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09 julho 2007

A Manifestação da Gagueira (parte VI)

"6 - A lógica paradoxal que determina a produção da gagueira e nos permite entender que ela é um problema de identidade dos sujeitos, permite-nos entender, também, que ela possa desaparecer, dando lugar à fluência, sempre que as situações contenham elementos em função dos quais essa lógica não seja ativada. Isso funciona a partir das características dos sistema de valores do sujeito em relação a si, aos outros e às situações que vivencia no mundo. A ausência do outro não ativa a lógica. Geralmente ela também não se ativa quando o sujeito representa personagens; quando dubla a fala; quando conversa com pessoas que considera hierarquicamente inferiores ou que considera mais ignorantes. Já a conversa com pessoas consideradas amigas, por exemplo, pode ativar a lógica para uns e não para outros, em função da pessoa empenhar-se em lutar para esconder a gagueira que prevê. O que está em jogo, nessas circunstâncias, é o valor que o sujeito atribui à imagem de si em reciprocidade ao valor que atribui aos outros e às situações. Nessa atribuição de valores pesam, a favor da fluência, o deslocamento da imagem de si para algum personagem (caso da dublagem, da representação de personagens) e a diminuição do sentimento de cobrança e responsabilidade pelo ato de fala (ausência do outro, conversa com pessoas amigas e com pessoas consideradas mais ignorantes), o que nos recoloca diante da visão da gagueira com problema de identidade."

Enfim, chegamos a sexto tópico. Neste, Friedman deixa bem claro que há cura para gagueira. É possível dar lugar à fluência! Como exemplos, são dados a dublagem, a representação de personagens, a conversa com pessoas "inferiores" entre outros exemplos. Nestes casos e em outros, o lugar à fluência varia de pessoa para pessoa, vai muito do que o sujeito pensa de si, dos outros e da situação (reciprocidade de valor). Cada sujeito tem suas crenças e regras individuais das situações e dos outros com os quais "podem" e "não podem" gaguejar. Recentemente, li no "Grupo Discutindo Gagueira" (endereço nos vínculos, ao lado direito), que um sujeito tem sua gagueira piorada sempre no mês de agosto! O que não é isto além de uma crença pessoal? Sempre que agosto chega, ele deve se encher de pensamentos negativos, a duvidar de si como falante, a antecipar situações comunicativas, passa a se cobrar mais para falar bem, está formada a identidade de "mau falante". Chegou setembro, creio, de acordo com suas palavras, que ele deva relaxar mais e "permitir" que a fluência esteja mais presente. Acredito que se olharmos para dentro de nós, perceberemos diversas situações que acreditamos que gaguejaremos e outras que falaremos bem. Gostaria que os comentários também tivessem este conteúdo. Claro que outros comentários são bem-vindos.

Toda esta lógica de pensamento pode ser quebrada. Sei que não é fácil. Se fosse, a gagueira não seria um assunto de fácil discussão e de difícil consenso. é preciso desfazer os atuais rituais de fala, porém eles estão automatizados pelo uso. Friedman, no Tratado da Fonoaudiologia (1997), afirma que "para que se possa chegar a desfazê-los é fundamental que o paciente tenha chegado a algum patamar de aceitação da gagueira, sendo capaz de compreendê-la não como um problema de fala, mas como produto de seu comportamento de prevê-la."

A terapia fonoaudiológica especializada pode (e tem que) ajudar. A literatura está repleta de casos bem sucedidos, de pessoas que se superaram e superaram a gagueira como um sofrimento, com este tipo de tratamento. Neste saite vocês também poderão ler diversos depoimentos que comprovam a eficiência desta teoria.

06 julho 2007

A Manifestação da Gagueira (parte V)

"5 - A lógica paradoxal que move a gagueira, por tudo quanto dela foi dito até aqui, permite-nos entender porque quanto mais uma pessoa tenta falar bem, mais ela gagueja e porque isso é algo ligado à presença dos outros. A dialética entre subjetividade e a objetividade que caracteriza o comportamento de gaguejar, ou seja, os conteúdos latentes e o que eles provocam quando em mútua determinação com a atividade de falar, revelam que a gagueira não é um problema da fala, mas um problema da identidade do sujeito que luta para não produzir um padrão de fala que prevê, ou seja, luta para não se mostrar com uma imagem estigmatizada de falante."



