11 janeiro 2006

Como Contratar um(a) Fonoaudiólogo(a)

Há alguns aspectos que o próprio paciente pode investigar antes de iniciar uma terapia fonoaudiológica:

- número de pacientes (crianças, adolescentes e adultos) que o profissional já tratou;
- qual a linha de trabalho (embasamento teórico da prática clínica);
- quais os objetivos principais da terapia (o profissional deve citar pelo menos um desses aspectos: diminuição da freqüência da gagueira, redução da tensão envolvida na gagueira, diminuição dos comportamentos de evitação de situações ou palavras, aprender mais sobre a gagueira, etc.);
- quais os textos/livros sobre gagueira que o profissional indica para leitura ou quais se utiliza para embasar o tratamento (assim você pode saber qual a abrangência de conhecimento que o profissional possui);
- quais os cursos, palestras, especialização, mestrado que o(a) fonoaudiólogo(a) possui relacionados à gagueira;
- perguntar se o(a) fono possui publicações no assunto (este não é um item essencial, visto que muitos profissionais exclusivamente clínicos são muito atualizados, mesmo sem desenvolverem pesquisas na área).

Com essas orientações já temos uma boa noção do(a) profissional que estamos procurando para tratar de um problema tão importante.

É preciso lembrar que o(a) fonoaudiólogo(a) deve fazer uma avaliação fonoaudiológica completa e, com base nessa avaliação, selecionar a sua conduta. Alguns exercícios que não servem para diminuir a gagueira podem ser úteis para o fortalecimento muscular, para melhorar a articulação, a respiração, etc.

Com relação especificamente à gagueira, não há comprovação científica de que exercícios como falar de cabeça para baixo, assoprar, vibrar lábios e língua, por exemplo, tenha efeito na diminuição da gagueira (lembrando que o sopro ou as vibrações são ótimos exercícios em outros casos).

O mais importante é saber exatamente a função do exercício proposto e qual o resultado que se espera com a realização dele, para isso é necessário ter um canal de diálogo sempre aberto e ativo com o profissional.

Daniela Verônica
Vice-Presidente da ABRA GAGUEIRA
daniela.veronica@itelefonica.com.br

Observação do blog: estas dicas foram retiradas do Grupo Gagueira.

Observando um Gago - Parte IV

OBSERVANDO UM GAGO
(PARTE IV DE IV - Hélio Beraldo*)

...continuando

Quando o gago começa a tratar-se com alguém que não possui a noção do que isso significa, ele vai ficar mais pobre, porque o dinheiro que consegue ganhar, será gasto com alguém que vai apenas frustrá-lo.

Quando ele começa um tratamento, cria expectativas de como vai melhorar, de como vai sarar. Cria a ilusão de como passará a agir assim que puder se comunicar naturalmente (falar assim como os outros falam). E, através dessa ilusão, vem a desilusão. Essas frustrações e desilusões repetidas acabam criando a convicção de que não há cura, de que para ele não há lugar nessa terra. Ele jamais vai falar como os outros. Ele não é igual aos outros, pois parece que ele tem um karma, alguma coisa que se apossa dele a fim de humilhá-lo. Ele ficou mais pobre tanto financeiramente quanto nos seus sonhos.

Precisamos levar esse paciente a compreender o que é a gagueira e passarmos a tratar de cada sentimento, de cada emoção; precisamos reestruturar a sua personalidade e, ainda, tratar de sua gagueira através de técnicas de obtenção de fluência (capazes de formar novos condicionamentos operantes), ou seja, esse ser humano precisa ser tratado como um todo, através de terapia corporal a fim de que ele perceba o quanto tenciona seus músculos, para aprender a relaxá-los. Em casos mais sérios podemos usar a farmacologia com um método auxiliar através do uso de ansiolíticos ou anti-depressivos.

Precisamos levá-lo a buscar o auto-conhecimento a fim de que ele possa melhorar a sua auto-estima e a sua auto-confiança. Enfim, trabalharmos as questões de timidez, de insegurança, dos medos, da vergonha etc.

Podemos usar técnicas de visualização, de imaginação, auxiliando-o a perceber o mundo de forma mais natural e a seu favor, para que ele perceba e entenda de forma diferente, tendo uma nova postura diante da fala e da vida.


FINAL
*Hélio Beraldo é Psicólogo e também é gago.

