29 setembro 2015

Dia Internacional de Atenção à Gagueira - 2015


03 junho 2015

A Clínica da Gagueira

Segue abaixo texto que escrevi para o site Linguagem e Subjetividade, da linha de pesquisa de mesmo nome, vinculada ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Fonoaudiologia da PUC-SP.

A Clínica da Gagueira


O objetivo desse texto é propor uma reflexão sobre a clínica fonoaudiológica, em específico, sobre a clínica da gagueira. Entende-se por clínica uma estrutura composta por quatro elementos homogêneos e covariantes – semiologia, etiologia, diagnóstica e terapêutica .(Freire, 2011)

Observa-se que a Fonoaudiologia, em um primeiro momento e em sua articulação com a medicina, olha para a gagueira como resultado de uma dificuldade ou incapacidade dos sistemas neurais em manter a fala fluente (Arcuri et al., 2009) ou seja, sob o ponto de vista orgânico. (Damasceno e Friedman, 2011). O diagnóstico proposto por esta clínica sustenta-se na gravação da fala que é comprada a uma amostra com o perfil dos tipos de disfluência, velocidade de fala, frequência de rupturas, entre outros aspectos audíveis/visíveis (Andrade, 2000) que sustentam padrões de patogenia ou normalidade. A terapêutica visa treinar o paciente a monitorar sua fala, a fim de modelá-la a um padrão considerado normal.

Observa-se que esse entendimento não constitui verdadeiramente uma clínica, pois os elementos que deveriam constituí-la – semiologia, etiologia, diagnóstica e terapêutica - não são interdependentes. Por exemplo, a terapêutica, na impossibilidade de intervir nos supostos fatores etiológicos, é composta de técnicas prescritivas.

Em um segundo momento, a Fonoaudiologia toma a gagueira como um sintoma de linguagem e mantém a coesão e covariância entre os quatro elementos que fundam a clínica. Para isso, o entendimento sobre gagueira centra-se no sujeito falante e na compreensão dos efeitos da interpretação do outro, que concorrem para moldar a subjetividade do falante (Friedman, 2010; Freire e Pascalicchio Passos, 2012).

Freire e Pascalicchio Passos (2012) supõem que a gagueira emerge na terceira posição do processo de aquisição de linguagem, quando se observa na fala das crianças a presença de pausas, reformulações e autocorreções. Nesta posição, o discurso da criança, por seus efeitos de semelhança, pode ser interpretado pelo adulto como gaguejante. Diante da negação de sentido, a criança depara-se com a falta de assemelhamento e pode ocupar a posição de sujeito gago. Por não continuar o diálogo, mas ressaltar a forma do discurso, o outro passa a ser visto como aquele que fiscaliza o dizer.

Nessa mesma direção, Friedman (2007) explicou a constituição da gagueira a partir de uma ideologia de bem falar que rejeita e estigmatiza a fala disfluente da criança. Nessa condição, explica, a criança fica numa situação paradoxal, na qual nem pode falar como falava, nem sabe como falar de outro modo, o que gera tensões em sua fala. O efeito disso na subjetividade, segundo Friedman (2007), é a antecipação, na fala, dos lugares em que a gagueira ocorrerá, na tentativa de contê-la. Desse modo, a autora indica que na gagueira, o falante prioriza a forma de sua fala em detrimento do sentido.

A esse respeito, Azevedo e Freire (2001) explicam que "na ordem discursiva há uma tensão natural entre língua (forma) e fala (sentido). Essa tensão é estruturante e determina todo o dizer, de tal modo que a linguagem é a articulação de língua e fala". Na posição fluente, dizem as autoras, há um privilégio do sentido (fala) em detrimento da forma (língua), já na posição gaguejante a tensão natural dá lugar a uma desarmonia, porque a atenção discursiva passa a estar na forma, o que se expressa pela certeza que o falante gago mostra de não conseguir falar sem gaguejar em certas palavras, certos fonemas, com certas pessoas. O privilégio da forma em detrimento do sentido, completam as autoras, leva o falante à perda da posição fluente.

Esse tipo de visão permite uma abordagem terapêutica que mantém homogeneidade e covariância entre os elementos da clínica, visto que, a partir das histórias e relatos do paciente, é possível conhecer os sentidos cristalizados sobre si, sobre a própria fala e sobre o outro e, a partir de diálogos e vivências de sensibilização da fala (Oliveira e Friedman, 2006), promover a desestabilização de tais significados, bem como a abertura de novos sentidos, de modo a proporcionar ao paciente a vivência de experiências novas e singulares que lhe permitam sair da posição de falante estigmatizado, para ocupar uma posição em que confia em sua possibilidade de falar e que mantém a tensão natural entre fala e língua.

Portanto, acredita-se que o desconhecimento sobre o funcionamento subjetivo-discursivo gaguejante faça com que parte da Fonoaudiologia restrinja o fazer terapêutico a estratégias que visam controlar o discurso do paciente e, consequentemente, mantenha a desarmonia entre fala e língua. Talvez seja esse um dos motivos para o falado insucesso terapêutico na clínica da gagueira.


