01 abril 2010

Rir da gagueira pode ser assédio moral



No Dia Internacional de Atenção à Gagueira de 2009, o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Fluência de Fala (NEPFF) desenvolveu o tema "Gagueira e Assédio Moral".

A relação entre gagueira e assédio moral foi desenvolvida com base no livro Assédio Moral - A violência perversa no cotidiano, de Marie-France Hirigoyen.

O assédio moral é mais comumente associado às situações que ocorrem no ambiente de trabalho, mas também existe nas famílias, nas escolas... Quando buscamos a sua definição, percebe-se que muitos gagos passaram/passam por isso.

De acordo com Hirigoyen, entende-se por assédio "toda e qualquer conduta abusiva manifestando-se sobretudo por comportamentos, palavras, atos, gestos, escritos que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa".

Expressões como: "Fale direito! Até um papagaio fala melhor do que você!" ou "Fala logo! Parece um disco arranhado!", entre outros apelidos, comentários, gestos são exemplos de violências verbais ou não-verbais que ocorrem rotineiramente, que humilham e provocam dor, tristeza e sofrimento nas pessoas que gaguejam - ou seja são formas de assédio moral.


Este tipo de humilhação, no contexto social, atualmente, não parece ser tão grave a ponto de merecer atenção para que se fale a respeito. Pelo contrário. Na maioria das vezes, as pessoas em volta da agressão acham graça e se divertem às custas do sofrimento do outro. Em sujeitos que já apresentam dificuldades na fluência da fala, este sofrimento é marcante ao ponto de gerar efeitos importantes na relação entre o falante e sua fala. Ajuda a gerar ou manter um quadro de gagueira, marcado pela previsão do erro para não ser rejeitado pelo ouvinte, para evitar ser ridicularizado.

Em alguns casos extremos, como bullying (veja vídeo) a saída é realmente abrir um processo judicial. Tal atitude faz com que o fenômeno comece a ser trazido à mídia, o que leva a própria sociedade a questionar-se. Por outro lado, acredito, na maioria das vezes a violência não é tão intensa a ponto de haver condições de se abrir um processo. Então, o que pode-se fazer para fugir do assédio? Não existe um modelo universal de atitudes para pessoas que gaguejam poderiam seguir e não serem agredidas ou não se sentirem agredidas. Acredito que o começo de tudo é encontrar dignidade por gaguejar. Quando passamos a nos aceitar, a nos conhecer, a aceitar que a gagueira faça parte da nossa fala, quando damos outros valores a ela, quando mudamos a nossa postura estamos em condições de exigir que o outro também assim o faça, nos aceite e nos respeite.


Muitos que gaguejam se julgam responsáveis pelas agressões sofridas ("Eles riram de mim porque gaguejo", por exemplo). Transferir esta responsabilidade e configurá-la como evidência da moralidade (ou falta dela!) da parte de quem as executa é também uma possibilidade para não se deixar humilhar. Atitudes preconceituosas ou de não-aceitação revelam mais sobre a conduta do "agente" das atitudes do que sobre o "paciente".

Para quem desejar ler um pouco mais sobre assédio moral, ou ler a resenha do livro citado acima, ou conhecer um pouco mais da campanha do NEPFF, bem como baixar o power point pode clicar nas palavras em destaque neste parágrafo.

Para melhor visualizar as figuras desta postagem basta clicar sobre elas.


Quem se sentir vítima de assédio moral por conta da gagueira, entre em contato. Tenho um advogado que se disponibiliza a ajudar.

30 janeiro 2008

Novas Soluções, Novos Resultados

Na postagem passada falei sobre a formação de problemas. Diversas situações problemáticas surgem justamente quando algumas soluções encontradas não produzem o efeito desejado. Isto é, a própria solução torna-se o problema. O que antes poderia ser apenas uma dificuldade, na utilização do mesmo remédio, torna-se um verdadeiro problema. Diversos exemplos estão relatados na postagem anterior.