05 janeiro 2006

Observando um Gago - Parte III

OBSERVANDO UM GAGO
(PARTE III DE IV - Hélio Beraldo)
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Esse viver de maneira a esconder que é gaga, começa a associar-se até ao seu nome – Eu sou...!. Eu sou quem? O gago tem de se esconder e, como o nome o identifica, revela quem ele é, ele passa a ter dificuldade nas coisas mais simples como: dizer seu nome, dizer o número de seu telefone, pedir informações, responder “presente” em uma sala de aula, fazer leituras, apresentar trabalhos, pedir alimento em um restaurante, falar ao telefone ou interfone etc. E, assim, vai se sucedendo uma fase por fase até chegar às situações mais exageradas, quando o cérebro passa a disparar o alarme de perigo naquelas situações em que é convocado a falar. Nesse momento, aparecem todos os sintomas do ataque de ansiedade (taquicardia, sufoco, tremor nas mãos, suor, descontrole de raciocínio e vontade de fugir). Ele não consegue compreender mais porque aquilo, que seria simplesmente o ato de falar, passa a representar um perigo tão grande, que aparece de maneira tão automática. A pessoa não raciocina assim, mas simplesmente acontece. Ela nem mesmo sabe que esses são sintomas de ansiedade. Simplesmente, numa sala de aula ou em qualquer lugar público, quando pedem que ela se apresente, ela tem um ataque de ansiedade tão grande, que ela acha que está ficando louca. “Por que tudo isso acontece? Eu sei que sou uma pessoa normal, “diz ela. – “Eu não tenho medo de escuro, de ficar sozinho, estar na multidão, nem de água, nem de viajar etc... Posso trabalhar, exercer qualquer profissão.... Por que, então, na hora de falar eu sou um covarde?”

No fundo, essa pessoa sabe que não é covarde, mas não entende porque seu cérebro dispara o sinal de perigo. Ela tem consciência de que esse não é um problema físico, mas que é o fato de que sua condição de gaga será revelada, ou seja, o que ela quer esconder será revelado. É a sensação de humilhação, de ser diferente, de saber que será interpretada como insegura, incapaz, incompetente. Essa é a situação do gago.

Isso tudo vai se tornando cada vez mais forte. Quando essa pessoa procura ajuda, é difícil encontrar um profissional realmente preparado, pois existem poucos terapeutas em condições de tratar um gago severo. Muitos se dispõem a tratá-lo, mas poucos se preparam para isso. Poucos são o que realmente sabem o que é ser gago.

Na realidade, quem realmente mais entende de gagueira é o próprio gago. Entretanto, o terapeuta que se propõe a tratá-lo deveria dedicar-se a estudar, a compreender o que é o sofrimento de querer falar e não poder fazê-lo. Esse profissional se põe a tratá-lo sem compreender que a gagueira é apenas a ponta do iceberg, que representa apenas o sintoma, e que submersos estão muitos sentimentos, muitas emoções, que vão desde a fobia social, a timidez, a ansiedade, a insegurança, a baixa auto-estima - fantasias que precisariam ser tratadas como um todo. Atrás daquela fala gaguejada está um ser humano que, apesar dessa grande dificuldade, é capaz de estudar, trabalhar, amar, constituir família, ou seja, alguém com grande potencial.
continua...

28 dezembro 2005

Observando um Gago - Parte II

OBSERVANDO UM GAGO
(PARTE II de IV - Hélio Beraldo)

...continuando

Alguns profissionais da área da psicologia dizem que são defeitos nos neurotransmissores. É bem provável que realmente haja um descontrole, sim.

A criança em pouco tempo retém muitas informações. Ela parece uma esponja retendo tudo: aprende a andar, a falar, a brincar, a cantar, a se relacionar com outras pessoas, aprende até mesmo a controlar seus esfíncteres, o seu intestino e o aparelho urinário. Enfim, é muito aprendizado, e é justamente nessa época em que as conexões nervosas se formam com incrível intensidade. A criança está adquirindo a linguagem e o controle da fala. Quer falar coisas para as quais ainda não possui vocabulário suficiente e, ainda, tem pressa de falar. Tudo isso faz com que ela tenha, durante alguns meses, uma gagueira funcional e, é justamente nessa fase, que vêm alguns adultos e cometem o maior erro que se poderia cometer nessa fase. Olham para ela e dizem: “ Ela é gaga!” E a partir daí começam a querer ajudá-la dizendo: “Fale devagar, pense antes de falar, respire fundo, acalme-se”. Ainda há os mais exigentes que dizem: “Fale direito!”


