03 setembro 2007

Depoimentos de Sucesso

Na postagem de hoje, colocarei três depoimentos de pessoas que superaram a gagueira sofrimento. Os dois primeiros sujeitos foram pacientes de Sílvia Friedman, e o terceiro de Mariângela Zulian. Os depoimentos foram retirados do saite "Gagueira - Novos Paradigmas". Eles comprovam a eficiência da teoria desenvolvida por Friedman. As terapias que abordam esta linha procuram valorizar o indivíduo, não a gagueira (como ocorre em muitos tratamentos), buscam modificações no modo de ver a fala, a gagueira, o mundo (os outros) e a si mesmo. É emocionante ler os depoimentos e ver o quanto essas pessoas mudaram o estilo de vida.

Os depoentes preferiram manter o anonimato. Mas seria ótimo que algum, caso leiam esta postagem, se manifestasse.

Aconselho os colegas a acessarem o saite acima indicado. É uma outra forma de ver a gagueira. Aglutina e vai além do orgânico, do psicológico e do emocional.

Boa leitura!

Caso 01:
Moça de 27 anos, enfermeira:

P: Nas entrevistas, né, antes de eu entrar aqui, eu ficava em pânico, né. Travava mesmo. Em seminário da escola, eu não ia lá na frente, mesmo. Eu não ia mesmo, lá na frente, ficava super travada, com medo. Só que agora, não. Eu vou, enfrento posso até gaguejar, mas eu vou. Não fico sem nota por causa disso, entendeu? E nas entrevistas eu vou também, eu faço a minha parte e aí, seja o que Deus quiser! Eu tou muito melhor. Depois que eu entrei aqui, eu me superei bastante.

T: E o que é importante pra você não piorar?

P: Ah, eu, aceitar. Eu não achar que eu sou assim, né, diferente das outras pessoas. Eu tenho que aceitar que posso fazer as mesmas coisas que as outras pessoas fazem. Que eu sou normal, não tenho nada de diferente. Que eu posso ir lá na frente, falar, posso gaguejar, também, e daí, entendeu? Eu tenho que me aceitar.

Caso 02:
Moça de 18 anos, estudante:

P: Jamais eu iria pensar que eu ia trabalhar de operadora de telemarketing. Jamais! Uma gaga, operadora de telemarketing? Mas na semana passada, a menina me avisou, aqui da minha sala:

- Ó, eu trabalho, lá. Eles tão precisando.

Ela me deu o endereço, eu fui. Aí, eu fui pensando que “eu vou conseguir”. Só que até a minha mãe...
- Você?
Eu falei:
- É porque? Eu consigo, eu falo!
- Então, vai. Se é isso que você quer, vai em frente.

Aí eu fui. Acordei cedinho. Cheguei lá às 7:40h. Era às 8h. Eu cheguei muito adiantada. Aí eu cheguei lá. Entrei no elevador e comecei a chorar. Tipo, isso era uma coisa que nunca aconteceu na minha vida, de pensar. Sabe, que eu tou indo procurar emprego e que eu consigo. (choro)

Porque isso foi muito difícil pra mim, chegar onde estou hoje... (choro).
Desculpa. (choro)

Porque antes, as pessoas olhavam pra mim, como, como se eu não fosse ninguém. Ninguém fazia amizade comigo, porque eu não falava. As meninas na escola nem ligavam pra mim. Hoje, hoje eu digo que sou muito feliz. Muito! Eu não era feliz antes Eu não era.

Eu tou muito feliz, graças a Deus, porque eu falo direito. E também sou muito chorona. E hoje eu tenho a certeza que eu tenho muita, muita capacidade de arrumar emprego e trabalhar. Que eu consigo. Antes eu não pensava assim. Eu pensava que eu ia ficar o resto da minha vida no meu quarto trancada. Ia ficar velhinha no quarto trancada.

Mas hoje eu penso bem que eu vou ser igual ao meu irmão. Vou dar duro pra entrar na faculdade, igual ao meu irmão, que é meu pai, né. Eu chamo ele de pai.

...a gente pensa diferente do que a gente pensava. Pensar que eu posso, eu consigo, que eu sou igual a todo mundo. Não igual eu pensava antes. Aí, eu comecei fazer fono. Se eu conheço a pessoa, logo falo que faço fono pra ela, quando eu começar falar, ela já não olhar como estranho. Apesar que eu acho que eu tou muito bem, tou falando muito bem. Eu eu tou fazendo coisas que eu não fazia. A hora no relógio, eu falo pras pessoas. Se pergunta onde é o endereço, eu falo. Eu peço informações na rua, mesmo sabendo onde que é. Só pra fazer, só pra fazer um teste. Eu sei onde que é, mas eu peço. Só pra ver se eu consigo. E eu consigo mesmo.

