25 janeiro 2008

A Mudança Desejada

"O nosso próprio livre-arbítrio pode ser a mais poderosa força a dirigir o desenvolvimento de nossos cérebros e, portanto, nossas vidas. (...) Experiências, pensamentos, ações e emoções mudam-lhe a estrutura."

Dr. John J. Ratey, 2002 - Em "O Cérebro - um guia para o usuário"



A postagem passada encerrei-a afirmando que a mudança é possível. Por experiência própria acredito muito nela. A postagem de hoje é baseada no conteúdo do livro "Mudança - Princípios de Formação e Resolução de Problemas" de Paul Watzlawick, John Weakland e Richard Fish, pesquisadores do Instituto de Pesquisas Psiquiátricas, de Palo Alto, Califórnia, Estados Unidos. Esta publicação é de 1977 e acredito já não está mais disponível para venda.

O título do capítulo do livro nos dá uma boa noção do seu conteúdo. " 'O MESMO REMÉDIO EM MAIOR DOSE' OU QUANDO A SOLUÇÃO VIRA PROBLEMA". Até já falei um pouco sobre isso em uma das postagens mais recentes. Agora vamos nos aprofundar mais.

Em geral, para promover alguma mudança é preciso o desvio de alguma norma. Isso se aplica também a campos como a Fisiologia, Neurologia, Física e Economia. Se estamos com frio a solução é o agasalho. Mais frio, mais agasalho. "A mudança desejada se obtém em resultado de aplicar o oposto daquilo que produziu o desvio". Porém, nem todo problema pode ser combatido com a oposição deliberada. O alcoolismo, que representa um sério problema social, se for proibido, gerará todo um mecanismo clandestino a fim de suprir tal necessidade. Para problemas desse tipo " 'a solução' contribui enormemente para agravar o problema' ". A proibição não produz a mudança desejada.

"Muitas das dificuldades enfrentadas pelos seres humanos não permanecem imutáveis. A situação pode permanecer estruturalmente semelhante ou idêntica, mas a intensidade da dificuldade e do sofrimento decorrente aumenta, especialmente se se reforçar a solução errônea", afirmam Watzlawick et al.

Os referidos autores também se referem à pornografia. Seria este um mal social? Para muitos, sim! Porém, a liberação na Dinamarca levou muitas pessoas a ridicularizá-la e a ignorá-la. Até mesmo dentro de casa podemos perceber isso quando crianças (pré-adolescentes) são proibidas de ver revistas, filmes adultos. Tal proibição tem um enorme potencial de gerar nos pré-adolescentes uma enorme vontade de rompê-la. Planos serão arquitetados para descobrir o que é proibido. A repressão não somente é o pior dos males, como poderá tornar-se o próprio problema, já que sem a "solução" não haveria problema. Dentro de casa, o diálogo, o acolhimento, a orientação seriam atitudes mais facilitadoras, do que a proibição geral e irrestrita.

O que podemos perceber em diversas situações problemáticas é que "o mesmo remédio em maior dose é a receita para a mudança, e esta solução é o que constitui o problema". Com freqüência ocorre nas famílias a tentativa de gerar determinados sentimentos em seus filhos. Os autores nos mostram que alguns pais ao perceberem que seus filhos estão com alguma tristeza ou irritação no semblante, ordenam que estes dirijam-se aos seus quartos e só retornem quando tiverem um sorriso no rosto. Diante dessa situação, a criança tende a sentir-se culpada por não se sentir como deveria, a fim de tornar-se aceita e boazinha, ou até "sentir ódio estéril em face do que lhe estão fazendo", somando-se à lista dos sentimentos que os pais não gostariam que os filhos tivessem.

Uma outra solução equivocada é a tentativa de forçar-se de algum modo a dormir diante da falta de sono. Este é "um fenômeno que só pode ocorrer espontaneamente. Não pode sobrevir espontaneamente quando desejado". O que era anteriormente somente uma dificuldade, pode tornar-se um problema com possível dependência de drogas e medicações soníferas; "e cada uma dessas providências, em lugar de resolver, só faz intensificar o problema ainda mais".

Diante de um problema já tornado crônico, é muito interessante saber quais as soluções já tentadas para solucioná-lo. Tais soluções, já está mais que comprovado, não são capazes de produzir a mudança desejada, são tentativas errôneas que em certas circunstâncias produzirão problemas maiores.