Este tópico, em minha opinião, é muito importante. Ele define a gagueira de maneira muito pertinente. "Gagueira é um problema da identidade do sujeito que luta para não produzir um padrão de fala que prevê". Acredito verdadeiramente que gagueira seja um problema de identidade. Já ouvi de muitos colegas que, quando sozinhos, são os melhores oradores. Esta afirmação contesta, muito bem, a relação gagueira x questões orgânicas. Caso contrário, não teria oratória perfeita, independentemente a qualquer fator o indivíduo gaguejaria. Porém, a gagueira está muito ligada à presença do outro e à subjetividade de cada indivíduo com gagueira (suas crenças, valores, posturas, pensamentos...). Estas questões latentes (implícitas), terminam por aflorarem na objetividade (nervosismo, repetição, hesitações, prolongamentos, movimentos associados...). Porém, o problema não está na fala. A fala gaguejada seria a consequência dos pensamentos (movimentos da consciência) que interferem na manifestação do espontâneo. O indivíduo prevê o gaguejar e não quer que isto acontença, acredita que não será aceito, imagina que os outros debocharão, faz uso de truques para tentar falar bem (troca palavras, utiliza-se de palavras desnecessárias...) e revelam o que não pretendiam, mas que acreditavam, e terminam por identificar-se como alguém que não fala bem, como um "mau falante". Porém, quando estão sozinhos este círculo vicioso não é criado, bem como em diversas situações (cada indivíduo tem as suas, por exemplo quando falam com animais, com crianças...) a fluência se instala e a identidade de "bom falante" marca presença.

04 julho 2007

A Manifestação da Gagueira (parte IV)

"4 - A lógica paradoxal, essência da gagueira na qual se observa tensão, materializa-se na tentativa de falar bem (tentar o espontâneo). Esse modo de produção da fala desestrutura-a, porque o sujeito acredita saber de antemão o que irá acontecer com sua articulação e acredita em algo que não quer que aconteça. Assim, o movimento espontâneo de elevação do diafragma para produzir a voz é acompanhado de um movimento de fechamento das cordas vocais, que segura a produção automática dos movimentos da fala para poder prevenir o suposto gaguejar. Frequentemente é esse o comportamento motor que promove a ruptura do fluxo da fala. A ele vão-se somando toda uma série de outros comportamentos motivados pela tentativa de evitar a fala que ficou presa ou de desencadeá-la, sendo que tudo isso é feito para falar bem. Esses comportamentos, de modo geral, incluem a substituição rápida das palavras em que a gagueira é prevista por outras de significado semelhante, por modos diferentes de expressar o mesmo conteúdo ou até mesmo por mudanças no conteúdo da fala. Incluem também a repetição das palavras do discurso que antecedem a palavra em que a gagueira foi prevista; a inclusão de inspirações, expirações, sons ou palavras desnecessárias antes das palavras em que a gagueira é prevista; o uso de movimentos de outras partes do corpo, tudo isso como meio de se ajudar a produzir as palavras em que a gagueira é prevista."

Este quarto tópico, que esclarece muito bem como a gagueira do desenvolvimento se manifesta, nos traz uma sorte de comportamentos que as pessoas com gagueira executam sempre na tentativa de falar bem, de não gaguejar, mas isso já é uma manifestação da gagueira, para o sujeito já é a gagueira dele. Algumas pessoas conseguem disfarça tão bem que não apresentam qualquer disfluência articulatória em sua fala, mas os truques, as crenças, as substituições de palavras (entre outros ditos acima) estão presentes em seus discursos e só elas sabem disso. Os outros não as vêem como pessoas com gagueira, mas elas apresentam a "lógica paradoxal" e possuem a "imagem de mau falante". Em virtude disso, de acordo com a literatura, muitos procuram a fonoaudiologia pois estes comportamentos são capazes de gerar grandes preocupações nestas pessoas, que ficam presas à movimentação de suas consciências. Isso comprova que a essência da gagueira é realmente a "lógica paradoxal".