Falo com estranhos, eu vou no açougue agora (risos). Antes eu tinha medo. A não ia, tinha medo. Hoje eu penso o que aconteceu no passado. Eu penso... e porque que acontecia aquilo? É tão simples. Entendeu? É tão simples você falar a hora pra uma pessoa, mesmo que seja é a primeira sílaba com n, nove, entendeu? Porque antes eu não conseguia falar “nove”. Era um desespero, entendeu?” Alô”, no telefone. Quando eu dizia alô no telefone, eu falava ‘hello’. Quando eu atendia o telefone, eu ia na geladeira, colocava alguma de comida pra falar no telefone. A desculpa é que eu tava de boca cheia. Podia ser alho, cebola, o que vinha, aí, sei lá....

T: Então, não era a cabeça que tinha que tratar?

P: É, era a cabeça. Porque hoje, lá em casa, só eu atendo o telefone. Ninguém mais quer atender. O telefone toca, “Atende, Ma...”.

Porque se fosse antes, se chamava, chamava o dia inteiro, pessoal lá em casa não atendia. Podia ser uma emergência, um caso de morte. Não atendia, entendeu? Morria de medo. Falava a não saía o ‘alô’, tão simples.

Caso 03:
L. G., 25 anos, estudante:

Eu acho que todo esse processo que a gente passou aqui foi muito importante para eu descobrir algumas coisas que antes eu não percebia, ou que eu não queria perceber. Desde o começo eu sentia muito receio em trabalhar essa questão, por ela ser delicada e não muito fácil de se trabalhar, mas com o tempo e as nossas conversas eu fui percebendo que tudo é um "jogo" e esse jogo só acontece porque eu deixo ele acontecer. Então, a partir do momento em que eu entendi melhor como funciona a minha mente, eu tive em minhas mãos as ferramentas que eu precisava para sair desse ciclo que tanto me incomodava. Assim, eu penso que agora depende muito mais de mim, de eu querer que as coisas aconteçam, pois antes eu não tinha consciência do poder que meus pensamentos tinham sobre mim. Dessa forma, me sinto muito melhor, mais confiante para enfrentar este problema que tanto me incomodou.

23 agosto 2007

Gagueira Natural X Gagueira Sofrimento

Retomando a discussão a respeito do termo gagueira, creio que esta nomenclatura está bastante estigmatizada socialmente. É motivo de personagens cômicos na TV, de risos e zombarias na sociedade. Muitos sujeitos que tem gagueira, não pronunciam a palavra. Eu, por exemplo, não dizia que tinha gagueira ou que era gago. Eram duas palavras muito pesadas para mim.

Sílvia Friedman, acreditando que esta será a palavra que definirá por mais um bom tempo este tipo de patologia, propõe a adjetivização do termo. Ela acrescenta os adjetivos natural e sofrimento à palavra gagueira. Estas novas nomeações servem tanto para desmistificar o seu valor, quanto para diferenciar no tipo de tratamento.

A gagueira natural pode ser vista como uma condição natural da fala das pessoas. Tal naturalidade deve-se a pelo menos três fatores: motor, cognição e emoção. Sabemos que a fala desenvolve-se através do trabalho conjunto desses três determinantes. Da soma desses fatores, naturalmente pode haver rupturas, falhas, disfluências. A autora destaca também que, em virtude das múltiplas situações que esses fatores venham a se somar, não se pode pré-definir o que é normal e o que é anormal em relação à gagueira. O mais importante é "entender a produção da fala a partir das contingências motoras, emocionais e cognitivas que lhe são peculiares com a mente livre de preconceitos" afirma Friedman. Desta forma não se desumaniza a fala, não estigmatiza a gagueira baseando-se em idealizações sobre o que é falar bem ou normal. Este dogma estigmatizante gera fortes marcas na personalidade daqueles que passam a ser rotulados como gagos. Quebrar este estigma é particularmente importante para a sociedade, a qual muitas vezes passa a rotular uma criança em razão de algo que seria natural da sua cognição e emoção, por exemplo. A gagueira natural numa criança pode evoluir qualitativamente para a gagueira-sofrimento, devendo ser tratada. O foco principal do tratamento deverá ser aquele que rotula a fala da criança como gaguejante, para que a aceite, bem como saiba o que fazer para ajudar.