31 maio 2015

Desarmonia no discurso da pessoa que gagueja - Parte IV


A abordagem subjetivo-discursiva parte do discurso do sujeito, daquilo que ele diz sobre sua gagueira para poder dar a ela um novo sentido, uma nova interpretação, possibilitando ao sujeito que se desloque da posição de "falante gago", para a posição de "falante comum".

Então, vejamos o que diz um "falante gago":

1 - “Quando vou falar, já vem aquela palavra que não vou conseguir...e não consigo mesmo”
2 - “Digo outra palavra. Substituo uma palavra por outra. A contra-gosto, porque queria dizer aquela”
(Frases do "Entrevistado 1", da minha pesquisa do mestrado. O descritivo e o acesso à dissertação pode ser visto aqui. O artigo derivado da dissertação, aqui).

As duas frases acima são muito comuns de serem observadas no discurso de quem gagueja. Na terapia que segue a abordagem subjetivo-discursiva, tais declarações não ficam no ar, pelo contrário, ganham valor e são postas em discussão com a intenção de serem ressignificadas. Então, vejamos algumas considerações que alimentam essa reflexão:

Frase 1: Os falantes comuns, de um modo geral, não têm a crença de que não conseguirão falar determinadas palavras. As hesitações, repetições e travas não são previstas. Em algumas situações, pode ser que o falante acredite que determinada palavra seja difícil de ser dita, não por ter dúvida da sua capacidade articulatória, mas que a palavra não lhe é familiar e, portanto, exige maior atenção de sua parte. Já os falantes gagos antecipam a dificuldade (antecipam a gagueira) e duvidam de sua capacidade articulatória. Logo, diante de frases com esse sentido, dentro do processo terapêutico, algumas possíveis questões a serem abordadas para abrir a possibilidade de deslocamento, são: como é possível ter a certeza da dificuldade em algo que ainda não foi dito? Por que as palavras que não são antecipadas não são gaguejadas? Em qual situação a antecipação surgiu? Como quem estava conversando? A antecipação aparece em toda e qualquer situação?

Frase 2: diz respeito aos "truques" construídos pelo falante na intenção de evitar gaguejar. Ou seja, ao antecipar a gagueira em determinada palavra, trocam-na por outra. Esse comportamento é muito interessante e a maioria dos pacientes não se dá conta de algo muito curioso que ocorre nessas ocasiões: a palavra em que recai a certeza de dificuldade (de gagueira) não é dita, por outro lado, na palavra em que recai a certeza da pronúncia há fluência e ela é dita sem gagueira!! Uma palavra "não pode", mas outra "pode" ser pronunciada.  Isso mostra que há competência articulatória, pois, se não houvesse, a dificuldade estaria em qualquer palavra, ou seja, não seria possível prever que palavra se pode eliminar e que palavra se pode pronunciar. Isso indica que a questão central da gagueira não é ela em si, isto é, a articulação gaguejante, mas sim a sua antecipação.

Dar um novo sentido à antecipação é um importante aspecto do processo terapêutico que visa deslocar o falante gago para a posição de falante comum.

23 maio 2015

Dia Internacional de Atenção à Gagueira - 2014

Bom Falante reproduz Gagueira e Subjetividade (Campanha 2014):


As hesitações e repetições de sons, sílabas ou palavras, podem manifestar-se na fala da criança a partir dos dois ou dois anos e meio de idade. É um fenômeno linguístico normal e aparece quando a criança sabe o que quer dizer, mas precisa de mais tempo para organizar seu discurso.

Exemplo: “oooonde tem mais mexericas?” “nossa! qqqqque flor esquisita.” “o bbbbonequinho de baixo é meu”.

Geralmente, quando as crianças se expressam dessa maneira, os adultos não interpretam essas hesitações e repetições como esse tempo que a criança precisa para organizar seu discurso. Comumente as interpretam como sendo gagueira e reagem tentando corrigir a fala da criança para que “fale bem”. 

Pedem-lhe que repita devagar o que deseja dizer, que respire e fale de novo, que pense antes de falar, que não fique nervosa e outras coisas do gênero.

Essas correções que veem e interpretam o que é normal como se fosse um erro, em vez de ajudar, produzem interações comunicativas danosas. O dano se produz porque não se responde a “aquilo que” a criança disse e sim ao “modo” como o disse e ela pode pensar que não se entendeu nada do que ela quis dizer e que seu modo de falar não é aceito. Isso, por sua vez, gera na criança uma imagem de mau falante.

Nessa condição, a criança começa a temer seu modo de falar e a querer controlar a fala para responder às expectativas dos adultos. Mas, como a fala é uma ação automática e espontânea, o temor de “falar mal” e a tentativa de controle a levam a uma fala tensa e isso faz com que tanto a fluência como a espontaneidade se percam.

A disfluência é uma condição natural na fala das crianças, mas quando  é interpretada como sendo errada e quando se age tentando corrigi-la, vai-se abrindo o caminho para a gagueira.

