15 dezembro 2006

Prêmio Nobel de Literatura Também Gagueja

Para muitas pessoas que se isolam, se reprimem e se limitam por causa da gagueira, talvez essa seja uma boa notícia e sirva de motivação para levantar a cabeça e realizar todos os sonhos.

O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998, revelou, em entrevista ao periódico O Estado de São Paulo, que sofreu com a gagueira em sua infância e adolescência. Sozinho ele criou técnicas para ter uma melhor fluência e hoje controla melhor o seu "débito verbal".


"Os meus problemas não foram os de uma simples e passageira dislexia. O meu problema foi, e continua a ser, o tartamudeio, a gagueira. Aqueles que gozam da sorte de uma palavra solta, de uma frase fluida, não podem imaginar o sofrimento dos outros, esses que no mesmo instante em que abrem a boca para falar já sabem que irão ser objeto da estranheza ou, pior ainda, do riso do interlocutor. Com a passagem do tempo acabei por criar, sem ajuda, pequenos truques de elocução, usar os bloqueios leves como pausas propositadas, perceber com antecipação a sílaba onde irei ter dificuldades e mudar a construção da frase, etc. Curiosamente, se tiver de falar para cinco mil pessoas estarei mais à vontade do que a falar com uma só. Salvo em situações de extremo cansaço nervoso, hoje sou capaz de controlar adequadamente o meu débito verbal. A gagueira, no meu caso, passou a ser uma pálida sombra do que foi na infância e na adolescência. Aprendi à minha própria custa." José Saramago

Leia a entrevista na íntegra aqui.

Para quem deseja ver e ouvir Saramago, indico o vídeo abaixo. Nele o Nobel fala sobre sua percepção do mundo atual, enfatizando a questão da miséria, do capitalismo e da democracia.

11 dezembro 2006

Marcadores

Amigos,

Talvez alguns de vocês já tenham percebido que este blog agora possui "marcadores". Trata-se de um facilitador para reunir as postagens que abordam determinado assunto em uma única página. Para tanto basta clicar no marcador, localizado logo abaixo de cada postagem, que poderá ser visto tudo que já foi falado relacionado àquela palavra.

Espero que vocês gostem. Praticamente todas as postagens deste blog já foram "marcadas".

04 dezembro 2006

Reportagem Sobre Gagueira

Amigos,

Não, este blog não está abandonado! É que a faculdade tem tomado meu tempo. Estou retomando as atividades por aqui.


Na Viver Mente Cérebro, número 167, ano XIV, foi abordado a gagueira. No saite da revista, infelizmente, a referida reportagem não foi disponibilizada para a leitura. Para facilitar o acesso de vocês, digitalizei a matéria e agora compartilho as informações. Para baixar a reportagem basta clicar aqui.

Para baixar o arquivo, após clicar na palavra "aqui" acima, clique em "NEXT PAGE" até aparecer o "link" para "download".

18 novembro 2006

O Que é o Bem Falar?

Rementendo-nos à postagem anterior, gostaria de tocar no assunto "Bem Falar". Bem Falar é diferente de Falar Bem. O Bem Falar seria colocar prazer no ato de falar, procurar sentir despretensiosamente a articulação, os movimentos, os sons... Seria perceber que as palavras podem fluir sem haver a presença da tensão, do nervosismo, da ansiedade, do medo... Por enquanto que "Falar Bem" está mais voltado para pronunciar as palavras corretamente, sem erros de português, com discurso coerente e coesivo, entonação adequada e, por final, conseguir transmitir a mensagem para o público-alvo.

As pessoas que gaguejam podem desenvolver estas duas habilidades. Porém, para se alcançar a segunda, tem-se primeiro que passar pela primeira. Condições nós temos! Só falta-nos a orientação adequada. Esta postagem está longe disso. Trata-se de somente algumas reflexões pessoais, baseadas na terapia fonoaudiológica que frequentei durante um ano e um mês.


É bastante comum ouvirmos/vermos que a pessoa que gagueja quando fala diante do espelho e sozinha, fala perfeitamente. Também temos conhecimento que diante de crianças e animais a gagueira também tende ao desaparecimento. Nestas situações estamos sentido o "Bem Falar". Não estamos preocupados com outra coisa se não com a mensagem. A forma fica de lado. O conteúdo nessas horas é mais importante. Ocorre uma interrupção da imagem que temos de mal falantes. Não há dúvidas. Só certezas!