Neste quarto tópico outra coisa me chama a atenção. Foi dito que "o sujeito acredita saber de antemão o que irá acontecer com sua articulação e acredita em algo que não quer que aconteça". A fala é espontânea porque, de modo geral, não sabemos como ela se produz. O indivíduo com gagueira não é exceção. Além disso, tem o agravante que é a forma com a fala se produz. Algo que não faz parte da fala é saber de antecipadamente onde ocorrerá alguma quebra de fluência. Nenhum "falante normal" tem essa previsão, mas as pessoas com gagueira prevêem esta quebra. Sabem que não conseguirão falar bem, apesar de assim não desejarem. Porém, em inúmeras situações esse pensamento não se faz presente e a fluência se instala, surpreendendo o falante, que não sabe como isso aconteceu!

No tópico 6, falaremos mais sobre a instalação da fluência.

02 julho 2007

A Manifestação da Gagueira (parte III)

"3 - Do ponto de vista fenomênico podemos ver que a gagueira é tensão. Essa tensão, porém, não é sua essência, mas seu produto. Sua essência está no padrão do movimento da consciência do sujeito, determinado por conteúdos latentes, como os da "ideologia do bem falar" e do "falante estigmatizado", que mobilizam uma lógica paradoxal articulada à produção da fala. As condições subjetivas funcionam em relação dialética com as condições objetivas de produção da tensão muscular na atividade articulatória. As condições subjetivas, por sua vez, são determinadas por um modelo idealizado de falante que se descola das relações sociais."

Neste terceiro aspecto da manifestação da gagueira, Friedman fala um pouco sobre a tensão gerada nos sujeitos com gagueira. Ela afirma que apesar da tensão ser algo muito visível em indivíduos com gagueira, ela não é a essência deste distúrbio. A tensão é determinada pelo pensamento paradoxal do indivíduo. Eu diria, também, que todas as emoções negativas (nervosimo, ansiedade, medo...) são, essencialmente, consequências. Porém, com a tentativa de falar, causa e consequência se misturam. O padrão comportamentamental de ficar nervoso, por exemplo, foi determinado por inúmeras outras tentativas frustradas de comunicação vividas no passado. Além disso, para que se fique nervoso, com medo é preciso que exista algo com que se fique nervoso, com medo.
O pensamento paradoxal, como já dito na postagem anterior, é tudo que o sujeito faz com a intenção de falar bem, de falar sem gaguejar, de tentar o espontâneo. Porém, é justamente esse "tudo" que o faz gaguejar. Por isso que Sílvia chama de "lógica paradoxal". A intenção é uma, mas o fruto é outro. Ocorre o imprevisto.
Para eliminar a tensão, é preciso quebrar esta lógica. Não existe uma receita de bolo para isso, mas um bom começo é aceitar-se como falante. Aceitar a fala gaguejada. Deixar-se falar do modo que for, sem tentativas, sem antecipações nem planejamentos do que vai ser falado (de como vai sair), sem sofrimentos, sem sentimentos negativos em relação à fala. Desta forma a lógica paradoxal é quebrada.

O que será da gagueira sem a "lógica paradoxal"?

29 junho 2007

A Manifestação da Gagueira (parte II)

(continuação)

"2 - O estudo da gagueira permite-nos ver que existem relações de mútua determinação entre a manifestação motora (atividade articulatória), os conteúdos psíquicos (movimento cognitivo e afetivo da consciência no qual está contido também o território inconsciente ou latente) e as relações sociais (relações de comunicação perpassadas pela “ideologia do bem falar”). À luz da compreensão das características dessas relações de reciprocidade e múltipla determinação, podemos compreender um pouco melhor a natureza e o desenvolvimento da manifestação da gagueira na qual existe tensão muscular. Nas características dessas relações, ainda, encontraremos os elementos e caminhos norteadores para a sua superação."


