07 outubro 2007

Lançamento do Livro "Gagueira: um distúrbio de fluência"

Amigos,

Conforme já havia mencionado para algumas pessoas (e no Grupo Gagueira), dia 27/10 será o lançamento do livro "Gagueira: um distúrbio de fluência" escrito por muitas mãos, mas organizado por duas, pela grande fonoaudióloga Eliana Nigro. Abaixo você pode conferir a editora, as partes do livro, os autores e seus textos.
O que gostaria de enfatizar neste livro é que ele é bem diferente dos demais que lemos sobre o assunto. Ele possui nove depoimentos de pessoas que contam a história de suas vidas com a gagueira. Dentre eles, está o meu depoimento. Também gostaria de destacar a presença de Sandra Merlo, Ana Flávia, Silvia Friedman, Ignês Ribeiro, Roberto Tadeu e Eleide: grandes pessoas!

Espero que vocês comprem e leiam-no. Acredito que este será um marco na história da gagueira deste país.

Parabéns a todos os autores e meus agradecimentos à coordenadora pelo convite.

Detalhes do lançamento:

Dia 27.10.07.
Local: Hospital do Servidor Público Estadual – IAMSPE.
Avenida Ibirapuera, 981 – 6º andar – Anfiteatro 616 – São Paulo – SP.
Horário: das 14h30min às 16hs.
Custará apenas R$50,00.

Quem puder comparecer, não deixe a oportunidade passar!!!

Gagueira: um distúrbio de fluência


Gagueira: um Distúrbio de Fluência



Eliana Maria Nigro Rocha - coordenadora

Editora Santos, 2007 (381 páginas)

Textos escritos por especialistas, em linguagem acessível ao leigo e ao estudioso iniciante na área da fluência, inclusive com dados sobre os trajetos dos autores em sua vida profissional.

Depoimentos de pessoas que gaguejam sobre sua vivência com a gagueira.

Apresentação: Eliana Maria Nigro Rocha

Gagueira: conhecimento e vivência pessoal

Ana Flávia Lopes Magela Gerhardt - Gagueira e integração conceptual

Maria José Carli Gomes – Descobrindo alternativas e superando barreiras: estratégias de enfrentamento na gagueira.

Sandra Merlo – Algumas reflexões sobre o conceito de fluência

Gagueira: temas e reflexões

Beatriz Helena V.M. Ferriolli – Enfoque Discursivo na Clínica da Gagueira

Cristiane Moço Canhetti de Oliveira – Gagueira Familial: Repercussões Clínicas

Isis Meira – Método Integrativo Existencial: seus Pressupostos e Aplicação

Mônica Medeiros de Britto Pereira – Análise das Estratégias Lingüísticas de Reparação no Discurso de Pessoas que Gaguejam

Regina Jakubovicz – Gagueira e Aprendizagem

Sílvia Friedman – Gagueira: uma Visão Dialético-Histórica

Interfaces da gagueira

Ana Maria Schiefer, Liliane Desgualdo Pereira e Daniela Gil – Relação entre Gagueira e os Aspectos Auditivos

Maria Isabel Vicari - Uma abordagem em Fonoterapia de Gagueira e do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade

Terapia de gagueira: vivências

Anelise Junqueira Bohnen – A Complexidade das Escolhas Terapêuticas

Eliana Maria Nigro Rocha – Fluência como meta

Ignês Maia Ribeiro – Uma trajetória de aprendizado com Pessoas que Gaguejam e seus Familiares

Gagueira: depoimentos

Antonio Carlos de Oliveira – Convivendo com Gagueira

Carlos Habenchus Jr – Paciência e Respeito

CA – Minha Experiência com a Gagueira

José Eduardo Ribeiro da Costa - Pedrinha

Eleide Gonçalves – Gagueira Crônica

Pablo – Disfluências à parte!

Paulo Amaro Martins – Sou o que minha Relação com a Gagueira me Permitiu Ser

Roberto Tadeu da Silva – Não ser a Gagueira

Wladimir Alberti Pascoal de Lima Damasceno – Fazer algo para melhorar

15 setembro 2007

A Origem da Gagueira


A temática, como é recorrente em relação à gagueira, é polêmica. Existem diversos pontos de vistas, cada um defendendo o que acredita melhor explicar a origem desta patologia. De acordo com o que eu acredito, a gagueira tem origem na infância e surge em virtude das relações sócio-culturais que a criança vivencia em seu processo histórico.