Na próxima postagem farei a analogia de tudo que disse aqui e a gagueira. Acredito que vocês estejam pensando nas soluções que possuem para não gaguejar. Gostaria que elas fossem relatadas nos comentários. Deixe uma mensagem contando o que faz/fez para deixar de gaguejar. Conto com sua participação. Agradeço.

11 janeiro 2008

Quando a Solução Vira Problema

Os indivíduos com gagueira possuem inúmeras soluções para parar de gaguejar. O que se observa é que estas tornam-se problemas ainda maiores. Inspirações, expirações, prolongamentos de sons e palavras de apoio (Friedman e Passos, 2007*) são alguns artifícios desenvolvidos para contornar, mesmo que momentaneamente, a gagueira. Estas estratégias foram criadas tendo em vista ser considerado "proibido" gaguejar. Acalmar-se, respirar e pensar antes de falar, risos e imitações foram algumas das proibições que os indivíduos com gagueira, quando ainda crianças, ouviram ao ser disfluentes. O outro, para Azevedo e Freire (In Friedman e Passos), é o falante ideal e que ao invés de doar sentido ao que está sendo falado, fiscaliza o dizer. A vivência sistemática dessas relações com alto valor afetivo tende a gerar na pessoa uma imagem estigmatizada de falante (alguém que deseja falar bem, mas não acredita em sua competência para isso).

A proibição para ser disfluente é o motor para que a criança busque soluções na tentativa de ter sua fala aceita e deixar de ser rejeitada, porém a solução encontrada gera cada vez mais gagueira, pois a fala perde espontaneidade, passa a ser controlada. Sai do eixo do sentido, para o da forma (Friedman e Passos).

Proibição para gaguejar

Solução

Mais gagueira

Esta ilustração pode ser comprovada a todo instante. Principalmente quando o indivíduo deseja incondicionalmente a fluência. Porém, em inúmeras outras situações de fala a fluência se faz presente, para a surpresa do falante que não entende como isso foi possível. Vejam um relato, retirado do Grupo Gagueira, de um indivíduo (com privacidade mantida) que atualmente está sofrendo muito com sua gagueira, e que serve de comprovação para a teoria aqui debatida:

"Também ao telefone, fui cancelar um chip da operadora X, e como eu gaguejei, o cara se recusou a cancelar a linha, dizendo que eu não era o titular e que era uma pessoa se passando pelo titular. Não sei da onde saiu tanta fluência, mas na hora eu fiquei p. de raiva e consegui falar: 'Olha Fulano, eu também estou gravando esta ligação e estou anotando que horas são. Eu vou entrar com um pedido na justiça para o senhor pagar a minha mensalidade desse celular, porque você é o único que está me impedindo de cancelar. Eu não quero mais, não vou pagar, então como fica? Você paga? Se você se recusar a cancelar agora, vou entrar com o pedido para a cobrança passar para o seu nome.' "

Perceberam o que ele disse? "Não sei da onde saiu tanta fluência".

Mesmo após já ter gaguejado, em determinado momento a fluência marcou presença. Muito provavelmente, este sujeito, na hora em que foi fluente, esqueceu-se de todas as soluções, por ele já tentadas, para falar bem. Deixou de se preocupar com a forma, para se ater ao sentido do que iria falar. Esqueceu-se de procurar palavras difíceis para substituí-las. Quando isso ocorre, o sujeito não tem dúvidas em relação à sua capacidade para falar; não deseja conscientemente a fluência como algo que deve ser alcançado. Não desejando-a, ela aparece. É o que ocorre com os outros falantes.

Sem ter medo de errar, afirmo que isso ocorre em muitas outras situações e com todas as pessoas com gagueira, o que demonstra claramente que há integridade fonoarticulatória.

Conforme venho falando nas postagens mais recentes, a mudança é possível! Superar a gagueira como um sofrimento para falar, é possível! Continuarei este assunto na próxima postagem.



*FRIEDMAN, S. ; PASSOS, M. C. . O Grupo Terapêutico em Fonoaudiologia: Uma Experiência com Pessoas Adultas.In:Santana, AP; Berberian, AP; Guarinello, AC; Massi, G.(Org.). Abordagens Grupais em Fonoaudiologia. 1 ed. São Paulo: Plexus Editora,2007, v. 1, p.138-163.

