09 novembro 2020

A jaula da gagueira


Dúvida sobre a capacidade articulatória, antecipar a produção da gagueira, tentar evitar ou fugir da gagueira, não se aceitar como falante, pressupor o pensamento do outro, julgar-se inferior...

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#gagueira #curadagagueira

31 maio 2020

"Na disfluência há falta. Na gagueira há excessos"



Transmissão realizada originalmente no Instagram da Fonoaudióloga Daniela Tenório.
Conversa de uma hora de duração, no final da tarde do dia 28 de maio de 2020, com a Fonoaudióloga Dra Silvia Friedman, sobre aquilo que esta mais conhece e estuda:  gagueira. 

22 outubro 2018

Dia internacional de atenção à gagueira 2018

Postagem original: https://www.gagueiraesubjetividade.info/




A sociedade e a gagueira

A gagueira é uma dificuldade de comunicação que vai além do ato de se expressar
Quem convive diariamente com a gagueira, seja a pessoa que gagueja, seja sua família, sabe como é difícil enfrentar a sociedade sendo alvo de piadas, falta de respeito ou discriminação.
Para além dos bloqueios, prolongamentos e repetições da fala, há um universo de pensamentos e emoções que podem levar à reações incompreensíveis diante de situações cotidianas como falar ao telefone, expressar a opinião diante dos outros, pedir comida num restaurante, reclamar por uma injustiça ou convidar alguém para sair.

Concentre-se no conteúdo da mensagem.

Quando uma pessoa que gagueja se esforça fisicamente para falar, usando gestos estranhos ou movimentos involuntários, o faz porque está tentando não gaguejar diante de você, está fazendo o seu melhor esforço para que você continue a dar-lhe atenção.

Dê-lhe o tempo que seja necessário para falar.

Quando uma pessoa que gagueja demora em responder a uma chamada telefônica ou a uma pergunta, sabe exatamente o que dizer, não está insegura, nem nervosa, apenas necessita mais tempo que você para falar.

Dê atenção e desfrute da conversação.

Quando uma pessoa que gagueja percebe que você está incômodo em ouvi-la, evita olhá-la, olha o celular enquanto ela fala, faz cara de preocupado, ela se sente mal e pouco acolhida, exatamente como você ou qualquer outro ser humano que se vê ignorado.

Evite dar conselhos sobre como falar, respirar ou se sentir.

Quando uma pessoa te escuta dizer “calma”, “respira”, “relaxa”, tudo o que ela recebe é uma critica à sua forma de falar. A gagueira é involuntária, ela não está nervosa, nem apressada, simplesmente sua fala é diferente da tua.

Procura informação e dá apoio ao teu filho ou estudante. Nunca nos esquecemos daquilo que sentimos, pensamos e fazemos na escola.

Quando um estudante que gagueja é obrigado a expor, a ler em voz alta e sua professora lhe diz “vejo que você não estudou”, provocando as risadas dos colegas, sente uma grande frustração e vergonha.

Quem gagueja precisa de um pouco mais de tempo para expor suas ideias. Deixe-o expressar-se.

Quando numa reunião de trabalho a pessoa que gagueja quer compartilhar seu ponto de vista, enquanto todos os outros falam ao mesmo tempo, sabe que não terá o tempo que precisa para explicar e simplesmente se cala, embora possa ter algo importante para dizer.
arte gráfica Pedro Friedman / Ana Karina Espinoza
  • realização
  • apoio
         

03 junho 2015

A Clínica da Gagueira

Segue abaixo texto que escrevi para o site Linguagem e Subjetividade, da linha de pesquisa de mesmo nome, vinculada ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Fonoaudiologia da PUC-SP.

A Clínica da Gagueira


O objetivo desse texto é propor uma reflexão sobre a clínica fonoaudiológica, em específico, sobre a clínica da gagueira. Entende-se por clínica uma estrutura composta por quatro elementos homogêneos e covariantes – semiologia, etiologia, diagnóstica e terapêutica .(Freire, 2011)

Observa-se que a Fonoaudiologia, em um primeiro momento e em sua articulação com a medicina, olha para a gagueira como resultado de uma dificuldade ou incapacidade dos sistemas neurais em manter a fala fluente (Arcuri et al., 2009) ou seja, sob o ponto de vista orgânico. (Damasceno e Friedman, 2011). O diagnóstico proposto por esta clínica sustenta-se na gravação da fala que é comprada a uma amostra com o perfil dos tipos de disfluência, velocidade de fala, frequência de rupturas, entre outros aspectos audíveis/visíveis (Andrade, 2000) que sustentam padrões de patogenia ou normalidade. A terapêutica visa treinar o paciente a monitorar sua fala, a fim de modelá-la a um padrão considerado normal.