Aquela criança começa a criar a ansiedade. Aquela criança descontraída que apenas queria falar, agora passa a prestar atenção em como falar de forma que os outros aceitem porque, do jeito que ela é, está sendo rejeitada e, cada vez que tiver de falar, surge a ansiedade de desempenho. Esta ansiedade vai tencionando seus músculos e sua laringe (onde estão as cordas vocais), e ela começa a fazer esforço para falar. Surgem os bloqueios, as repetições, a introdução de sons que nada tem a ver com o assunto. A sua face tensa começa a criar gestos para disfarçar a gagueira e, assim, ela vai se repetindo a cada dia. Através dessa forma de exercícios repetitivos vai formando núcleos, “inputs”, formando sua maneira estranha de falar e, assim, marcando sua vida.


Enquanto essa criança vai crescendo, vai repetindo tantas vezes essa fala gaguejada que agora já não pode mais falar como as outras crianças, de forma livre e espontânea, aquilo que lhe vem à mente. Ela está sempre preocupada em como conseguir falar. Ela sabe que as outras crianças têm de ter paciência com ela para esperar até que ela consiga falar. A sua comunicação começa a ser sempre com sofrimento e angústia, sempre à espera da compreensão dos outros, da benevolência dos outros. E, quanto mais sofrida for a sua fala, mais medo vai sendo criado na hora de se comunicar. A sua atenção, que deveria estar voltada para o que gostaria de dizer, quais as brincadeiras que faria com sua fala, agora começa a se voltar para si mesma, e para um modo de como conseguir falar, em como fazer para que sua gagueira passe despercebida, em como fazer para ser igual às outras pessoas.


Tudo isso cria fortes inibições, fortes retrações. A criança já não se expõe a qualquer pessoa, em qualquer lugar, ou em qualquer situação. As repetições dessas situações acabam se tornando verdadeiros exercícios que vão fortalecendo e automatizando, cristalizando essa maneira de falar. Ela deixa de ser espontânea e passa a criar fórmulas para ser aceita, como tornar-se “boazinha” para criar o respeito e a simpatia dos outros ou, ainda, torna-se revoltada e agressiva. Esta é a pessoa que possui a fala gaguejada.


continua...
Fonte das Figuras:

23 dezembro 2005

Observando um Gago - Parte I

Solicitei o texto abaixo ao amigo Hélio Beraldo (o conheci no Grupo de Apoio da ABRA Gagueira, em São Paulo). Ele é psicólogo, pessoa formidável, tem um tom de voz muito tranqüilo, tem mais de 40 anos (rsrs) e, infelizmente, só não posso dizer mais porque o contato foi breve, mas, no pouco tempo, pude perceber o quão gente fina ele é! Meus agradecimentos pelo texto, amigo. Abraços.

O texto, por ser extenso, será dividido em quatro partes. A ilustração é minha.

OBSERVANDO UM GAGO
(parte I de IV- Hélio Beraldo)

Que sujeito é este que precisa fazer tanto esforço para falar? Contorce-se; tenciona os músculos da face, do corpo; faz caretas; fecha os olhos e sofre tanto numa simples tentativa de falar aquilo que pensa. Não consegue, tenta outra vez, repete a palavra, estica os sons, fala mais baixo, tem o som bloqueado, tenciona os lábios e, parece que quanto mais força faz, menos consegue falar.

Olhando para ele, dá a impressão de que nem mesmo está mais pensando no que falar, mas que todos os seus esforços estão em conseguir falar. Se continuarmos observando, podemos perceber que ele até quer parar de falar, desistir, encerrar o assunto, mas não tem nem mesmo como dizer que quer encerrar, pois está totalmente bloqueado. Assim, ele continua em seu desespero, em seu sofrimento. Ao mesmo tempo, aquele que o ouve já nem sabe mais se presta atenção ao seu sofrimento ou ao que ele tem para dizer. Como ele não consegue expressar o seu pensamento, ele sofre muito. Quando consegue dizer alguma coisa, ou seja, quando ele encerra sua fala, tem uma enorme sensação de alívio, porém, ao mesmo tempo, sente muita frustração, muita angústia e muita tristeza, pois ele tinha uma mensagem que era importante pra ele, que lhe parecia inteligente, ou que até poderia ser benéfica para o outro, mas ele nada conseguiu expressar.

