desmarcar, mas (na hora) infelizmente não consegui falar com ele. Minha namorada percebendo o meu "nervosismo", sentou-se ao meu lado e começou a escrever algo que dizia ser a preparação da sua aula. E por ali ficou escrevendo até que ao final surpreendeu-me com uma cartinha de incentivo, dando-me como conselho fazer a matéria, pois o lado social seria muito compensador. Algum tempo depois de ler a cartinha, senti um forte enjôo e vomitei. Ainda bem que depois disso eu mudei completamente. Como eu não sou de beber demasiadamente, como nunca ficara enjoado por causa de bebida, relacionei tudo que eu estava sentido com a matéria que faria no dia seguinte. Ledo engano. Era tudo decorrente da bebida e eu não sabia. Depois disso e da leitura da cartinha da minha namorada, a disposição e a vontade de ser entrevistado, de falar sobre a gagueira de modo sério, de fazer a minha parte para mudar a imagem qua a sociedade tem dos gagos e da gagueira, tomou conta de mim (sem falar que eu sempre solicitei a programas de TV que abordassem o assunto, eu não poderia amarelar). Vamos à repercussão...
Após a veiculação da matéria sobre gagueira, no RN TV 1ª Edição, ocorreram (e ainda ocorrem) algumas reações das pessoas. Assim que terminou, um vizinho bem antigo me ligou, super-emocionado, parabenizando-me e dizendo-se surpresso porque não sabia que eu era gago, que eu era "muito macho" para ter ido à televisão falar sobre isso e que imaginava as dificuldades que eu enfrentara. Agradeci o gesto e disse-lhe que também estava emocionado (assisti à matéria o tempo todo com lágrimas nos olhos). Além dele, muito familiares e amigos falaram que a reportagem ficou muito bem feita; meu pai disse que eu fiz um belo trabalho social; minha futura sogra elogiou bastante a entrevista; minha irmã parabenizou-me pelo desafio vencido; meu cunhado também ficou impressionado com a seriedade dada ao assunto; meus avós gostaram muito também; tios e tias ficaram muito contentes por mim; minha namorada ficou super-orgulhosa e eu estou muito bem comigo, nunca senti emoção igual. Além de ser a realização de um sonho que sempre imaginei (dar entrevistas - só não sabia que seria sobre o meu maior dos calos), mas que era visto com muitas limitações, foi algo que fiz pensando em todos os meus amigos e colegas que enfrentam diversos obstáculos por causa da gagueira.
O melhor de tudo é que depois da reportagem, eu tenho conversado com diversas pessoas sobre mim, sobre a minha evolução e também sobre a gagueira. O que antes eu nunca conseguiria fazer, conversar sobre gagueira, hoje é o meu assunto predileto. Tenho grande prazer em abordar o assunto, em conscientizar os meus interlocutores e sempre tenho mostrado a realidade dos gagos e que realmente Gagueira Não Tem Graça, Tem Tratamento. Por falar nisso, sobre esta frase gostaria de dizer algo mais para terminar esta postagem: amigos, percebam que ela tem duas partes. A primeira é "Gagueira Não tem Graça" e é direcionada para a população em geral, para conscientizá-la da seriedade do assunto. A segunda, "Tem Tratamento", é para nós, os gagos, que devemos buscar ajudar capacitada, tem muita fono preparada para tratar-nos (mas informe-se bem, nem toda fonoaudióloga sabe tratar gagueira) e ajudar-nos a sairmos de dentro do casulo e voarmos sobre os nossos obstáculos. Só depende de cada um. O tratamento fonoaudiológico exige muita entrega, dedicação e trabalho pessoais para mudar o nosso modo de pensar a fala e de falar.
15 novembro 2005
Relatos de um Paciente - Parte II
continuando...
Como, pois, eliminar estes hábitos de tensão, intensificados pela não aceitação e pelo desequilíbrio emocional? Os dois pontos primeiros me foram bastante fáceis de compreensão e de modificação, mas o terceiro só há pouco tempo eu o compreendi. Mas, ainda era muito nebuloso e eu só compreendia e experimentava em algumas situações. Os conteúdos com que devia trabalhar não eram mais palpáveis e nem externos, mas apenas sentimentais, espirituais e internos. Por isso me foram muito difíceis de compreensão e de análise e só foram compreendidos quando muito trabalhados na terapia.