Observa-se que esse entendimento não constitui verdadeiramente uma clínica, pois os elementos que deveriam constituí-la – semiologia, etiologia, diagnóstica e terapêutica - não são interdependentes. Por exemplo, a terapêutica, na impossibilidade de intervir nos supostos fatores etiológicos, é composta de técnicas prescritivas.

Em um segundo momento, a Fonoaudiologia toma a gagueira como um sintoma de linguagem e mantém a coesão e covariância entre os quatro elementos que fundam a clínica. Para isso, o entendimento sobre gagueira centra-se no sujeito falante e na compreensão dos efeitos da interpretação do outro, que concorrem para moldar a subjetividade do falante (Friedman, 2010; Freire e Pascalicchio Passos, 2012).

Freire e Pascalicchio Passos (2012) supõem que a gagueira emerge na terceira posição do processo de aquisição de linguagem, quando se observa na fala das crianças a presença de pausas, reformulações e autocorreções. Nesta posição, o discurso da criança, por seus efeitos de semelhança, pode ser interpretado pelo adulto como gaguejante. Diante da negação de sentido, a criança depara-se com a falta de assemelhamento e pode ocupar a posição de sujeito gago. Por não continuar o diálogo, mas ressaltar a forma do discurso, o outro passa a ser visto como aquele que fiscaliza o dizer.

Nessa mesma direção, Friedman (2007) explicou a constituição da gagueira a partir de uma ideologia de bem falar que rejeita e estigmatiza a fala disfluente da criança. Nessa condição, explica, a criança fica numa situação paradoxal, na qual nem pode falar como falava, nem sabe como falar de outro modo, o que gera tensões em sua fala. O efeito disso na subjetividade, segundo Friedman (2007), é a antecipação, na fala, dos lugares em que a gagueira ocorrerá, na tentativa de contê-la. Desse modo, a autora indica que na gagueira, o falante prioriza a forma de sua fala em detrimento do sentido.

A esse respeito, Azevedo e Freire (2001) explicam que "na ordem discursiva há uma tensão natural entre língua (forma) e fala (sentido). Essa tensão é estruturante e determina todo o dizer, de tal modo que a linguagem é a articulação de língua e fala". Na posição fluente, dizem as autoras, há um privilégio do sentido (fala) em detrimento da forma (língua), já na posição gaguejante a tensão natural dá lugar a uma desarmonia, porque a atenção discursiva passa a estar na forma, o que se expressa pela certeza que o falante gago mostra de não conseguir falar sem gaguejar em certas palavras, certos fonemas, com certas pessoas. O privilégio da forma em detrimento do sentido, completam as autoras, leva o falante à perda da posição fluente.

Esse tipo de visão permite uma abordagem terapêutica que mantém homogeneidade e covariância entre os elementos da clínica, visto que, a partir das histórias e relatos do paciente, é possível conhecer os sentidos cristalizados sobre si, sobre a própria fala e sobre o outro e, a partir de diálogos e vivências de sensibilização da fala (Oliveira e Friedman, 2006), promover a desestabilização de tais significados, bem como a abertura de novos sentidos, de modo a proporcionar ao paciente a vivência de experiências novas e singulares que lhe permitam sair da posição de falante estigmatizado, para ocupar uma posição em que confia em sua possibilidade de falar e que mantém a tensão natural entre fala e língua.

Portanto, acredita-se que o desconhecimento sobre o funcionamento subjetivo-discursivo gaguejante faça com que parte da Fonoaudiologia restrinja o fazer terapêutico a estratégias que visam controlar o discurso do paciente e, consequentemente, mantenha a desarmonia entre fala e língua. Talvez seja esse um dos motivos para o falado insucesso terapêutico na clínica da gagueira.