07 janeiro 2008

A Formação da Personalidade

Na Revista Superinteressante de Janeiro/2008 (edição 248) foi abordado, como assunto de capa, o tema Personalidade. Por que você é assim? A genética determina o comportamento? Os pais influenciam a personalidade dos filhos? As amizades influenciam também? É possível mudar nosso jeito de ser? Essas foram algumas das perguntas feitas e que foram respondidas.

Eu achei a matéria da capa particularmente interessante e de fácil associação com a gagueira por diversos aspectos, os quais tentarei explicar nesta postagem. É claro que a gagueira não é apenas uma questão comportamental ou de personalidade, apesar de está muito relacionada a esses aspectos. Indivíduos com problemas na fala, conforme dito no periódico, tendem a apresentar traços de timidez.

Acima eu lancei um monte de perguntas, as responderei baseando-me no que foi dito na reportagem e farei algumas relações com a gagueira.

Genética

A genética não define o comportamento humano. Ela "não é um destino, não determina o que você vai ser. Ela oferece predisposições. Todos estão sujeitos a influências ambientais que podem sim, mudar a expressão dos genes e fazer com que eles simplesmente não se manifestem". Apesar de nos Estados Unidos existir a crença quase que absoluta que gagueira tem origem hereditária (logo, transmitida geneticamente), acredito que essa não seja uma questão muito importante no surgimento da gagueira em uma criança. Eu não acredito que a gagueira seja transmitida nessas condições. O ponto de discordância está no conceito do que é gagueira. Para mim, o que pode ocorrer é a tendência para ser disfluente. Já que falar é uma habilidade (motora fina), assim como correr. A gagueira é originada, de acordo com Silvia Friedman, nas relações interpessoais negativas, em relação à fala, do indivíduo com o meio. A vivência sistemática dessas condições levam a criança a perceber que sua fala não é aceita, que é rejeitada pelos outros, levando ao sofrimento. Esse tipo de relação é extremamente comum entre as pessoas com gagueira. Essa é a verdadeira "herança genética da gagueira". Por outro lado, conhecemos diversas pessoas que são disfluentes, mas que não sofrem com isso, ou seja, não são gagas. Muito possivelmente não tiveram suas falas disfluentes colocadas em questão.

Os Pais Influenciam

A influência deles no desenvolvimento da personalidade é imprevisível. Os pais "são os primeiros a conter o que há de animal em nós, nos ensinando a controlar desejos em nome de regras morais, castigos e convenções da civilização". "As noções de pecado e culpa são transmitidas pelos pais e podem ser a causa de vários dos nossos problemas. Do conflito entre os nossos desejos e culpas, sairiam traços de personalidade, recalques inconscientes e fraquezas que nos acompanham vida afora". "As sinapses cerebrais são construídas a partir das relações externas. Sem interação com o outro não há personalidade". Apesar da forte ligação existente entre os pais e as crianças, principalmente nos primeiros anos de vida, não há comprovação estatística a respeito do desenvolvimento da personalidade dos filhos em relação ao modo como foi educado.

Falando-se em gagueira, como as crianças aprendem com os pais as convenções da civilização, quando a criança é criticada, chamada de gaga, corrigida, solicitada para falar mais devagar/com calma, entre outras coisas (ver Guia para pais e educadores), então elas começam a perceber que o seu modo de falar não é o idealizado pela sociedade. Aquela fala com repetições e com prolongamentos não é aceita. Esse valor será percebido pela criança, que começa a fazer o que deveria ser espontâneo, através de tentativas para falar bem, para falar de um modo que seja aceito pelo outro. Já falei nas postagens anterior mais recentes, o que ocorre quando tenta-se algo que deveria ser espontâneo.


As Amizades Influenciam

A influência dos amigos é muito maior do que se imagina. Judith Rich Harris (no livro Diga-me Com Quem Anda...) afirma que as relações da criança com amigos da escola e da vizinhança "são o grande definidor da personalidade adulta". É mais importante do que o convívio com os pais. "A identificação com um grupo, e a aceitação ou rejeição por parte do grupo, é que deixam marcas permanentes na personalidade", afirma Judith Harris.