A primeira infância (até os seis anos de idade) é o período que a criança mais aprende em toda a nossa vida. É neste período que ela também desenvolve e adquire a fala, a linguagem. Do mesmo jeito que ela cai quando esta começando a andar, é perfeitamente natural que algumas (umas mais outras menos, cada uma no seu ritmo) apresentem maiores ou menores quebras em suas falas. Na fonoaudiologia este período é denominado como "freqüentes disfluências", "gagueira fisiológica" ou "gagueira natural". São quebras na fala da criança que diferem qualitativamente da gagueira patológica (gagueira sofrimento) que muito discutimos por aqui. De um modo geral, quando a criança começa a apresentar essas freqüentes disfluências, aqueles que são significativos a ela começarão a interferir de maneira negativa em sua fala. Darão conselhos do tipo: "fale direito", "fique calmo", "respire antes de falar", etc..

Esse tipo de comportamento demonstra que a fala da criança não está sendo aceita e ela não poderá fazer nada de diferente, tendo em vista que a fala é algo espontâneo e que o falante sabe falar mas não sabe como fala. Além do mais, não se ensina a falar com orientações. O ser humano, em condições normais, aprende a falar ouvindo, através do modelo auditivo que recebe.
Tais conselhos além de não surtirem os efeitos desejados, contribuem para agravar a situação daquela criança que entenderá que sua fala não é aceita. A fala da criança é exigida e negada.

Com a constância desse padrão de exigência paradoxal (tem efeito contrário à intenção), toda situação de fala para a criança será de expectativa, onde ela tentará de tudo para falar do modo idealizado pelo seu interlocutor. O simples fato de "tentar falar bem" fará com que ela quebre a espontaneidade peculiar à fala, pois, de um modo geral,
o espontâneo não é tentado. A criança passa a sentir-se punida ou culpada pela sua forma de falar. Sua fala será carregada de antecipações, truques, sentimentos negativos que gerarão mais gagueira, que reforçará cada vez mais uma imagem de mau falante naquela criança. Surgindo assim a gagueira sofrimento.

Sabemos que uma fala adequada desenvolve-se em relações de comunicação que garantem a espontaneidade e reforçam a capacidade do falante (Friedman, 2004). Van Riper estudou diversos sujeitos adultos disfluentes que não se consideravam gagos. Ele afirmou que, muito possivelmente, esses adultos disfluentes, quando eram crianças, tiveram pais e professores compreensivos, que aceitaram o padrão de fala espontâneo de seus filhos e alunos.

Todas essas teorias estão embasadas e muito melhor explicadas no livro "Gagueira: origem e tratamento" de Silvia Friedman. O estudo foi feito através do discurso de sujeitos considerados gagos que contaram a história de suas falas.

A figura acima simboliza muito bem o que falamos aqui. Mostra uma criança diante dos seus pais e o seguinte diálogo:
P - Fale devagar...
C - Eu estou tentando mas...
P - Nós estamos querendo ajudar!
C - ...só faz piorar

03 setembro 2007

Depoimentos de Sucesso

Na postagem de hoje, colocarei três depoimentos de pessoas que superaram a gagueira sofrimento. Os dois primeiros sujeitos foram pacientes de Sílvia Friedman, e o terceiro de Mariângela Zulian. Os depoimentos foram retirados do saite "Gagueira - Novos Paradigmas". Eles comprovam a eficiência da teoria desenvolvida por Friedman. As terapias que abordam esta linha procuram valorizar o indivíduo, não a gagueira (como ocorre em muitos tratamentos), buscam modificações no modo de ver a fala, a gagueira, o mundo (os outros) e a si mesmo. É emocionante ler os depoimentos e ver o quanto essas pessoas mudaram o estilo de vida.

Os depoentes preferiram manter o anonimato. Mas seria ótimo que algum, caso leiam esta postagem, se manifestasse.

Aconselho os colegas a acessarem o saite acima indicado. É uma outra forma de ver a gagueira. Aglutina e vai além do orgânico, do psicológico e do emocional.

Boa leitura!

Caso 01:
Moça de 27 anos, enfermeira:

P: Nas entrevistas, né, antes de eu entrar aqui, eu ficava em pânico, né. Travava mesmo. Em seminário da escola, eu não ia lá na frente, mesmo. Eu não ia mesmo, lá na frente, ficava super travada, com medo. Só que agora, não. Eu vou, enfrento posso até gaguejar, mas eu vou. Não fico sem nota por causa disso, entendeu? E nas entrevistas eu vou também, eu faço a minha parte e aí, seja o que Deus quiser! Eu tou muito melhor. Depois que eu entrei aqui, eu me superei bastante.

T: E o que é importante pra você não piorar?

P: Ah, eu, aceitar. Eu não achar que eu sou assim, né, diferente das outras pessoas. Eu tenho que aceitar que posso fazer as mesmas coisas que as outras pessoas fazem. Que eu sou normal, não tenho nada de diferente. Que eu posso ir lá na frente, falar, posso gaguejar, também, e daí, entendeu? Eu tenho que me aceitar.