Comecei a trabalhar-me mais com relação a este ponto. Foi um trabalho intenso na análise das situações e de seu significado para lidar com o meu medo. Tudo me trazia medo. Descobri que o meu medo provinha da fantasia da realidade. Esta, por sua vez provocava-me a tendência de antecipar as situações e com isso a ansiedade. Analisei detalhadamente como ocorria a ansiedade e vi que provinha de medos que minha fantasia criava. Lutei então para me livrar das fantasias e quis conhecer toda a realidade de meu corpo e a realidade que me cercava. Percebi que tinha toda uma idéia e uma concepção errada das coisas que me cercavam durante toda a minha vida. Com o conhecimento da realidade mais acentuado, a fantasia e a ansiedade foram diminuindo progressivamente; assim também o medo. Desse modo comecei a sentir a vida como ela realmente é, pois comecei a viver o momento presente com coisas reais e já comecei a me identificar como pessoa e a tomar uma posição diante da vida. Minha vida começou a ficar mais clara e meu modo de viver também foi tomando novos rumos. Mas nesse meio tempo de conquistas internas ocorreram muitas operações tartarugas, isto é, uma parada, talvez acomodação, para depois haver uma conscientização maior de todas as descobertas que eu fizera.
A tensão do corpo já tinha diminuído muito e eu percebia-me sob novos horizontes e novos aspectos da vida. Porém as descobertas que eu havia feito não eram todas, ainda me restava um longo caminho, talvez, de uma vida toda.
Percebendo a realidade sob novos aspectos e sem emoção, quis trabalhar-me mais especificamente com respeito à fala. Vi que enquanto falava o que ocorria em mim era realmente alteração da tensão, naturalmente muitas vezes influenciada pela emoção inadequada e não-aceitação da gagueira, que estavam já sendo trabalhadas. Passei então a combinar todas as descobertas que havia feito com respeito à tensão, às emoções e aos hábitos de fala, para modificar minha fala e meus gaguejos. Para isso tive que conscientizar-me de todo o meu mecanismo de produção de fala e também analisar como deveria ser o seu funcionamento normal.
A verbalização é um mecanismo que serve para a comunicação de sentimentos, de palavras, de sons e de conceitos, mas ela, em si, não deve trazer nenhuma alteração da tensão e não pode, habitualmente, ser tão alterada pela emoção. Percebi que eu sou o responsável pela inadequada alteração da tensão e pelo inadequado uso da emoção na minha comunicação. Por isso o que deveria ser feito era:
1) conscientizar-me de minha realidade, percebê-la como distorcida, lidar com minhas emoções de uma forma mais equilibrada;
2) perceber meu corpo, reconhecer as alterações de tensão e as ações musculares inadequadas e;
3) partir para as modificações.
Minha atitude interna aos poucos foi se firmando e eu fui começando a perceber toda a inadequação do meu posicionamento anterior. Descobri também que na comunicação existiam dois papéis, o de receptor e o de emissor, e para que a comunicação fosse boa, era preciso assumir-los integralmente. Percebi que a antecipação que ocorria pela fantasia, me tirava da realidade e o medo aparecia e interferia em meus papéis de emissor e receptor. Assumindo todos estes papéis na íntegra, minha comunicação se tornava uma participação e um aproveitamento de novos conteúdos e novas descobertas. Vi também que se eu assumisse todos os meus papéis de receptor e de emissor adequadamente e "controlasse" todos os distúrbios e desequilíbrios internos, eu permaneceria vivendo o presente da situação e não ocorreria mais a fantasia e os medos exagerados e infundados.
Minha Terapia (Parte II)
Como, pois, eliminar estes hábitos de tensão, intensificados pela não aceitação e pelo desequilíbrio emocional? Os dois pontos primeiros me foram bastante fáceis de compreensão e de modificação, mas o terceiro só há pouco tempo eu o compreendi. Mas, ainda era muito nebuloso e eu só compreendia e experimentava em algumas situações. Os conteúdos com que devia trabalhar não eram mais palpáveis e nem externos, mas apenas sentimentais, espirituais e internos. Por isso me foram muito difíceis de compreensão e de análise e só foram compreendidos quando muito trabalhados na terapia.