A gagueira também é originada de uma dificuldade. Muitas crianças apresentam disfluências normais (alguns pesquisadores chamam também de disfluência fisiológica) em suas falas, em razão de vivenciarem um período de desenvolvendo desta habilidade. Muitas conseguem sozinhas o amadurecimento necessário ao automatismo da fala. Não vivenciaram gagueira, propriamente dita, mas um período de disfluência, comum a muitas.

Em muitas outras situações, o que se observa é que disfluências normais à fala não são aceitas pelo meio social da criança. Pais, familiares, colegas, professores, amigos não aceitam a fala disfluente, rotulam como gagueira, entendem-na como algo indesejado, a criança termina por ser estigmatizada. De acordo com Friedman (2002), "a não aceitação da forma de falar tem sido vista como um dado real".

Comunicações verbais do tipo "fale direito, fale devagar, acalme-se e/ou pense antes de falar" foram vivenciadas tanto por pais como por pacientes adultos a respeito de sua fala na infância, afirma a pesquisadora. É o que ela nomeia de "Ideologia do Bem Falar", o entendimento popular de só aceitar os momentos fluentes de fala, os disfluentes são alvos de "correção". Porém, todos, inclusive as crianças, sabem falar, mas não sabem como o faz. Logo, de nada ajudará objetivamente, na superação daquela dificuldade, os conselhos ditos acima. Ao contrário, levará a criança a ter a atenção e a consciência* voltadas para a fala, dificultando na espontaneidade e automatização que a fala exige. Além disso, constantemente, a criança dentro desta situação, ela pode vê-se punida (tendo em vista não saber como fazer para superar e atender aos pedidos externos) e sentir-se culpada pela sua forma de falar (FRIEDMAN, 2002). É interessante observar que o meio é tendencioso a cada vez mais (pais e professores mal orientados) aumentar a dose do remédio ou imitar e fazer chacotas (coleguinhas inocentes) diante de repetições, bloqueios, hesitações e prolongamentos, aumentando também a atenção da criança para sua fala negada.

Diante deste cenário, o que era disfluência torna-se gagueira. O que era uma dificuldade, torna-se um problema. É como afirmam
Watzlawick et al (1977), "em certas circunstâncias surgirão problemas meramente em consequência de tentativas errôneas de alterar uma dificuldade existente".

Além das tentativas de solucionar o problema, mencionada pelos outros significativos, diversas outras soluções também serão elaboradas pelo próprio sujeito com gagueira, na intenção de falar bem ou não gaguejar: planejar o discurso, encontrar e substituir palavras difíceis por fáceis, julgar situações/pessoas fáceis ou difíceis para falar, introdução de palavras desnecessárias (é, então...), esforços associados, fechar os olhos ou desviar o olhar, entre outros tantos. Cada pessoa pode apresentar um específico, mas é interessante como as soluções são praticamente as mesmas em diversos países.

É interessante salientar que a literatura está repleta de relatos de pessoas que afirmaram falar fluentemente em diversas situações, as quais não estavam "se lembrando" da gagueira, que eram gagos, que não pensaram nas soluções outrora tentadas. Portanto, esses rituais para tentar falar bem devem ser percebidos como parte da própria gagueira.

Portanto, todas essas soluções citadas acima não possuem alcançaram o que almejavam. São necessárias outras intervenções. É importante perceber que a gagueira não deve ser o alvo a ser eliminado, pois quando esquecemos das soluções, da gagueira, quando não nos sentimos julgados, pressionados para falar bem, não gaguejamos. Uma pequena solução que sugiro, baseado em Friedman (In Lopes, 1997) é irmos de encontro a tudo que nos foi "ensinado":
- Aprendemos que é proibido gaguejar --> Devemos perceber que gaguejar é normal, natural;
- Percebemos que os outros não aceitavam nossa fala --> Devemos perceber até que ponto estamos vítimas dessa ideologia. Entender a gagueira como um momento da fala e da emoção e aceitá-la rompe a necessidade de ter de falar bem e a frustração por não ter conseguido;
- Aprendemos a buscar soluções para falar bem --> Devemos entender essas estratégias como parte da gagueira e que geram sofrimento;
- Aprendemos que nossa fala era gaguejante --> Devemos perceber que em diversas situações nossa fala é fluente;
- Aprendemos que a nossa auto-imagem é de alguém que fala de modo inadequado --> Devemos mudar essa auto-imagem, tendo em vista sermos bons falantes em diversas situações.