Caso 02:
Moça de 18 anos, estudante:

P: Jamais eu iria pensar que eu ia trabalhar de operadora de telemarketing. Jamais! Uma gaga, operadora de telemarketing? Mas na semana passada, a menina me avisou, aqui da minha sala:

- Ó, eu trabalho, lá. Eles tão precisando.

Ela me deu o endereço, eu fui. Aí, eu fui pensando que “eu vou conseguir”. Só que até a minha mãe...
- Você?
Eu falei:
- É porque? Eu consigo, eu falo!
- Então, vai. Se é isso que você quer, vai em frente.

Aí eu fui. Acordei cedinho. Cheguei lá às 7:40h. Era às 8h. Eu cheguei muito adiantada. Aí eu cheguei lá. Entrei no elevador e comecei a chorar. Tipo, isso era uma coisa que nunca aconteceu na minha vida, de pensar. Sabe, que eu tou indo procurar emprego e que eu consigo. (choro)

Porque isso foi muito difícil pra mim, chegar onde estou hoje... (choro).
Desculpa. (choro)

Porque antes, as pessoas olhavam pra mim, como, como se eu não fosse ninguém. Ninguém fazia amizade comigo, porque eu não falava. As meninas na escola nem ligavam pra mim. Hoje, hoje eu digo que sou muito feliz. Muito! Eu não era feliz antes Eu não era.

Eu tou muito feliz, graças a Deus, porque eu falo direito. E também sou muito chorona. E hoje eu tenho a certeza que eu tenho muita, muita capacidade de arrumar emprego e trabalhar. Que eu consigo. Antes eu não pensava assim. Eu pensava que eu ia ficar o resto da minha vida no meu quarto trancada. Ia ficar velhinha no quarto trancada.

Mas hoje eu penso bem que eu vou ser igual ao meu irmão. Vou dar duro pra entrar na faculdade, igual ao meu irmão, que é meu pai, né. Eu chamo ele de pai.

...a gente pensa diferente do que a gente pensava. Pensar que eu posso, eu consigo, que eu sou igual a todo mundo. Não igual eu pensava antes. Aí, eu comecei fazer fono. Se eu conheço a pessoa, logo falo que faço fono pra ela, quando eu começar falar, ela já não olhar como estranho. Apesar que eu acho que eu tou muito bem, tou falando muito bem. Eu eu tou fazendo coisas que eu não fazia. A hora no relógio, eu falo pras pessoas. Se pergunta onde é o endereço, eu falo. Eu peço informações na rua, mesmo sabendo onde que é. Só pra fazer, só pra fazer um teste. Eu sei onde que é, mas eu peço. Só pra ver se eu consigo. E eu consigo mesmo.

Falo com estranhos, eu vou no açougue agora (risos). Antes eu tinha medo. A não ia, tinha medo. Hoje eu penso o que aconteceu no passado. Eu penso... e porque que acontecia aquilo? É tão simples. Entendeu? É tão simples você falar a hora pra uma pessoa, mesmo que seja é a primeira sílaba com n, nove, entendeu? Porque antes eu não conseguia falar “nove”. Era um desespero, entendeu?” Alô”, no telefone. Quando eu dizia alô no telefone, eu falava ‘hello’. Quando eu atendia o telefone, eu ia na geladeira, colocava alguma de comida pra falar no telefone. A desculpa é que eu tava de boca cheia. Podia ser alho, cebola, o que vinha, aí, sei lá....

T: Então, não era a cabeça que tinha que tratar?

P: É, era a cabeça. Porque hoje, lá em casa, só eu atendo o telefone. Ninguém mais quer atender. O telefone toca, “Atende, Ma...”.

Porque se fosse antes, se chamava, chamava o dia inteiro, pessoal lá em casa não atendia. Podia ser uma emergência, um caso de morte. Não atendia, entendeu? Morria de medo. Falava a não saía o ‘alô’, tão simples.

Caso 03:
L. G., 25 anos, estudante:

Eu acho que todo esse processo que a gente passou aqui foi muito importante para eu descobrir algumas coisas que antes eu não percebia, ou que eu não queria perceber. Desde o começo eu sentia muito receio em trabalhar essa questão, por ela ser delicada e não muito fácil de se trabalhar, mas com o tempo e as nossas conversas eu fui percebendo que tudo é um "jogo" e esse jogo só acontece porque eu deixo ele acontecer. Então, a partir do momento em que eu entendi melhor como funciona a minha mente, eu tive em minhas mãos as ferramentas que eu precisava para sair desse ciclo que tanto me incomodava. Assim, eu penso que agora depende muito mais de mim, de eu querer que as coisas aconteçam, pois antes eu não tinha consciência do poder que meus pensamentos tinham sobre mim. Dessa forma, me sinto muito melhor, mais confiante para enfrentar este problema que tanto me incomodou.