Em relação à gagueira, acredito que este seja um grande tema para ser estudado. Qual a maior influência no surgimento e manutenção da gagueira, a dos pais ou dos amigos? O grau de "responsabilidade" que cada um desses possui ainda não se sabe. Sabe-se que influenciam! Para uma criança em idade escolar, é muito difícil e aterrador conviver com risos e chacotas oriundos de seus pares. Ser rejeitado deixará marcas permanentes na memória dessa criança. A sua imagem estará relacionada a alguém "que não fala direito", "gago", "que deseja fala bem para ser aceito socialmente". Segundo Friedman (no livro Gagueira: origem e tratamento), as experiências interpessoais que veiculam uma "ideologia do bem falar" podem colocar a fala dentro de um padrão subjetivo paradoxal, onde o indivíduo vê-se como um mau falante e tenta falar bem. "O falar fica associado à expectativas e emoções negativas, que por sua vez determinam alterações, isto é tensões, na produção articulatória", afirma Friedman. As risadas, entendidas como elementos de rejeição, estarão sempre no subconsciente do indivíduo mesmo já adulto.

É Possível Mudar

Sim, é possível! A nossa personalidade está a todo tempo em mudança. "Agimos de modos diferentes com pessoas de idade, sexo ou posição social diferentes". Podemos ser amigáveis e inteligentes com quem nos deixa a vontade, mas podemos ser o oposto com quem nos desafia. "A nossa personalidade depende do que os outros acham: você pode ser chato para uma pessoa, mas gente boa ou confiável para quem o conhece melhor". "É claro que há comportamentos e atitudes que são muito difíceis de largar. Somente 10% das pessoas com pontes de safena mudam hábitos alimentares e deixam o sedentarismo. As outras acabam morrendo de ataque cardíaco." Não existem pesquisas científicas afirmando que o ser humano não tem jeito. "De ter consciência de si próprio, um traço bem arraigado à personalidade, atribuir a ele uma causa, vencer derrotismos e apegos, vão anos, se não uma vida toda. Mas talvez o caminho de nos conhecer, mudar o que for possível e nos contentar com o que somos seja o grande desafio da vida."

Em relação à gagueira a mudança também é possível. Assim como temos personalidades diferentes para pessoas diferentes, muitas vezes, o sujeito com gagueira determina com/em quais pessoas/situações pode "falar bem". Muitos afirmam que com pessoas conhecidas a gagueira piora, para outros tantos piora com pessoas desconhecidas. Para uns falar em público é moleza, para outros é terrível. O que se percebe é que quanto mais a auto-imagem está em jogo, quanto mais a necessidade de falar bem está em questão e ao mesmo tempo há dúvidas na competência para falar do modo desejado, mais a gagueira está presente. O trabalho de mudança consiste, segundo Friedman (no livro já citado), na desmistificação da auto-imagem e da capacidade articulatória efetiva do sujeito. Ele é capaz de falar em diversas situações com fluência, o que comprova a sua integridade fonoarticulatória. O sujeito deve perceber a existência desses momentos fluentes; que a maior parte da fala é fluente; que sua consciência se ocupa apenas com a gagueira e que os comportamentos que usa para não gaguejar, além de manter a gagueira, são truques que também podem revelar sua capacidade articulatória íntegra (por exemplo: substituir palavras. Apesar de ser um truque, demonstra que a capacidade de articular as palavras está perfeita). Ele deve
"perceber que a gagueira não é a negação da fluência, mas se sobrepõe a ela e coexiste com ela. A fluência não é uma meta a ser alcançada, porque já existe, a meta é aprender a lidar com a gagueira, com a imagem de mau falante." (FRIEDMAN, 2004 - livro já citado acima).

30 dezembro 2007

Buscar o Inacessível, Torna Impossível o Realizável

É muito engraçado como a gente não se reconhece falando "fluentemente". Por que será que isso ocorre? Temos o constante desejo de falarmos bem, quando conseguimos não acreditamos. É algo meio paradoxal em sua essência. Essa questão tem uma outra por trás que nós devemos pensar também. Não devemos desejar a fluência, pois quanto mais a desejamos, menos a conseguimos. Quando desejamos algo, temos que tentar para alcançá-lo. Quando esse algo é espontâneo/natural temos um resultado oposto ao desejado.

Tomando como base Watzlawick, imaginemos uma pessoa atacada de insônia. Esta coloca-se tipicamente num paradoxo de tentar provocar um fenômeno natural e espontâneo que é o sono, mediante tentativas e força de vontade e permanece acordada. Algo semelhante ocorre também com a excitação sexual e orgasmos. "São fenômenos naturais; quanto mais forem desejados, tanto menos provável será ocorrerem". "A própria 'solução' pode constituir o problema".