É claro que não é fácil modificar rituais para falar bem, tendo em vista eles estarem automatizados ao longo dos anos, mas somos capazes de qualquer coisa. Nosso cérebro é capaz de automatizar uma outra forma de funcionar de falar.

* "Atenção e consciência são os alicerces sobre os quais criamos um entendimento do mundo. Juntos formam a base sobre a qual construímos um sentimento do que somos e como nos definimos em relação à miríade de mundos físicos e sociais que habitamos. Também são as funções básicas que dão origem à 'mente' " (Ratey, 2002).


Os que desejarem a referência completa das obras aqui citadas, favor entrar em contato.

25 janeiro 2008

A Mudança Desejada

"O nosso próprio livre-arbítrio pode ser a mais poderosa força a dirigir o desenvolvimento de nossos cérebros e, portanto, nossas vidas. (...) Experiências, pensamentos, ações e emoções mudam-lhe a estrutura."

Dr. John J. Ratey, 2002 - Em "O Cérebro - um guia para o usuário"



A postagem passada encerrei-a afirmando que a mudança é possível. Por experiência própria acredito muito nela. A postagem de hoje é baseada no conteúdo do livro "Mudança - Princípios de Formação e Resolução de Problemas" de Paul Watzlawick, John Weakland e Richard Fish, pesquisadores do Instituto de Pesquisas Psiquiátricas, de Palo Alto, Califórnia, Estados Unidos. Esta publicação é de 1977 e acredito já não está mais disponível para venda.

O título do capítulo do livro nos dá uma boa noção do seu conteúdo. " 'O MESMO REMÉDIO EM MAIOR DOSE' OU QUANDO A SOLUÇÃO VIRA PROBLEMA". Até já falei um pouco sobre isso em uma das postagens mais recentes. Agora vamos nos aprofundar mais.

Em geral, para promover alguma mudança é preciso o desvio de alguma norma. Isso se aplica também a campos como a Fisiologia, Neurologia, Física e Economia. Se estamos com frio a solução é o agasalho. Mais frio, mais agasalho. "A mudança desejada se obtém em resultado de aplicar o oposto daquilo que produziu o desvio". Porém, nem todo problema pode ser combatido com a oposição deliberada. O alcoolismo, que representa um sério problema social, se for proibido, gerará todo um mecanismo clandestino a fim de suprir tal necessidade. Para problemas desse tipo " 'a solução' contribui enormemente para agravar o problema' ". A proibição não produz a mudança desejada.

"Muitas das dificuldades enfrentadas pelos seres humanos não permanecem imutáveis. A situação pode permanecer estruturalmente semelhante ou idêntica, mas a intensidade da dificuldade e do sofrimento decorrente aumenta, especialmente se se reforçar a solução errônea", afirmam Watzlawick et al.

Os referidos autores também se referem à pornografia. Seria este um mal social? Para muitos, sim! Porém, a liberação na Dinamarca levou muitas pessoas a ridicularizá-la e a ignorá-la. Até mesmo dentro de casa podemos perceber isso quando crianças (pré-adolescentes) são proibidas de ver revistas, filmes adultos. Tal proibição tem um enorme potencial de gerar nos pré-adolescentes uma enorme vontade de rompê-la. Planos serão arquitetados para descobrir o que é proibido. A repressão não somente é o pior dos males, como poderá tornar-se o próprio problema, já que sem a "solução" não haveria problema. Dentro de casa, o diálogo, o acolhimento, a orientação seriam atitudes mais facilitadoras, do que a proibição geral e irrestrita.

O que podemos perceber em diversas situações problemáticas é que "o mesmo remédio em maior dose é a receita para a mudança, e esta solução é o que constitui o problema". Com freqüência ocorre nas famílias a tentativa de gerar determinados sentimentos em seus filhos. Os autores nos mostram que alguns pais ao perceberem que seus filhos estão com alguma tristeza ou irritação no semblante, ordenam que estes dirijam-se aos seus quartos e só retornem quando tiverem um sorriso no rosto. Diante dessa situação, a criança tende a sentir-se culpada por não se sentir como deveria, a fim de tornar-se aceita e boazinha, ou até "sentir ódio estéril em face do que lhe estão fazendo", somando-se à lista dos sentimentos que os pais não gostariam que os filhos tivessem.