Manifestação motora, conteúdos psíquicos e relações sociais, segundo Sílvia Friedman determinam-se mutuamente. Não há como separar esses três aspectos ao se estudar a manifestação da gagueira que apresenta tensão muscular. A manifestação motora é o aspecto visível, é a aparência externa da gagueira do ponto de vista articulatório (repetições, prolongamentos, hestitações, bloqueios, movimentos corporais associados, entre outros). Por não aceitar o padrão articulatório, vivido de forma significativa ao longo do tempo, o sujeito desenvolve, em sua cognição/consciência uma "imagem de mau falante" (que prever o gaguejar e tenta evitar; sabe que irá gaguejar, mas não quer gaguejar; tenta falar bem, enquanto acredita que não o fará. FRIEDMAN, 2002). Esta imagem está intimamente ligada à "ideologia de bem falar". Termo criado por Friedman para representar a regra imposta nas relações sociais, onde todos devem falar perfeitamente bem, não sendo aceitável o padrão articulatório do indivíduo com gagueira, por exemplo. Esta não aceitação pode ser tanto da sociedade quanto do próprio sujeito. O fato de não aceitar o padrão articulatório, leva o indivíduo a tentar o espontâneo (a fala), gerando mais tensão nesta articulação, afastando-a do padrão idealizado. O que reativa a não aceitação e o indivíuo fica sem ter como sair deste círculo vicioso, pois como bem afirma Sílvia "é movido por um desejo impossível de ser alcançado dentro do movimento de consciência que determina sua atividade de fala".


(continua)

27 junho 2007

A Manifestação da Gagueira

A postagem "A Manifestação da Gagueira" será dividida em seis partes. Nela, será explicado, de acordo com a teoria de Sílvia Friedman, como a gagueira se manifesta. Após a explanação teórica da referida autora/fonoaudióloga (textos entre aspas), darei o meu ponto de vista, tentando explicar um pouco mais o que está sendo dito por Friedman. Não estou dizendo que o que ela diz precise ser "traduzido". Creio que seja algo muito interessante de ser lido, pois ajuda a conhecer a gagueira.


Os textos foram retirados de um capítulo do livro "Fonoaudiologia: recriando seus sentidos", organizado por Maria Consuêlo Passos, quem desejar adquiri-lo, basta clicar no título ou na imagem ao lado e realizar a compra, da qual este blog não tem qualquer relação capital.

Para alguma citação bibliográfica, favor buscar as referências corretas.


"1 - Pelo estudo da relação da gagueira com o movimento da consciência, a gagueira é uma manifestação que encerra características bastante peculiares do ponto de vista da subjetividade que a acompanha para que possa ser pensada, simplesmente, como um que era um fenômeno praticamente sem tensão, na infância e que evolui linearmente para quantidades crescentes de tensão, por condições que estariam circunscritas apenas ao organismo do indivíduo que a manifesta;"

Para Friedman, gagueira é muito mais do que tensão. Gagueira envolve identidade, consciência, subjetividade. A movimentação da consciência diz respeito à maneira paradoxal com que os sujeitos que se consideram gagos vivem suas falas. Os discursos dos sujeitos estudados pela auutor evidenciaram um padrão nesta movimentação. "Truques e inúmeros esforços para não gaguejar ou para falar bem, sentimentos negativos em relação ao ato de fala e antecipação do ato de gaguejar" foram encontrados em todos os sujeitos da pesquisa, bem como nos mais de quinze/vinte anos de clínica da referida fonoaudióloga. A partir disso, ela concluiu que os "indivíduos prevêem o gaguejar, tentam de tudo para evitá-lo, sabem que irão gaguejar, tentam falar bem, enquanto acreditam que não o farão." Esta lógica paradoxal, de tentar falar bem e não acreditar nesta capacidade, é onde a gagueira localiza-se. É onde ela se perpetua. É o que gera toda a tensão e quebra o espontâneo da fala. Algo que é espontâneo não pode ser tentado, visto que rompe-se a espontaneidade. Ninguém (com exceção dos bebês), tenta andar. Mas, se for pedido que você ande em cima de uma linha tênue, você terá muitas dificuldades.
Quando na infância, a criança gaguejava praticamente sem tensão. No entanto, com as intervenções negativas dos adultos, as crianças passaram a perceber que havia algo de errado com suas falas, com isso passaram a se preocupar com a falar, a tentar falar do modo idealizado pelos adultos e a se identificarem com alguém que "não consegue falar bem". Alguém que tem que "pensar antes de falar", que tem que "falar mais devagar", que tem que "ficar calmo", que "respirar antes de falar", entre outras intervenções que os indivíduos com gagueira ouvem em sua infância. A criança teve sua identidade formada e a lógica paradoxal tornou-se presente. O tratamento fonoaudiológico deve ser voltado para quebrar esta consciência. Os resultados são altamente satisfatórios.