Na gagueira é mais ou menos assim também. O que mais o sujeito com gagueira deseja é falar fluentemente. Esse desejo é objetivado no planejamento da fala, na troca de "palavras difíceis" por "palavras fáceis", por exemplo. A partir daí o sujeito tentará o que deve ser espontâneo. Além de ser contraditório, a pessoa no íntimo não acredita ser capaz de alcançar o que mais deseja.

A fluência é o fenômeno natural, quanto mais for desejada, tanto menos provável será ocorrer. A solução que encontramos para "resolver" a gagueira, constitui-se no maior problema. Sanderson escreveu em seu blog, que para o sujeito com gagueira falar ocorre mais ou menos o seguinte:

"Pensamento => desejo de falar => aproximação => não confiança na capacidade de falar => controlar a fala <=> tentar controlar o espontâneo <=> medo de falar <=> antecipar <=> esconder a gagueira <=> vergonha de gaguejar <=> auto-pressão para falar dependendo da situação segundo a subjetividade e história social <=> tentativa de fuga, i.e. de calar <=> evitação <=> ansiedade <=> nervosismo <=> sofrimento (angústia, frustração, amargura, culpa, sentimento de inferioridade, baixa auto-estima, constrangimento, embaraço) <=> tensão => bloqueio de cordas vocais => esforço para falar => movimentos corporais na tentativa de falar => gagueira."

Esse modo de falar é a solução encontrada para, muitas vezes, não gaguejar. Como dito anteriormente, essa solução encontrada constitui-se no maior problema. É interessante notarmos que quando esse modo não é construído, a fala flui naturalmente. Cada pessoa é capaz de destacar momentos e situações em que falou bem.

Tudo isso que falei se comprova com depoimentos que tenho lido por aqui e no Grupo Gagueira. É muito comum lermos que "quando mais eu preciso da minha fala, é aí que ela falha". Por enquanto, em diversas outras situações onde nos "desligamos" e não exigimos a fluência, somos fluentes.

Amigos, que em 2008 cada um possa encontrar a verdadeira solução para a gagueira. Feliz Ano Novo!

"Enquanto buscamos o inacessível, tornamos impossível o realizável"
Robert Ardrey

24 dezembro 2007

Como a Gagueira se Manifesta

A atual postagem é originada de uma conversa ocorrida no Grupo Gagueira. Realizei alguns ajustes e acréscimos.

Olá fulano, seja bem-vindo ao nosso grupo. Use e abuse dele. Não é por não ter grupo de apoio na sua cidade que você ficará sem um espaço para conversar e se sentir bem.

Sua primeira mensagem está muito interessante, ela retrata muito bem como a gagueira se manifesta. Vou colocar alguns trechos de sua fala na seqüência que acredito, baseado em estudos, ser a correta da manifestação da gagueira: "tudo que eu mais queria é poder falar bem", "que planeja uma coisa na sua cabeça e na hora não sai aquilo que você planejou", "o nervosismo entra em campo".

1 - "tudo que eu mais queria é poder falar bem"

O desejo de querer falar bem, demonstra que nós temos uma imagem estigmatizada de falante, de alguém que quer falar bem, mas que não acredita nesta competência. Além do mais, desejar algo que é natural, espontâneo (a fluência), não nos leva a esse objetivo. É paradoxal. Quanto mais desejamos falar bem, menos conseguimos. Porém, quando estamos descontraídos, quando até "esquecemos da gagueira", é o que muitos muitas vezes afirmam, somos fluentes. Isso é muito comum acontecer, basta que prestemos atenção em nós mesmos: falar com crianças, com animais são apenas alguns exemplos mais comuns que comprovam isso. Porém, cada pessoa cria as situações, as pessoas com quem "podem falar sem problemas" e também são fluentes.

2 - "que planeja uma coisa na sua cabeça e na hora não sai aquilo que você planejou"

O planejamento da fala é o que simboliza a tentativa de querer falar bem. Por diversas vezes, ao longo do dia, estamos programando o que será dito. Às vezes encontramos uma "palavra difícil" e já tratamos de substituí-la. Outras vezes isso não é possível. Quando perguntam nosso nome, não tem como trocar, por isso que muitos temem essa pergunta, pois já havia sido várias vezes imaginada com qualidades negativas. Ao planejarmos, ficamos presos à forma não ao conteúdo do falar. As pessoas consideradas fluentes preocupam-se com o conteúdo, por isso fluem (ou não, pois existem muitas pessoas disfluentes que não se importam com a forma). Nós, muitas vezes agimos desta forma, como falei no parágrafo anterior: quando esquecemos a forma, somos fluentes.