Comecei a trabalhar-me mais com relação a este ponto. Foi um trabalho intenso na análise das situações e de seu significado para lidar com o meu medo. Tudo me trazia medo. Descobri que o meu medo provinha da fantasia da realidade. Esta, por sua vez provocava-me a tendência de antecipar as situações e com isso a ansiedade. Analisei detalhadamente como ocorria a ansiedade e vi que provinha de medos que minha fantasia criava. Lutei então para me livrar das fantasias e quis conhecer toda a realidade de meu corpo e a realidade que me cercava. Percebi que tinha toda uma idéia e uma concepção errada das coisas que me cercavam durante toda a minha vida. Com o conhecimento da realidade mais acentuado, a fantasia e a ansiedade foram diminuindo progressivamente; assim também o medo. Desse modo comecei a sentir a vida como ela realmente é, pois comecei a viver o momento presente com coisas reais e já comecei a me identificar como pessoa e a tomar uma posição diante da vida. Minha vida começou a ficar mais clara e meu modo de viver também foi tomando novos rumos. Mas nesse meio tempo de conquistas internas ocorreram muitas operações tartarugas, isto é, uma parada, talvez acomodação, para depois haver uma conscientização maior de todas as descobertas que eu fizera.
A tensão do corpo já tinha diminuído muito e eu percebia-me sob novos horizontes e novos aspectos da vida. Porém as descobertas que eu havia feito não eram todas, ainda me restava um longo caminho, talvez, de uma vida toda.
Percebendo a realidade sob novos aspectos e sem emoção, quis trabalhar-me mais especificamente com respeito à fala. Vi que enquanto falava o que ocorria em mim era realmente alteração da tensão, naturalmente muitas vezes influenciada pela emoção inadequada e não-aceitação da gagueira, que estavam já sendo trabalhadas. Passei então a combinar todas as descobertas que havia feito com respeito à tensão, às emoções e aos hábitos de fala, para modificar minha fala e meus gaguejos. Para isso tive que conscientizar-me de todo o meu mecanismo de produção de fala e também analisar como deveria ser o seu funcionamento normal.
A verbalização é um mecanismo que serve para a comunicação de sentimentos, de palavras, de sons e de conceitos, mas ela, em si, não deve trazer nenhuma alteração da tensão e não pode, habitualmente, ser tão alterada pela emoção. Percebi que eu sou o responsável pela inadequada alteração da tensão e pelo inadequado uso da emoção na minha comunicação. Por isso o que deveria ser feito era:
1) conscientizar-me de minha realidade, percebê-la como distorcida, lidar com minhas emoções de uma forma mais equilibrada;
2) perceber meu corpo, reconhecer as alterações de tensão e as ações musculares inadequadas e;
3) partir para as modificações.
Minha atitude interna aos poucos foi se firmando e eu fui começando a perceber toda a inadequação do meu posicionamento anterior. Descobri também que na comunicação existiam dois papéis, o de receptor e o de emissor, e para que a comunicação fosse boa, era preciso assumir-los integralmente. Percebi que a antecipação que ocorria pela fantasia, me tirava da realidade e o medo aparecia e interferia em meus papéis de emissor e receptor. Assumindo todos estes papéis na íntegra, minha comunicação se tornava uma participação e um aproveitamento de novos conteúdos e novas descobertas. Vi também que se eu assumisse todos os meus papéis de receptor e de emissor adequadamente e "controlasse" todos os distúrbios e desequilíbrios internos, eu permaneceria vivendo o presente da situação e não ocorreria mais a fantasia e os medos exagerados e infundados.
continua...
Entrevista para o RN TV
Amigos, ontem fui entrevistado para a TV Cabugi, filiada à Rede Globo, para transmissão do sinal aqui no Rio Grande do Norte. O programa será trasmitido amanhã, quarta-feira. Passará no quadro "Como vai sua saúde?", do RN TV 1ª Edição, minha fono também será entrevistada.
Apesar do repórter ter chegado para a entrevista com alguns preconceitos, espero ter passado para ele a seriedade que o assunto merece. Estou ansioso para ver a matéria montada. Nunca se sabe o tom que eles darão ao editá-la. Mas uma coisa é certa, eles não podem alterar o conteúdo sério das minhas palavras.
Apesar do repórter ter chegado para a entrevista com alguns preconceitos, espero ter passado para ele a seriedade que o assunto merece. Estou ansioso para ver a matéria montada. Nunca se sabe o tom que eles darão ao editá-la. Mas uma coisa é certa, eles não podem alterar o conteúdo sério das minhas palavras.