23 agosto 2007

Gagueira Natural X Gagueira Sofrimento

Retomando a discussão a respeito do termo gagueira, creio que esta nomenclatura está bastante estigmatizada socialmente. É motivo de personagens cômicos na TV, de risos e zombarias na sociedade. Muitos sujeitos que tem gagueira, não pronunciam a palavra. Eu, por exemplo, não dizia que tinha gagueira ou que era gago. Eram duas palavras muito pesadas para mim.

Sílvia Friedman, acreditando que esta será a palavra que definirá por mais um bom tempo este tipo de patologia, propõe a adjetivização do termo. Ela acrescenta os adjetivos natural e sofrimento à palavra gagueira. Estas novas nomeações servem tanto para desmistificar o seu valor, quanto para diferenciar no tipo de tratamento.

A gagueira natural pode ser vista como uma condição natural da fala das pessoas. Tal naturalidade deve-se a pelo menos três fatores: motor, cognição e emoção. Sabemos que a fala desenvolve-se através do trabalho conjunto desses três determinantes. Da soma desses fatores, naturalmente pode haver rupturas, falhas, disfluências. A autora destaca também que, em virtude das múltiplas situações que esses fatores venham a se somar, não se pode pré-definir o que é normal e o que é anormal em relação à gagueira. O mais importante é "entender a produção da fala a partir das contingências motoras, emocionais e cognitivas que lhe são peculiares com a mente livre de preconceitos" afirma Friedman. Desta forma não se desumaniza a fala, não estigmatiza a gagueira baseando-se em idealizações sobre o que é falar bem ou normal. Este dogma estigmatizante gera fortes marcas na personalidade daqueles que passam a ser rotulados como gagos. Quebrar este estigma é particularmente importante para a sociedade, a qual muitas vezes passa a rotular uma criança em razão de algo que seria natural da sua cognição e emoção, por exemplo. A gagueira natural numa criança pode evoluir qualitativamente para a gagueira-sofrimento, devendo ser tratada. O foco principal do tratamento deverá ser aquele que rotula a fala da criança como gaguejante, para que a aceite, bem como saiba o que fazer para ajudar.

Por gagueira-sofrimento entende-se a que possui tensão. Aqui o indivíduo já tem consciência de que sua fala não é aceita e que deve "fazer de tudo" para falar da maneira idealizada pela sociedade. Porém, cada vez que tentam "falar bem", utilizando-se de truques (trocar palavras, por exemplo), menos conseguem falar do modo desejado. Esta situação gera cada vez mais gagueira, ocorre a identificação do sujeito com o rótulo da sociedade, o qual fará com que, em outras situações comunicativas, a tensão esteja presente. Muitos estudiosos afirmam: "quanto mais se tenta falar bem, menos se consegue fazê-lo". Instalada esta condição paradoxal, forma-se um ciclo vicioso. O indivíduo quer falar bem, mas ao mesmo tempo não acredita nas suas competências para fazê-lo (Friedman).

É interessante notar que se não houvesse a idealização da sociedade, talvez tivéssemos pessoas disfluentes, mas não com gagueira-sofrimento. Está aqui uma das importâncias dessa adjetivização. A população tendo o conhecimento que é normal gaguejar, passará a interagir de modo diferente com a criança (principalmente!) que apresenta uma fala disfluente. Por este motivo que estou tocando tanto neste assunto: É PRECISO DESBANALIZAR O TERMO GAGUEIRA.

20 julho 2007

Enquete 003: Gagueira - termo banalizado?

Estamos com mais uma enquete aberta. É a nossa terceira. Para ver e votar nas outras duas, basta clicar no marcador "ENQUETES", situado logo abaixo desta postagem.

Esta enquete atual deseja levantar a discussão a respeito do uso do termo gagueira. Esta palavra possui uma forte marca, principalmente nas pessoas que gaguejam com muita tensão, com sofrimento, nas que sofrem diante de situações comunicativas. Além disso, o termo é generalizado para toda e qualquer disfluência que ocorre nas falas das pessoas. Qualquer pessoa utiliza o termo gagueira para caracterizar quebras, hesitações, repetições, etc. Porém, há muita diferença entre o simples gaguejar e o gaguejar de maneira patológica.


Por estes e outros motivos, gostaria que discutíssemos essa questão.




O termo Gagueira está banalizado?

Sim

Não