Uma outra solução equivocada é a tentativa de forçar-se de algum modo a dormir diante da falta de sono. Este é "um fenômeno que só pode ocorrer espontaneamente. Não pode sobrevir espontaneamente quando desejado". O que era anteriormente somente uma dificuldade, pode tornar-se um problema com possível dependência de drogas e medicações soníferas; "e cada uma dessas providências, em lugar de resolver, só faz intensificar o problema ainda mais".

Diante de um problema já tornado crônico, é muito interessante saber quais as soluções já tentadas para solucioná-lo. Tais soluções, já está mais que comprovado, não são capazes de produzir a mudança desejada, são tentativas errôneas que em certas circunstâncias produzirão problemas maiores.

Na próxima postagem farei a analogia de tudo que disse aqui e a gagueira. Acredito que vocês estejam pensando nas soluções que possuem para não gaguejar. Gostaria que elas fossem relatadas nos comentários. Deixe uma mensagem contando o que faz/fez para deixar de gaguejar. Conto com sua participação. Agradeço.

11 janeiro 2008

Quando a Solução Vira Problema

Os indivíduos com gagueira possuem inúmeras soluções para parar de gaguejar. O que se observa é que estas tornam-se problemas ainda maiores. Inspirações, expirações, prolongamentos de sons e palavras de apoio (Friedman e Passos, 2007*) são alguns artifícios desenvolvidos para contornar, mesmo que momentaneamente, a gagueira. Estas estratégias foram criadas tendo em vista ser considerado "proibido" gaguejar. Acalmar-se, respirar e pensar antes de falar, risos e imitações foram algumas das proibições que os indivíduos com gagueira, quando ainda crianças, ouviram ao ser disfluentes. O outro, para Azevedo e Freire (In Friedman e Passos), é o falante ideal e que ao invés de doar sentido ao que está sendo falado, fiscaliza o dizer. A vivência sistemática dessas relações com alto valor afetivo tende a gerar na pessoa uma imagem estigmatizada de falante (alguém que deseja falar bem, mas não acredita em sua competência para isso).

A proibição para ser disfluente é o motor para que a criança busque soluções na tentativa de ter sua fala aceita e deixar de ser rejeitada, porém a solução encontrada gera cada vez mais gagueira, pois a fala perde espontaneidade, passa a ser controlada. Sai do eixo do sentido, para o da forma (Friedman e Passos).

Proibição para gaguejar

Solução

Mais gagueira

Esta ilustração pode ser comprovada a todo instante. Principalmente quando o indivíduo deseja incondicionalmente a fluência. Porém, em inúmeras outras situações de fala a fluência se faz presente, para a surpresa do falante que não entende como isso foi possível. Vejam um relato, retirado do Grupo Gagueira, de um indivíduo (com privacidade mantida) que atualmente está sofrendo muito com sua gagueira, e que serve de comprovação para a teoria aqui debatida:

"Também ao telefone, fui cancelar um chip da operadora X, e como eu gaguejei, o cara se recusou a cancelar a linha, dizendo que eu não era o titular e que era uma pessoa se passando pelo titular. Não sei da onde saiu tanta fluência, mas na hora eu fiquei p. de raiva e consegui falar: 'Olha Fulano, eu também estou gravando esta ligação e estou anotando que horas são. Eu vou entrar com um pedido na justiça para o senhor pagar a minha mensalidade desse celular, porque você é o único que está me impedindo de cancelar. Eu não quero mais, não vou pagar, então como fica? Você paga? Se você se recusar a cancelar agora, vou entrar com o pedido para a cobrança passar para o seu nome.' "

Perceberam o que ele disse? "Não sei da onde saiu tanta fluência".