08 novembro 2005
Relatos de um Paciente - Parte I
Amigos, primeiramente quero me desculpar pela ausência de novas postagens neste blog. É que estou muito ocupado, estudando bastante.
Mas, para não deixar este espaço muito abandonado, colocarei um relato do paciente G.A. que li no livro "Tratando Gagueira - Diferentes Abordagens", organizado pela Fonoaudióloga Isís Meira, ela também foi a responsável pelo tratamento do paciente em destaque.
O relato é relativamente extenso, por esse motivo dividirei-o em três partes. Uma breve introdução: o paciente teve o nome preservado pela fonoaudióloga. G.A é formado em Administração de Empresas, seu trabalho exigia bastante comunicação verbal, o que o deixava muito ansioso e preocupado. O medo, a vergonha de se mostrar gago estava interferindo na sua carreira profissional e o impedindo de crescer. G.A. dedicou-se à terapia, evoluiu bastante em relção à fala e em sua última sessão, surpreendeu a fono “com um relato sobre todo o seu processo, cheio de dificuldades, de altos e baixos, de idas e vindas, mas que evidenciava uma tomada de consciência progressiva, uma mudança trabalhada, que aos poucos se tornava definitivamente parte de seu modo de pensar a gagueira”.
Decidi colocar este relato aqui, pois tem muita coisa parecida com a minha evolução, está muito bem escrito e pode/deve servir de estímulo a todos que sofrem por gaguejar. Tenham todos uma boa leitura.
Minha vida até antes da terapia de gagueira que eu estou agora fazendo era um caos interior. Tentei buscar por todos os meios imagináveis e possíveis, a solução imediata para meu problema. Vivia frustrado, ansioso, com medo das pessoas, com medo das situações, com medo das palavras, com medo de gaguejar, com medo de ser eu mesmo. Tinha pesadelos, dores de estômago, vontade de fugir; não queria que me identificassem como gago de jeito nenhum. Todas as tentativas feitas para “curar” minha gagueira tinham sido frustradas e eu me acreditava irremediavelmente condenado a viver minha vida como um “gago”. Tinha lido e sabia que muitos tinham conseguido vencer a gagueira e que agora eram pessoas de destaque. Mas eu já não me acreditava com possibilidades de vencer, ou seja, “curar” minha gagueira. Não tinha mais confiança em nenhum método ou forma que me curasse do problema e da situação desesperadora em que eu me encontrava.
Fiz muitos tratamentos com pessoas que se interessaram por meu caso, e obtive algumas melhoras temporárias, mas depois de algum tempo retornava ao meu velho hábito de gagueira e insatisfação interior. Fiz também um tratamento por correspondência, mas neste eu não obtive melhora. Foi quando comecei esta terapia como última tentativa para “curar” minha gagueira.
Pensei que então tinha achado a “pílula mágica” para resolver meu problema. Mas o que ocorreu não foi nada disso. A terapia desenvolveu-se em uma abordagem totalmente diferente daquela que eu esperava. Eu esperava que com algumas sessões ficaria curado de imediato. Foi quando soube que eu era o responsável pelo tempo que gastaria, ou seja, eu trabalharia no meu problema; e que apenas eu deveria e poderia “curar” minha gagueira. E soube de mais uma coisa: que era totalmente impossível eu deixar de ser gago, isto é, eu deixar de ter a possibilidade de gaguejar. Eu poderia não gaguejar, se me mantivesse cuidando da gagueira, mas eu continuaria sendo um gago, mesmo que a gagueira nunca mais aparecesse.
Comecei então minha terapia da gagueira. Percebi que na gagueira tinha um círculo vicioso onde se podia enumerar com exatidão dois pontos: a tensão acentuada no corpo, a emoção e a não-aceitação que eu sentia.
Tudo ainda me parecia nebuloso e difícil de compreender. Sabia que estes pontos, quando em equilíbrio, funcionavam conjuntamente. Por ora deveria trabalhá-los individualmente para percebê-los, mas naturalmente, para mais adiante, eles começariam a se complementar.
Aprendi que deveria detectar o que realmente sentia e o que ocorria em mim quando gaguejava.
Pelos exercícios de relaxamento fui percebendo o estado de tensão em que me encontrava. Meu corpo estava totalmente desregulado e desequilibrado. Aos poucos fui percebendo-me com todas as partes tensas; músculos, movimentos, gestos, juntas etc. Trabalhei com relaxamentos acentuados, para perceber minha tensão no corpo inteiro, já que no momento da gagueira muitas partes do corpo tinham a tensão alterada. Um pouco cada dia percebia que ia modificando meu estado de tensão em um estado de maior relaxamento e bem-estar.