Por gagueira-sofrimento entende-se a que possui tensão. Aqui o indivíduo já tem consciência de que sua fala não é aceita e que deve "fazer de tudo" para falar da maneira idealizada pela sociedade. Porém, cada vez que tentam "falar bem", utilizando-se de truques (trocar palavras, por exemplo), menos conseguem falar do modo desejado. Esta situação gera cada vez mais gagueira, ocorre a identificação do sujeito com o rótulo da sociedade, o qual fará com que, em outras situações comunicativas, a tensão esteja presente. Muitos estudiosos afirmam: "quanto mais se tenta falar bem, menos se consegue fazê-lo". Instalada esta condição paradoxal, forma-se um ciclo vicioso. O indivíduo quer falar bem, mas ao mesmo tempo não acredita nas suas competências para fazê-lo (Friedman).

É interessante notar que se não houvesse a idealização da sociedade, talvez tivéssemos pessoas disfluentes, mas não com gagueira-sofrimento. Está aqui uma das importâncias dessa adjetivização. A população tendo o conhecimento que é normal gaguejar, passará a interagir de modo diferente com a criança (principalmente!) que apresenta uma fala disfluente. Por este motivo que estou tocando tanto neste assunto: É PRECISO DESBANALIZAR O TERMO GAGUEIRA.

20 julho 2007

Enquete 003: Gagueira - termo banalizado?

Estamos com mais uma enquete aberta. É a nossa terceira. Para ver e votar nas outras duas, basta clicar no marcador "ENQUETES", situado logo abaixo desta postagem.

Esta enquete atual deseja levantar a discussão a respeito do uso do termo gagueira. Esta palavra possui uma forte marca, principalmente nas pessoas que gaguejam com muita tensão, com sofrimento, nas que sofrem diante de situações comunicativas. Além disso, o termo é generalizado para toda e qualquer disfluência que ocorre nas falas das pessoas. Qualquer pessoa utiliza o termo gagueira para caracterizar quebras, hesitações, repetições, etc. Porém, há muita diferença entre o simples gaguejar e o gaguejar de maneira patológica.


Por estes e outros motivos, gostaria que discutíssemos essa questão.




O termo Gagueira está banalizado?

Sim

Não














17 julho 2007

Aceitação da Gagueira

Nesta postagem vamos falar um pouco sobre "Aceitação da Gagueira". É preciso ficar claro que aceitar não é sinônimo de passividade, de entrega, de conformismo. Um dos primeiros passos para se obter sucesso em terapia fonoaudiológica, baseada na teoria de Friedman, é justamente a aceitação. De um modo geral, indivíduos com gagueira possuem seus próprios rituais de fala. Cada um duvida ser capaz para falar palavras começadas com essa ou aquela letra (ou som), acredita ser incapaz de pedir informações nas ruas, de realizar ligações telefônicas, etc. Pois bem, para que os rituais de fala (tensão, pensamentos negativos, tentativas de trocar palavas, duvidar da capacidade comunicativa, etc.) sejam modificados é preciso que "o paciente tenha chegado a algum patamar de aceitação da gagueira, sendo capaz de compreendê-la não como um problema de fala, mas como produto de seu comportamento de prevê-la". É preciso entender a fala com resultado de movimentos articulatórios, da cognição e da emoção que cada situação revela. Esse resultado pode ser uma fala fluente ou não. Existem emoções que facilitam a produção de disfluências e outras que facilitam a fluência. O intimidamento tem potencial para produzir disfluência e a tranquilidade, fluência. As emoções influenciam e são influenciada pela cognição que por sua vez interfere na articulação e disso tudo resulta a fala. Essas influências são facilmente observáveis no nosso dia-a-dia em outras pessoas. Percebemos que elas também gaguejam, que também têm dificuldades em suas falas. É o que Friedman chama de "gagueira natural". Há diferenças qualitativas entre a "gagueira natural" e a "gagueira sofrimento". Futuramente falaremos sobre elas.

No tipo de terapia fonoaudiológica aqui discutida, a aceitação da gagueira é muito trabalhada. Aceitá-la como uma condição natural da fala é imprescindível para que haja sucesso terapêutico, pois os rituais poderão ser quebrados. A capacidade que temos de prever a gagueira é justamente onde ela localiza, onde ela reside. Muitos indivíduos afirmam que passam dias perfeitos, dias que falam "super bem". Por outro lado, vivem outros que gostariam de esquecer. Gostaria de pedir a essas pessoas que se observem nesses dois tipos de dia. Percebam o que houve de diferenca entre eles, no que se refere aos rituais, às crenças, aos pensamentos em relação a fala e a si mesmo como falante.