Ser fluente, em minha opinião, não significa não disfluir. Estudos indicam que a disfluência faz parte da fluência. O sujeito fluente, muitas vezes utiliza-se, de modo inconsciente, de disfluências em seu discurso. Isso torna a fala muitas vezes mais atraente. Logo, se tivermos uma disfluência em nosso falar, não devemos encarar como desmérito, mas sim como algo que é comum ocorrer em falantes. Sair dessas situações com dignidade é muito importante. Diante de risos, questionamentos, afirmar que realmente gaguejou, que se isso os faz rir, a nós já nos fez sofrer muito, mas que nem por isso vamos deixar de falar e de demonstrarmos o que estamos intencionados.

3 - "o nervosismo entra em campo"

As emoções são consequências, não causas, da gagueira patológica. Antes mesmo de falar, o sujeito já está tomado por um quadro de ansiedade e nervosismo, pois prever que terá que falar em determinada situação e esse pensamento é, de um modo geral, negativo. O sujeito deseja a fluência, duvida dessa sua capacidade (planejando, trocando palavras, etc.) e fica emocionalmente abalado. A situação se agrava, pois ao longo de anos a sociedade riu do nosso modo de falar, portanto tudo que já vivemos é recapitulado diante de um situação de falar em público, por exemplo. Diante de um possível fracasso, tal momento será acrescentado dentro da nossa consciência, confirmando a nossa duvida, "incapacidade para falar" e imagem estigmatizada falante (que é o fim e começo de um círculo vicioso que se mantém).

É preciso resolver esse problema. A mesma solução em maior dose não resolve!

20 dezembro 2007

A Gagueira Não é o Problema

Nosso problema não é a gagueira. Na verdade nunca foi, mas sempre fomos levados a acreditar no contrário.

Recentemente um colega do Grupo Gagueira nos relatou que o que mais o frustra é a incapacidade de discutir, debater, expor sentimentos, opiniões e pensamentos. Gaguejar é visto por muitos, inclusive fonoaudiólogos, como algo que deve ser combatido, eliminado, extinto. É uma visão idealizada da fala, que não leva em consideração a natureza humana que é perfeita nas suas imperfeições. Tanto é que muitos profissionais consideram patológica, a fala de uma criança com dois anos gaguejando, pois está ansiosa (ou movida por qualquer outra emoção) para contar uma novidade aos pais.

Não existe nada mais natural em um ser humano do que gaguejar. Quantos não fazem isso? Jô Soares, Sílvio Santos, entre outros tantos conhecidos nossos que gaguejam/disfluem. A disfluência de alguns é muito grande, mas eles não sofrem com isso. Seriam facilmente registrados como gagos em qualquer teste objetivo de medição da fluência. Porém, existe algo que ele não possui, que o impede de considerar-se como gago.

Então, amigos, realmente o problema não é a gagueira. É por este motivo que terapias, exercícios, técnicas que tentam extingui-la não são, de um modo geral, muito bem sucedidos. Gaguejar é algo natural do ser humano. Não existe aquele que não gagueje. Falar é uma habilidade, envolve articulação, motricidade, por este motivo estará sempre sujeita a quebras. Além do mais, falar está muito ligado ao emocional. Adultos nervosos podem ter muitas quebras em suas falas. Sem falarmos que muitas vezes as palavras somem, ocorrem bloqueios pois pensamos em duas palavras "ao mesmo tempo", entre outras coisas que impossibilitam a plenitude da fluência. Claro que existem pessoas que mais parecem ser robôs falando. Não no sentido de serem monótonas, mas por terem uma habilidade na fala surpreendente. É como Ronaldinho jogando bola.

Articulação, emoção e cognição. Tudo isso influencia em nossas falas. Balancear isso de maneira adequada é para poucos.

Portanto, a gagueira nunca entrará em extinção. A todo instante, em algum lugar do mundo, haverá uma pessoa gaguejando. Para ela isso poderá ser um problema ou não. Ela poderá sofrer ou não. Dependerá dos valores que foram proporcionados a ela, ao longo do tempo, dos valores da sociedade em que vive, da qual ela também faz parte e muitas vezes alimenta e se alimenta de tais valores.

O que seria da gagueira sem o sofrimento?