Vamos fazer uma brincadeira? Depois eu explico a razão dela. Você vai ter que pensar em tudo que eu descrever abaixo. Vamos a ela: pense em um fusca amarelo, cor de ouro, bem novinho e brilhando. Escostado no fusca está um vendedor de picolés, com os bolsos volumosos, possivelmente cheios de dinheiro. Ele está de boné vermelho, camisa amarela e calção preto. Pronto! Final da brincadeira. Tenho a certeza de que você visualizou perfeitamente tudo que foi aqui descrito. Criou tudo na mais profunda realidade, como se estivesse vendo o fusca, o vendedor de picolés e sua vestimenta. Esta brincadeira serve para demonstrar que não há diferença entre o que é visualizado e o que é real. Nosso cérebro forma as duas imagens do mesmo jeito.

Então, quando perdemos a imagem de mal falante estamos liberando-nos para e sentido o "Bem Falar". A imagem que fazemos de nós, duvindando da nossa condição de bom falante, é real para o nosso cérebro. Ele passa a acreditar nisso cegamente. Quem já não se pegou falando "fluentemente" e quando percebeu este "algo de errado" e começou a gaguejar? Estranhamos até mesmo o nosso principal sonho, que é "falar fluente" (não há ninguém fluente o tempo todo). Devemos trabalhar para, como disse Sílvia Friedman (veja a postagem anterior) "estranhar esse estranhamento de si mesmo fluente e fortalecer a fé na imagem de si fluente".

A dúvida de nós como falantes ocorre em decorrência da perda da espontaneidade de nossas falas. O ato de falar é espontâneo por natureza. A fala é automática. Não é necessário haver planejamentos, preocupações, crenças negativas, enfim, quaisquer espécie de controle. A fala não funciona dessa forma. O que ocorre é que a imagem que possuímos de nós mesmos, termina por influenciar na maneira como falamos, na antecipação da gagueira, na previsão de não conseguir pronunciar determinada palavra...

Portanto, trabalhar o "bem falar" é essencial. Falar com crianças, animais, consigo... Perceber o quanto a fala pode ser prazerosa. Deixar que ela saia se amarras, muito possivelmente lhe levará a uma outra condição. Sem enganação, claro que este processo não é fácil, nem rápido. Persistência e mudança andam juntas.

Para maiores esclarecimentos, é necessário um acompanhamento fonoaudiológico especializado em gagueira.

09 novembro 2006

Exercícios Para Sentir o Bem Falar

No saite da Fonoaudióloga Sílvia Friedman, encontrei o exercício abaixo. Quem desejar conhecer melhor o contexto em que ele foi proposto, poderá fazê-lo na seção "Internautas . Dialogos", na conversa do dia 26 de julho de 2006.

O exercício é mais destinado para aquelas pessoas que se estranham quando estão falando fluente, pois acreditam que a gagueira se manifestará. As orientações têm como objetivo proporcionar ao falante a percepção do automatismo da fala. Como mesmo afirmou a referida fonoaudióloga, “os exercícios são para sentir o bem falar e não para falar bem”.
Vamos a eles:
“Os exercícios que valem a pena de ser feitos são:
1- perceber a presença da imagem de mau falante, ou seja, a sensação de que vai haver gagueira na fala que ainda não aconteceu e a relação dela com a produção efetiva da gagueira (exercício mental);
2- estranhar o estranhamento de si mesmo fluente (exercício mental);
3- fortalecer a fé na imagem de si fluente, apoiado na compreensão de que a fala é automática e deixando-a acontecer. Para esse último item é importante começar a sentir a fala, enquanto você fala. Sentir, assim como você pode sentir neste momento tuas pernas, teus pés, o contato da roupa com o corpo...
Falar lentamente, como uma brincadeira voluntária, pode ser um meio para desenvolver a capacidade para sentir a fala como processo automático, ou seja, como movimentos que vão se sucedendo uns aos outros sem que saibamos como.
Outra estratégia pode ser dublar a fala de alguém. Isso pode ser feito em frente ao televisor. Simplesmente escute atentamente o que o falante diz e trate de fazer os movimentos para falar, ao mesmo tempo que ele(a), só que sem voz. Imediatamente você começará a perceber o automático da fala.” Sílvia Friedman.