(continua)

19 outubro 2006

Sobre a Gagueira

Aqui em São Paulo, ganhei de presente, da amiga Eleide (Secretária da ABRA GAGUEIRA), o livro "Sobre a Gagueira" de Anelise Junqueira Bohnen (Fonoaudióloga que está no Fórum Online). É um livro de bolso muito interessante, bem baratinho, como diversas curiosidades e informação sobre a gagueira.

Para início de conversa ela levanta o assunto: "gago ou pessoa que gagueja?" Ela toma partido pela expressão pessoa que gagueja (variações e suas respectivas siglas, como por exemplo, adulto que gagueja - AQG, criança que gagueja - CQG, entre outras)
Para Anelise, ao se rotular uma pessoa, "corremos o risco de ser injustos e reducionistas". Além disso, ao "chamar uma pessoa de gago(a) significa que só se vê nela a sua dificuldade de comunicação e ignoram-se todas as suas qualidades, capacidades e habilidades".
Por outro lado, continua a autora, "quando se usa a palavra pessoa na posição inicial da expressão, enfatiza-se que é a pessoa que vem em primeiro lugar." Ser uma pessoa que gagueja permite ao indivíduo "fazer muitas coisas, além de, em alguns casos, gaguejar."

Indico o livro para todos os leitores deste blog. Não esperem a salvação para todos os males. O livro e qualquer outro estão longe disso. É apenas mais uma ferramenta para esclarecimentos e orientações tanto para a população em geral, como para as pessoas que gaguejam.

À medida que eu for lendo e considerando algo interessante para ser postado, colocarei aqui. Mas eu preciso saber se é isso mesmo que vocês querem. Comentem abaixo.

Compre-o para podermos debatê-lo com mais propriedade. De ante-mão, boa leitura!

12 setembro 2005

Crer para ver!

É bastante comum, vivenciarmos a situação a seguir ou ouvirmos e/ou lermos relatos de gagos que viajam para um lugar desconhecido e experimentam nesse lugar situações de plena fluência. A esse respeito Silvia Friedman, em A Construção do Personagem Bom Falante, fala algo que considero muito importante:

"A ausência de gagueira num lugar novo e entre pessoas desconhecidas permite-nos ressaltar também a importância da história de vida das situações habituais para a ativação da forma habitaul de produção de si. Permite-nos lembrar ainda que Van Riper (1971) já sugeria a seus pacientes modificações aparentemente inócuas e periféricas à gagueira, como ir a lugares novos, usar roupas diferentes, etc., para que eles se vissem de uma maneira diferente; achava que assim ajudava-os a reconfigurar a imagem de falante ou, usando a linguam dele, a reconfigura a motricidade."

Experimentarmos situações desse tipo, nos comprovam que temos potencial e plenas condições para superar a gagueira. Parece que quando estamos no lugar desconhecido estamos vivendo um sonho e ao voltarmos para a nossa cidade, voltamos para a realidade. Isso é bem verdade porque em nosso local moram também todos os nossos pensamentos e emoções. Mas se somos gagos, não era para sermos da mesma forma em todos os cantos?! Vale outra reflexão: o que pensamos e como nos vimos no outro local, foi o mesmo que fazemos no lugar habitual?