Talvez a sua sensação seja de incapacidade e de incompetência. Seus pensamentos talvez sejam de inutilidade, porque até mesmo as crianças e os mais incultos conseguem expressar de maneira verbal aquilo que pensam, enquanto ele precisa de tanto esforço, tanto sofrimento e tanta angústia. Ele quer falar mas não pode, parece ter algo que não pode ser revelado, algo que proíbe a sua expressão, algo que está no mais profundo de seu íntimo, algo que ele nem mesmo tem conhecimento. Por que tem de ser assim? Por que ele tem de ser tão humilhado? Por que ele tem de ser tão limitado?

Ele sabe que não possui nenhum problema no seu aparelho fono-articulatório pois, quando ele canta, o faz com naturalidade; se lê em uníssono, o faz com tranqüilidade; se fala com os animais de estimação, o faz sem qualquer dificuldade; se fala com uma criança recém-nascida, não há problema algum. Por quê? - Porque não há censura, porque não será avaliado, não será contrariado, não será rejeitado.

O que é que proíbe esta pessoa de se expressar da mesma maneira com outras pessoas? Por que tanta dificuldade, tanto medo inconsciente de ser avaliado, de ser censurado, de não ser aceito em suas idéias? Qual a mensagem que ele traz oculta em sua mente?
Continua...

16 dezembro 2005

Para Todos

Amigos,
Para comemorarmos o ano de 2005 e vislumbrarmos um excelente 2006, decidi fazer um convite a algumas pessoas, para que escrevessem e deixassem suas mensagens de final de ano aqui para todos nós. Abaixo seguem as mensagens de Eleide Gonçalves (Secretária da ABRA Gagueira) e Ana Maria (fonoaudiólogada que trata gagueira, situada em Brasília). Muito grato às duas!

Os textos:
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O ano de 2005 foi realmente um marco no que se refere à divulgação de informações pertinentes relativas à gagueira, em todo o Brasil.

Para o ano de 2006, não podemos esmorecer! Procuremos ampliar e intensivar as ações, esclarecendo um número cada vez maior de pessoas sobre o que vem a ser a gagueira, e que deve ser tratada adequadamente.

Como portadora de gagueira e militante da divulgação da causa "Gagueira não tem graça. Tem tratamento", tenho a convicção de que divulgar conhecimentos e experiências acerca da gagueira só faz aumentar a saúde comunicativa daqueles que gaguejam.

Por fim, sugiro aos que gaguejam que falem sobre a gagueira no trabalho, em casa, em todos os lugares, não evitem situações de fala e não abram mão de seu direito de falar, mesmo com gagueira. Nós exigimos e merecemos respeito, e só conseguiremos isso se nós mesmos nos respeitarmos!

Abraços a todos!

Eleide Gonçalves
41 anos
Servidora pública federal e secretária da Abra Gagueira
São Paulo - SP


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Par ou Ímpar

2005... ano ímpar em todos os sentido... numérico... escândalos... tragédias... conquistas... Mas algo mudou para um pequeno grupo , ou grande dependendo do referencial, que sofre em silêncio, que luta diariamente contra um "fantasma" às vezes real demais para ser suportado e às vezes imaginário demais para ser alcançado. Vivemos este ano um momento histórico na luta pela dignidade e respeito àqueles que sofrem com gagueira.

Esta luta feita de pequenas conquistas diárias ganhou força no mês de outubro deste ano com a Campanha do Dia Internacional de Atenção à Gagueira. Um grupo de corajosas fonoaudiólogas desafiou as distâncias deste país tão grande, a escassez de recursos e conseguiu levantar um bandeira pelo respeito ao gago e chamar a atenção para um problema que afeta as relações sociais... Mas esta campanha veio chamar a atenção também da classe fonoaudiológica e alertar para o problema de atendimentos pouco especializados que prejudicam a imagem dos profissionais e desiludem das pessoas que procuram auxílio.

Creio que este ano par, 2006, será realmente par, onde profissional e pessoa que gagueja unidos continuarão a lutar para que as coisas fiquem cada vez mais claras, tanto para a ciência que busca explicações e tratamentos, quanto para aquele que sofre os efeitos, muitas vezes danosos, do processo involuntário da gagueira.

Desejo a todos que de alguma forma participam deste movimento, silenciosa ou declaradamente, que 2006 seja realmente um ano PARticipativo....

Que o menino Jesus nasça no coração de cada um trazendo a esperança de que tudo pode ser melhor, feliz, e fluente...

Feliz 2006!

Ana Maria do Carmo Carvalho de Oliveira
Fonoaudióloga - Brasília/DF