Se surgirem dúvidas sobre o desenvolvimento de fala da criança, consulte o quanto antes  um profissional especializado nos problemas de fluência.


26 setembro 2014

Minha história e reflexões sobre a clínica da gagueira

Comunicação proferida no IV Encontro Pernambucano de Atenção à Gagueira – 2013


Boa noite, inicialmente quero agradecer ao meu amigo Maurício Lopes de Nascimento Jr. pelo convite e parabenizar a Comissão Organizadora pelo IV Encontro Pernambucano de Atenção à Gagueira, evento consolidado no cenário nacional.
Maurício, ao me convidar, pediu que falasse sobre três pontos: minha história com a gagueira, como me tornei fonoaudiólogo e meu recente mestrado em Fonoaudiologia, pela PUC-SP - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Esses três pontos estão entrelaçados e, a partir da minha vivência, farei também algumas considerações sobre a clínica da gagueira.

Minhas primeiras lembranças sobre a gagueira remontam aos meus oito anos de idade, em sala de aula, quando a professora me solicitou a leitura, em voz alta, de um texto. Em determinada palavra travei. A sala riu e lembro que tive consciência da gagueira e consciência de que meu modo de falar não era aceito, de que havia algo de errado em minha fala. Essa situação me fez chorar em sala de aula. Lembro que meus pais foram à casa da professora conversar com ela. Dessa visita em diante, passei por fonoaudiólogos, psicólogo e otorrinolaringologistas.

Antes de prosseguir com a história em si, gostaria de fazer um breve parênteses para falar sobre a visão que compartilho a respeito da causa da gagueira. Entendo que essa causa não se esclarece a partir de uma relação linear do tipo: alguma condição A gera a condição B. Entendo que a forma gaguejada de falar é o efeito da tentativa de controlar a fala e essa tentativa se da por meio da antecipação da ocorrência da gagueira. Assim, faz-se necessário saber o que leva o falante a tentar esse controle. De acordo com a proposta de Friedman1,2,3, o que leva a isso é uma imagem estigmatizada de falante. E como a imagem se constitui? Então vamos voltar à minha história.

Do primeiro tratamento fonoaudiológico, aos oito anos de idade, a lembrança que tenho é que também estava lendo durante a sessão e travei em uma palavra. Essa palavra era “burro” e ao não conseguir pronunciar aquela palavra, novamente chorei. Hoje entendo que essa palavra era muito representativa para a imagem que se estava desenhando de mim na situação de fala que eu vivia. Por isso, gostaria de pensar com vocês como uma palavra comum se transforma em um obstáculo difícil de ser ultrapassado na fala.


Cada palavra tem uma carga emocional para o falante. Conforme o valor que ele atribui a ela, à palavra pode ser-lhe indiferente, entusiasmá-lo ou mesmo amedrontá-lo, envergonhá-lo. Assim, é natural que o estado emocional se altere diante da eminência de pronunciar certas palavras, como, por exemplo, ocorre com a própria palavra “gagueira” ou “gago” para as pessoas que se sentem enquadradas nesse padrão de fala e o rejeitam. A exacerbação emocional evocada pelo valor dado à uma certa palavra é, por sua vez, uma das condições que favorece a produção de disfluências ao falar, sendo essa disfluência nada mais que um retrato natural da dinâmica que se estabelece entre fala, emoção e movimentos musculares ao falar. Essas disfluências revelam que o falante é um sujeito que sente, isto é, revelam a subjetividade do falante.


No senso comum, porém, as pessoas nem sempre compreendem as relações entre a objetividade da fala e a subjetividade do falante e, consequentemente, podem achar que a disfluência seja algo anormal. Isso  leva as pessoas a rejeitá-la em vez de aceita-la com naturalidade. Tal condição pode ser especialmente dramática quando se trata de disfluência na fala infantil, porque a criança não tem uma postura crítica em relação às reações do adulto e, por isso, tende a aceitar essa reação como se fosse uma verdade, passando então a acreditar nela. Eu acreditei. Acreditei nos meus pais que havia algo de errado em minha fala, quando eles não souberam acolher de forma adequada minhas disfluências e me encaminharam a uma fonoaudióloga para tratá-las. Acreditei também na fonoaudióloga, quando não teve a sensibilidade ou o conhecimento necessário para lidar com a situação do choro em seu consultório, diante da dificuldade de pronunciar a palavra “burro” e aquele meu bloqueio, para ela, apenas evidenciou a presença de uma dificuldade. De fato, não me lembro de uma atitude de apoio ou carinho da parte da fonoaudióloga, encorajando-me a falar. O tempo todo a cobrança era o ponto forte da terapia. Ficou claro que eu deveria treinar minha fala para, assim, conseguir falar do modo considerado normal, ou seja, sem disfluir, sem parar diante de alguma palavra. Hoje entendo que a fonoaudióloga repetiu o conhecimento de senso comum e entendo o quanto isso  favoreceu que eu construísse uma imagem estigmatizada de falante.


Continua...