Mesmo após já ter gaguejado, em determinado momento a fluência marcou presença. Muito provavelmente, este sujeito, na hora em que foi fluente, esqueceu-se de todas as soluções, por ele já tentadas, para falar bem. Deixou de se preocupar com a forma, para se ater ao sentido do que iria falar. Esqueceu-se de procurar palavras difíceis para substituí-las. Quando isso ocorre, o sujeito não tem dúvidas em relação à sua capacidade para falar; não deseja conscientemente a fluência como algo que deve ser alcançado. Não desejando-a, ela aparece. É o que ocorre com os outros falantes.

Sem ter medo de errar, afirmo que isso ocorre em muitas outras situações e com todas as pessoas com gagueira, o que demonstra claramente que há integridade fonoarticulatória.

Conforme venho falando nas postagens mais recentes, a mudança é possível! Superar a gagueira como um sofrimento para falar, é possível! Continuarei este assunto na próxima postagem.



*FRIEDMAN, S. ; PASSOS, M. C. . O Grupo Terapêutico em Fonoaudiologia: Uma Experiência com Pessoas Adultas.In:Santana, AP; Berberian, AP; Guarinello, AC; Massi, G.(Org.). Abordagens Grupais em Fonoaudiologia. 1 ed. São Paulo: Plexus Editora,2007, v. 1, p.138-163.

07 janeiro 2008

A Formação da Personalidade

Na Revista Superinteressante de Janeiro/2008 (edição 248) foi abordado, como assunto de capa, o tema Personalidade. Por que você é assim? A genética determina o comportamento? Os pais influenciam a personalidade dos filhos? As amizades influenciam também? É possível mudar nosso jeito de ser? Essas foram algumas das perguntas feitas e que foram respondidas.

Eu achei a matéria da capa particularmente interessante e de fácil associação com a gagueira por diversos aspectos, os quais tentarei explicar nesta postagem. É claro que a gagueira não é apenas uma questão comportamental ou de personalidade, apesar de está muito relacionada a esses aspectos. Indivíduos com problemas na fala, conforme dito no periódico, tendem a apresentar traços de timidez.

Acima eu lancei um monte de perguntas, as responderei baseando-me no que foi dito na reportagem e farei algumas relações com a gagueira.

Genética

A genética não define o comportamento humano. Ela "não é um destino, não determina o que você vai ser. Ela oferece predisposições. Todos estão sujeitos a influências ambientais que podem sim, mudar a expressão dos genes e fazer com que eles simplesmente não se manifestem". Apesar de nos Estados Unidos existir a crença quase que absoluta que gagueira tem origem hereditária (logo, transmitida geneticamente), acredito que essa não seja uma questão muito importante no surgimento da gagueira em uma criança. Eu não acredito que a gagueira seja transmitida nessas condições. O ponto de discordância está no conceito do que é gagueira. Para mim, o que pode ocorrer é a tendência para ser disfluente. Já que falar é uma habilidade (motora fina), assim como correr. A gagueira é originada, de acordo com Silvia Friedman, nas relações interpessoais negativas, em relação à fala, do indivíduo com o meio. A vivência sistemática dessas condições levam a criança a perceber que sua fala não é aceita, que é rejeitada pelos outros, levando ao sofrimento. Esse tipo de relação é extremamente comum entre as pessoas com gagueira. Essa é a verdadeira "herança genética da gagueira". Por outro lado, conhecemos diversas pessoas que são disfluentes, mas que não sofrem com isso, ou seja, não são gagas. Muito possivelmente não tiveram suas falas disfluentes colocadas em questão.

Os Pais Influenciam

A influência deles no desenvolvimento da personalidade é imprevisível. Os pais "são os primeiros a conter o que há de animal em nós, nos ensinando a controlar desejos em nome de regras morais, castigos e convenções da civilização". "As noções de pecado e culpa são transmitidas pelos pais e podem ser a causa de vários dos nossos problemas. Do conflito entre os nossos desejos e culpas, sairiam traços de personalidade, recalques inconscientes e fraquezas que nos acompanham vida afora". "As sinapses cerebrais são construídas a partir das relações externas. Sem interação com o outro não há personalidade". Apesar da forte ligação existente entre os pais e as crianças, principalmente nos primeiros anos de vida, não há comprovação estatística a respeito do desenvolvimento da personalidade dos filhos em relação ao modo como foi educado.