O fato é que nos identificamos como gagos e muitas vezes não conseguimos modificar essa nossa identidade. Imaginamos a identidade como algo estático, permanente e eterno. É bem verdade que a não transformação é possível, afima Silvia. "O sujeito como ator de si mesmo, está impedido de se transformar e é forçado a reproduzir a mesmice de si. Este é o caso da gagueira sofrimento, para a qual descrevemos o ciclo vicioso entre o movimento dos conteúdos da consciência, a atividade de fala do indivíduo e a dinâmica social, caracterizando o modo de produção do personagem gago", acrescenta a autora.

Porém, Silvia Friedman, no livro acima, acredita que o gago pode ser curado a partir de uma série de mudanças comportamentais e de consciência. Eu também estou acreditando em tal teoria. Creio que só mudaremos a nossa condição, depois de modificarmos o modo como vemos os outros, o mundo, a nossa fala e a nós mesmos. Para isso, é necessário muita dedicação e acreditar. Ao contrário do ditado de São Tomé que precisa ver para crer, nós devemos crer primeiro para que depois possamos ver a transformação.

08 setembro 2005

O Monociclo e a Gagueira

A fluência não deve ser nosso objetivo final, pois se o for, fracassaremos, mais cedo ou mais tarde. Para alcançarmos a "fluência" devemos nos preocupar muito mais com o meio-pelos-quais, do que com o fim. Quem se preocupa com o fim (com a fluência), dificilmente chegará lá. As nossas posturas, nossas crenças, nossos pensamentos, nossos comportamentos é que devem ser trabalhados e modificados. "Consertando-se" isso, o objetivo final pode ser alcançado mais facilmente, ou pelo menos a gagueira deixará de ser um sofrimento.

O indivíduo que está aprendendo a andar de monociclo, em virtude do medo decair que o domina, instintivamente estica a cabeça para trás, o que perturba o equilíbrio e provoca uma queda inevitável. Para andar de monociclo é preciso perder o medo de cair, posicionar a cabeça para frente e pra cima e forçar as nádegas para baixo. Agindo-se dessa forma, voltando-se para os meios-pelos-quais pedalar o monociclo, consegue-se pedalá-lo por longos trechos. Caso o pensamento do indivíduo estivesse focado em pedalar o veículo, fatalmente nunca conseguiria.

A partir deste exemplo, é possível traçar um paralelo com a gagueira. O medo de cair e colocar a cabeça esticada para trás faz o indivíduo cair. Ter medo de falar com pessoas, imaginar que vai gaguejar, ficar nervoso por antecipar a situação, tensionar os músculos, criar truques para tentar falar faz a pessoa gaguejar. É preciso não ter medo para falar, não ficar nervoso, não tensionar os músculos na intenção de não gaguejar, não criar truques para tentar falar. Muitas dessas coisas o gago, por ter passado por situações vexatórias, cria para tentar falar melhor e defender-se de futuros risos e contratempos. Só que isso é meio paradoxal, porque em muito a disfluência é proveniente desses atalhos labirínticos. O ato de falar deve ser o máximo espontâneo. É assim com nossos amigos, familiares, namoradas(os), vizinhos, enfim, com todos os "outros". Devemos nos preocupar com os meios-pelos-quais, com os sintomas da nossa gagueira e não com o fim, e não com a fluência.

Obviamente eu não sei andar de monociclo. Li toda aquela teoria sobre ele no livro que já mencionei aqui (O Aprendizado do Corpo - introdução à técnica de Alexander) e fiz a minha analogia. Será que faz sentido? Vocês têm as suas opiniões. Depositem-nas!

02 setembro 2005

A Construção do Personagem Bom Falante









Amigos, recentemente comprei este livro da Fonoaudióloga Silvia Friedman. Dentre em breve abordarei algumas coisas por aqui.