É preciso haver uma mudança de postura em relação à gagueira. Quando percebemos que ela situa-se dentro dos nossos pensamentos, da nossa capacidade de prevê-la, é possível que o comportamento que gera a gagueira seja eliminado. Para mim, isso é particulamente importante, pois traz para dentro de nós a capacidade de melhorarmos a partir de uma mudança interior. Tudo isso sem culpa, mas com muita responsabilidade.

Recentemente, li no grupo Discutindo Gagueira (endereço na coluna "Vínculos", no lado direito), enviada pelo colega Alex Aragão, uma frase que representa bem isso que falei. A frase é de Carl Jung e ela diz que "Aquilo a que você resiste, persiste".

09 julho 2007

Segundo Ano

Hoje! Dois anos de vida deste espaço!

A Manifestação da Gagueira (parte VI)

"6 - A lógica paradoxal que determina a produção da gagueira e nos permite entender que ela é um problema de identidade dos sujeitos, permite-nos entender, também, que ela possa desaparecer, dando lugar à fluência, sempre que as situações contenham elementos em função dos quais essa lógica não seja ativada. Isso funciona a partir das características dos sistema de valores do sujeito em relação a si, aos outros e às situações que vivencia no mundo. A ausência do outro não ativa a lógica. Geralmente ela também não se ativa quando o sujeito representa personagens; quando dubla a fala; quando conversa com pessoas que considera hierarquicamente inferiores ou que considera mais ignorantes. Já a conversa com pessoas consideradas amigas, por exemplo, pode ativar a lógica para uns e não para outros, em função da pessoa empenhar-se em lutar para esconder a gagueira que prevê. O que está em jogo, nessas circunstâncias, é o valor que o sujeito atribui à imagem de si em reciprocidade ao valor que atribui aos outros e às situações. Nessa atribuição de valores pesam, a favor da fluência, o deslocamento da imagem de si para algum personagem (caso da dublagem, da representação de personagens) e a diminuição do sentimento de cobrança e responsabilidade pelo ato de fala (ausência do outro, conversa com pessoas amigas e com pessoas consideradas mais ignorantes), o que nos recoloca diante da visão da gagueira com problema de identidade."

Enfim, chegamos a sexto tópico. Neste, Friedman deixa bem claro que há cura para gagueira. É possível dar lugar à fluência! Como exemplos, são dados a dublagem, a representação de personagens, a conversa com pessoas "inferiores" entre outros exemplos. Nestes casos e em outros, o lugar à fluência varia de pessoa para pessoa, vai muito do que o sujeito pensa de si, dos outros e da situação (reciprocidade de valor). Cada sujeito tem suas crenças e regras individuais das situações e dos outros com os quais "podem" e "não podem" gaguejar. Recentemente, li no "Grupo Discutindo Gagueira" (endereço nos vínculos, ao lado direito), que um sujeito tem sua gagueira piorada sempre no mês de agosto! O que não é isto além de uma crença pessoal? Sempre que agosto chega, ele deve se encher de pensamentos negativos, a duvidar de si como falante, a antecipar situações comunicativas, passa a se cobrar mais para falar bem, está formada a identidade de "mau falante". Chegou setembro, creio, de acordo com suas palavras, que ele deva relaxar mais e "permitir" que a fluência esteja mais presente. Acredito que se olharmos para dentro de nós, perceberemos diversas situações que acreditamos que gaguejaremos e outras que falaremos bem. Gostaria que os comentários também tivessem este conteúdo. Claro que outros comentários são bem-vindos.

Toda esta lógica de pensamento pode ser quebrada. Sei que não é fácil. Se fosse, a gagueira não seria um assunto de fácil discussão e de difícil consenso. é preciso desfazer os atuais rituais de fala, porém eles estão automatizados pelo uso. Friedman, no Tratado da Fonoaudiologia (1997), afirma que "para que se possa chegar a desfazê-los é fundamental que o paciente tenha chegado a algum patamar de aceitação da gagueira, sendo capaz de compreendê-la não como um problema de fala, mas como produto de seu comportamento de prevê-la."

A terapia fonoaudiológica especializada pode (e tem que) ajudar. A literatura está repleta de casos bem sucedidos, de pessoas que se superaram e superaram a gagueira como um sofrimento, com este tipo de tratamento. Neste saite vocês também poderão ler diversos depoimentos que comprovam a eficiência desta teoria.