Falando-se em gagueira, como as crianças aprendem com os pais as convenções da civilização, quando a criança é criticada, chamada de gaga, corrigida, solicitada para falar mais devagar/com calma, entre outras coisas (ver Guia para pais e educadores), então elas começam a perceber que o seu modo de falar não é o idealizado pela sociedade. Aquela fala com repetições e com prolongamentos não é aceita. Esse valor será percebido pela criança, que começa a fazer o que deveria ser espontâneo, através de tentativas para falar bem, para falar de um modo que seja aceito pelo outro. Já falei nas postagens anterior mais recentes, o que ocorre quando tenta-se algo que deveria ser espontâneo.


As Amizades Influenciam

A influência dos amigos é muito maior do que se imagina. Judith Rich Harris (no livro Diga-me Com Quem Anda...) afirma que as relações da criança com amigos da escola e da vizinhança "são o grande definidor da personalidade adulta". É mais importante do que o convívio com os pais. "A identificação com um grupo, e a aceitação ou rejeição por parte do grupo, é que deixam marcas permanentes na personalidade", afirma Judith Harris.

Em relação à gagueira, acredito que este seja um grande tema para ser estudado. Qual a maior influência no surgimento e manutenção da gagueira, a dos pais ou dos amigos? O grau de "responsabilidade" que cada um desses possui ainda não se sabe. Sabe-se que influenciam! Para uma criança em idade escolar, é muito difícil e aterrador conviver com risos e chacotas oriundos de seus pares. Ser rejeitado deixará marcas permanentes na memória dessa criança. A sua imagem estará relacionada a alguém "que não fala direito", "gago", "que deseja fala bem para ser aceito socialmente". Segundo Friedman (no livro Gagueira: origem e tratamento), as experiências interpessoais que veiculam uma "ideologia do bem falar" podem colocar a fala dentro de um padrão subjetivo paradoxal, onde o indivíduo vê-se como um mau falante e tenta falar bem. "O falar fica associado à expectativas e emoções negativas, que por sua vez determinam alterações, isto é tensões, na produção articulatória", afirma Friedman. As risadas, entendidas como elementos de rejeição, estarão sempre no subconsciente do indivíduo mesmo já adulto.

É Possível Mudar

Sim, é possível! A nossa personalidade está a todo tempo em mudança. "Agimos de modos diferentes com pessoas de idade, sexo ou posição social diferentes". Podemos ser amigáveis e inteligentes com quem nos deixa a vontade, mas podemos ser o oposto com quem nos desafia. "A nossa personalidade depende do que os outros acham: você pode ser chato para uma pessoa, mas gente boa ou confiável para quem o conhece melhor". "É claro que há comportamentos e atitudes que são muito difíceis de largar. Somente 10% das pessoas com pontes de safena mudam hábitos alimentares e deixam o sedentarismo. As outras acabam morrendo de ataque cardíaco." Não existem pesquisas científicas afirmando que o ser humano não tem jeito. "De ter consciência de si próprio, um traço bem arraigado à personalidade, atribuir a ele uma causa, vencer derrotismos e apegos, vão anos, se não uma vida toda. Mas talvez o caminho de nos conhecer, mudar o que for possível e nos contentar com o que somos seja o grande desafio da vida."