30 outubro 2006

DIAG em São Paulo - Minhas Considerações

Apesar do "Dia Internacional de Atenção à Gagueira" ser 22 de Outubro, em São Paulo o evento ocorreu no sábado, dia 21. Teve início às 9h e terminou lá para às 15h, como tava previsto. Chegamos (eu e minha namorada) ao local do evento às 10h, pois não conhecemos a cidade e saímos da casa dos nossos amigos um pouco tarde. Podemos presenciar do segundo depoimento em diante, que foi da jovem Bianca Lisboa. Desde já, adianto que não consegui gravar as palestras. A dinâmica do evento e o fato de eu ter chegado atrasado, tudo isso não me deu condições para combinar com os depoentes para gravar seus discursos.

O melhor deste tipo de evento é a troca de experiências; é conhecer pessoas que viveram coisas muito parecidas com as suas; é poder transmitir mensagens incentivadoras de que a gagueira não é o bicho de sete cabeças que costumamos pintar e que existe tratamento eficaz para o indivíduo.

No quesito pessoas, a galera de São Paulo é muito legal!!! Eu já tinha alguns amigos por lá, do Grupo de Apoio da ABRA GAGUEIRA, do qual participei uma vez ano passado, e desta vez pude ampliar o leque de amizades. Neste evento pude conhecer a atual presidenta da ABRA, Daniela Verônica, as fonoaudiólogas Eliana Nigro, Ignês, Polyana, Ísis Meira e Fernanda Papaterra. Conheci também o colega Tiago Pereira, que palestrou sobre genética, e Elaine Gonçalves, que prestou seu depoimento, o qual me causou bastante impacto. Foi através dele que soube do desejo dela de não querer ter filhos com receio de transmitir a gagueira para ele, já que eu sua família há diversas pessoas que gaguejam. Entendo a situação dela, mas é muito triste saber disso. Caso o possível filho dela apresentasse algum sinal de gagueira, ela poderia levâ-lo a um fonoaudiólogo capacitado para tratar gagueira, que muito possivelmente seria curado.

É por causa dessas realidades que eventos como este, que ocorre em todo o Brasil, são extremamente importantes. Aos poucos vai-se transmitindo conhecimentos e desensibilizando as pessoas em relação à gagueira. Muito possivelmente Elaine não vivenciou experiêcias deste tipo anteriormente. Desta forma, ela carregou sozinha, por muito tempo, o peso da gagueira, o estereótipo de "gaga", o preconceito da sociedade e talvez tenha se visto muitas vezes sozinha, apesar da família ter diversos casos de gagueira. Atualmente, as pessoas que procuram ajuda (ou se ajudar), tratamentos, etc., têm grandes possibilidades de reverter o quadro, antes que ele torne-se insuportável ou motivo de restrições sociais.

Neste evento, eu pude observar bem esta busca pelo conhecimento: um casal estava procurando informações para seu filho, de 14 anos aproximadamente, com gagueira. Isto foi particularmente interessante porque eu pude me imaginar com 14 anos e relacionar com meus pais tentando me ajudar procurando profissionais da fonoaudiologia para me tratar. Assim que eu sentei atrás desse casal e seu filho (o filho sentado no meio dos dois), eu senti o que eles estavam pretendendo. O pai mais questionador fazia perguntas em todas as palestras, a mãe era mais quieta e o filho muitas vezes parecia está mais interessado em, talvez, sair dali. Infelizmente, quando somos adolescentes perdemos
oportunidades únicas. Pude trocar uma idéia com o pai e tentei orientá-lo em razão da minha experiência vivida.

Ao final do evento, uma repórter do Conselho Regional de Fonoaudiologia 2ª Região - São Paulo (creio que foi deste conselho) procurou-me e me entrevistou. Não sei se minha entrevista vai ser publicada (espero que sim!), caso seja vocês terão notícias.

Como sugestão para a comissão organizadora, para qual inclusive eu já falei pessoalmente, é de deixar mais espaço para as palestras científicas sobre gagueira. Isto poderia ser organizado, caso o evento seja iniciado às 9h e terminado às 17h. Quando começávamos a gostar da palestra, a entendê-la, o tempo estava esgotado. Como por exemplo, a palestra sobre Gagueira e Psicanálise, de Roberta Ecleide. Foi muito rápida. Comprometendo o entendimento.

Espero que vocês tenham participado do DIAG em suas cidades e gostado como eu gostei do de São Paulo. Que tal vocês me contarem como foi? Deixem um comentário! Agradeço desde já!