Toda a musculatura que participava especificamente da gagueira, atuando de uma forma imprópria, inadequada, foi também muito trabalhada. Além do trabalho executado durante as sessões, foi meu dado como tarefa trabalhar em casa, contato que este trabalho pudesse ser feito de forma consciente.
Conjuntamente a esse trabalho da tensão do corpo, trabalhei-me no aspecto ligado diretamente à fala. Quis modificar minha maneira de falar, ou seja, de gaguejar, de uma maneira tensa e afobada, apressada e rígida, para uma soltura geral. Também aqui percebi que houve um crescimento constante e uma mudança progressiva e importante com respeito aos gaguejos.
Mas isso não era tudo. Ainda sentia medo, frustração, vergonha, ansiedade, vontade de fugir. Procurei então, com a ajuda da terapia, enfrentar e descobrir o que me deixava neste estado de angústia interior e vontade de fugir. Aí foi que descobri o que de mais importante achei na terapia e que aos poucos foi se desenvolvendo para uma para uma maior segurança e posicionamento na realidade.
Descobri que o que era mais importante era o que se passava dentro de mim, o que eu sentia dentro de mim com respeito à gagueira. Aos poucos fui percebendo que o aspecto emocional está ligado intimamente à fala e ao equilíbrio interno. Meu equilíbrio interior estava totalmente desconcertado e desequilibrado, de modo que a não-aceitação da gagueira a angústia e a frustração iam aumentando cada vez mais. A minha grande descoberta então, foi com respeito à atitude interna, que ficava escondida ou reprimida. O que era mais importante não era o que aparecia, ou seja, a gagueira, mas o que me conduzia a ela. Percebi que a gagueira mais acentuada só aparecia quando eu me encontrava em um estado de medo, frustração, fuga, ansiedade e vergonha; isto é, quando internamente eu estava abalado e desequilibrado ela se intensificava e ficava mais difícil mudar os meus hábitos musculares que formavam a gagueira. Eu soube, então, que a gagueira era um hábito que sempre ocorria para mim em determinadas situações.
Mas, para não deixar este espaço muito abandonado, colocarei um relato do paciente G.A. que li no livro "Tratando Gagueira - Diferentes Abordagens", organizado pela Fonoaudióloga Isís Meira, ela também foi a responsável pelo tratamento do paciente em destaque.O relato é relativamente extenso, por esse motivo dividirei-o em três partes. Uma breve introdução: o paciente teve o nome preservado pela fonoaudióloga. G.A é formado em Administração de Empresas, seu trabalho exigia bastante comunicação verbal, o que o deixava muito ansioso e preocupado. O medo, a vergonha de se mostrar gago estava interferindo na sua carreira profissional e o impedindo de crescer. G.A. dedicou-se à terapia, evoluiu bastante em relção à fala e em sua última sessão, surpreendeu a fono “com um relato sobre todo o seu processo, cheio de dificuldades, de altos e baixos, de idas e vindas, mas que evidenciava uma tomada de consciência progressiva, uma mudança trabalhada, que aos poucos se tornava definitivamente parte de seu modo de pensar a gagueira”.
Decidi colocar este relato aqui, pois tem muita coisa parecida com a minha evolução, está muito bem escrito e pode/deve servir de estímulo a todos que sofrem por gaguejar. Tenham todos uma boa leitura.
Minha Terapia (parte I)
Minha vida até antes da terapia de gagueira que eu estou agora fazendo era um caos interior. Tentei buscar por todos os meios imagináveis e possíveis, a solução imediata para meu problema. Vivia frustrado, ansioso, com medo das pessoas, com medo das situações, com medo das palavras, com medo de gaguejar, com medo de ser eu mesmo. Tinha pesadelos, dores de estômago, vontade de fugir; não queria que me identificassem como gago de jeito nenhum. Todas as tentativas feitas para “curar” minha gagueira tinham sido frustradas e eu me acreditava irremediavelmente condenado a viver minha vida como um “gago”. Tinha lido e sabia que muitos tinham conseguido vencer a gagueira e que agora eram pessoas de destaque. Mas eu já não me acreditava com possibilidades de vencer, ou seja, “curar” minha gagueira. Não tinha mais confiança em nenhum método ou forma que me curasse do problema e da situação desesperadora em que eu me encontrava.