Em relação à gagueira a mudança também é possível. Assim como temos personalidades diferentes para pessoas diferentes, muitas vezes, o sujeito com gagueira determina com/em quais pessoas/situações pode "falar bem". Muitos afirmam que com pessoas conhecidas a gagueira piora, para outros tantos piora com pessoas desconhecidas. Para uns falar em público é moleza, para outros é terrível. O que se percebe é que quanto mais a auto-imagem está em jogo, quanto mais a necessidade de falar bem está em questão e ao mesmo tempo há dúvidas na competência para falar do modo desejado, mais a gagueira está presente. O trabalho de mudança consiste, segundo Friedman (no livro já citado), na desmistificação da auto-imagem e da capacidade articulatória efetiva do sujeito. Ele é capaz de falar em diversas situações com fluência, o que comprova a sua integridade fonoarticulatória. O sujeito deve perceber a existência desses momentos fluentes; que a maior parte da fala é fluente; que sua consciência se ocupa apenas com a gagueira e que os comportamentos que usa para não gaguejar, além de manter a gagueira, são truques que também podem revelar sua capacidade articulatória íntegra (por exemplo: substituir palavras. Apesar de ser um truque, demonstra que a capacidade de articular as palavras está perfeita). Ele deve
"perceber que a gagueira não é a negação da fluência, mas se sobrepõe a ela e coexiste com ela. A fluência não é uma meta a ser alcançada, porque já existe, a meta é aprender a lidar com a gagueira, com a imagem de mau falante." (FRIEDMAN, 2004 - livro já citado acima).

30 dezembro 2007

Buscar o Inacessível, Torna Impossível o Realizável

É muito engraçado como a gente não se reconhece falando "fluentemente". Por que será que isso ocorre? Temos o constante desejo de falarmos bem, quando conseguimos não acreditamos. É algo meio paradoxal em sua essência. Essa questão tem uma outra por trás que nós devemos pensar também. Não devemos desejar a fluência, pois quanto mais a desejamos, menos a conseguimos. Quando desejamos algo, temos que tentar para alcançá-lo. Quando esse algo é espontâneo/natural temos um resultado oposto ao desejado.

Tomando como base Watzlawick, imaginemos uma pessoa atacada de insônia. Esta coloca-se tipicamente num paradoxo de tentar provocar um fenômeno natural e espontâneo que é o sono, mediante tentativas e força de vontade e permanece acordada. Algo semelhante ocorre também com a excitação sexual e orgasmos. "São fenômenos naturais; quanto mais forem desejados, tanto menos provável será ocorrerem". "A própria 'solução' pode constituir o problema".

Na gagueira é mais ou menos assim também. O que mais o sujeito com gagueira deseja é falar fluentemente. Esse desejo é objetivado no planejamento da fala, na troca de "palavras difíceis" por "palavras fáceis", por exemplo. A partir daí o sujeito tentará o que deve ser espontâneo. Além de ser contraditório, a pessoa no íntimo não acredita ser capaz de alcançar o que mais deseja.

A fluência é o fenômeno natural, quanto mais for desejada, tanto menos provável será ocorrer. A solução que encontramos para "resolver" a gagueira, constitui-se no maior problema. Sanderson escreveu em seu blog, que para o sujeito com gagueira falar ocorre mais ou menos o seguinte:

"Pensamento => desejo de falar => aproximação => não confiança na capacidade de falar => controlar a fala <=> tentar controlar o espontâneo <=> medo de falar <=> antecipar <=> esconder a gagueira <=> vergonha de gaguejar <=> auto-pressão para falar dependendo da situação segundo a subjetividade e história social <=> tentativa de fuga, i.e. de calar <=> evitação <=> ansiedade <=> nervosismo <=> sofrimento (angústia, frustração, amargura, culpa, sentimento de inferioridade, baixa auto-estima, constrangimento, embaraço) <=> tensão => bloqueio de cordas vocais => esforço para falar => movimentos corporais na tentativa de falar => gagueira."

Esse modo de falar é a solução encontrada para, muitas vezes, não gaguejar. Como dito anteriormente, essa solução encontrada constitui-se no maior problema. É interessante notarmos que quando esse modo não é construído, a fala flui naturalmente. Cada pessoa é capaz de destacar momentos e situações em que falou bem.

Tudo isso que falei se comprova com depoimentos que tenho lido por aqui e no Grupo Gagueira. É muito comum lermos que "quando mais eu preciso da minha fala, é aí que ela falha". Por enquanto, em diversas outras situações onde nos "desligamos" e não exigimos a fluência, somos fluentes.

Amigos, que em 2008 cada um possa encontrar a verdadeira solução para a gagueira. Feliz Ano Novo!

"Enquanto buscamos o inacessível, tornamos impossível o realizável"
Robert Ardrey