Fiz muitos tratamentos com pessoas que se interessaram por meu caso, e obtive algumas melhoras temporárias, mas depois de algum tempo retornava ao meu velho hábito de gagueira e insatisfação interior. Fiz também um tratamento por correspondência, mas neste eu não obtive melhora. Foi quando comecei esta terapia como última tentativa para “curar” minha gagueira.
Pensei que então tinha achado a “pílula mágica” para resolver meu problema. Mas o que ocorreu não foi nada disso. A terapia desenvolveu-se em uma abordagem totalmente diferente daquela que eu esperava. Eu esperava que com algumas sessões ficaria curado de imediato. Foi quando soube que eu era o responsável pelo tempo que gastaria, ou seja, eu trabalharia no meu problema; e que apenas eu deveria e poderia “curar” minha gagueira. E soube de mais uma coisa: que era totalmente impossível eu deixar de ser gago, isto é, eu deixar de ter a possibilidade de gaguejar. Eu poderia não gaguejar, se me mantivesse cuidando da gagueira, mas eu continuaria sendo um gago, mesmo que a gagueira nunca mais aparecesse.
Comecei então minha terapia da gagueira. Percebi que na gagueira tinha um círculo vicioso onde se podia enumerar com exatidão dois pontos: a tensão acentuada no corpo, a emoção e a não-aceitação que eu sentia.
Tudo ainda me parecia nebuloso e difícil de compreender. Sabia que estes pontos, quando em equilíbrio, funcionavam conjuntamente. Por ora deveria trabalhá-los individualmente para percebê-los, mas naturalmente, para mais adiante, eles começariam a se complementar.
Aprendi que deveria detectar o que realmente sentia e o que ocorria em mim quando gaguejava.
Pelos exercícios de relaxamento fui percebendo o estado de tensão em que me encontrava. Meu corpo estava totalmente desregulado e desequilibrado. Aos poucos fui percebendo-me com todas as partes tensas; músculos, movimentos, gestos, juntas etc. Trabalhei com relaxamentos acentuados, para perceber minha tensão no corpo inteiro, já que no momento da gagueira muitas partes do corpo tinham a tensão alterada. Um pouco cada dia percebia que ia modificando meu estado de tensão em um estado de maior relaxamento e bem-estar.
Toda a musculatura que participava especificamente da gagueira, atuando de uma forma imprópria, inadequada, foi também muito trabalhada. Além do trabalho executado durante as sessões, foi meu dado como tarefa trabalhar em casa, contato que este trabalho pudesse ser feito de forma consciente.
Conjuntamente a esse trabalho da tensão do corpo, trabalhei-me no aspecto ligado diretamente à fala. Quis modificar minha maneira de falar, ou seja, de gaguejar, de uma maneira tensa e afobada, apressada e rígida, para uma soltura geral. Também aqui percebi que houve um crescimento constante e uma mudança progressiva e importante com respeito aos gaguejos.
Mas isso não era tudo. Ainda sentia medo, frustração, vergonha, ansiedade, vontade de fugir. Procurei então, com a ajuda da terapia, enfrentar e descobrir o que me deixava neste estado de angústia interior e vontade de fugir. Aí foi que descobri o que de mais importante achei na terapia e que aos poucos foi se desenvolvendo para uma para uma maior segurança e posicionamento na realidade.
Descobri que o que era mais importante era o que se passava dentro de mim, o que eu sentia dentro de mim com respeito à gagueira. Aos poucos fui percebendo que o aspecto emocional está ligado intimamente à fala e ao equilíbrio interno. Meu equilíbrio interior estava totalmente desconcertado e desequilibrado, de modo que a não-aceitação da gagueira a angústia e a frustração iam aumentando cada vez mais. A minha grande descoberta então, foi com respeito à atitude interna, que ficava escondida ou reprimida. O que era mais importante não era o que aparecia, ou seja, a gagueira, mas o que me conduzia a ela. Percebi que a gagueira mais acentuada só aparecia quando eu me encontrava em um estado de medo, frustração, fuga, ansiedade e vergonha; isto é, quando internamente eu estava abalado e desequilibrado ela se intensificava e ficava mais difícil mudar os meus hábitos musculares que formavam a gagueira. Eu soube, então, que a gagueira era um hábito que sempre ocorria para mim em determinadas situações.
continua...
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