09 outubro 2006

A Faca e o Queijo

Primeiramente, quero pedir desculpas pelo tempo sem novidades neste blog. O que ocorre é que a faculdade de Fonoaudiologia acaba tomando bastante tempo. Sem falar em outras atividades concomitantes que tenho de realizar. Tentarei atualizar este espaço pelo menos duas vezes por semana, porém quando perceberem a não-atualização, já saibam qual o motivo.

Aproveito esta oportunidade para tentar responder a um comentário deixado na postagem anterior, por um "anônimo". Quem desejar ler o comentário dele, basta clicar em "comentários" da postagem "Vídeos Disfluentes".


Amigo, Entendo sua angústia e preocupação em relação ao seu futuro. Também passei por isso. Se eu passei por isso, significa que "Gagueira Tem Tratamento".

Esta afirmação é muito importante, pois é muito comum lermos afirmações e até mesmo termos o pensamento que "fonoaudiólogo só quer ganhar dinheiro" ou que "fonoaudiólogo não sabe tratar gagueira", entre outras semelhantes. Em relação à sentença em destaque acima, eu a reformularia para:
Gagueira Tem Tratamento Fonoaudiológico Adequado. Desta forma, estamos definindo que não são todos os tratamentos fonoaudiológicos que resultam em melhoras para o indivíduo que gagueja e, portanto, não são todos os profissionais da fonoaudiologia que estão capacitados adequadamente para o trato desta nossa patologia.

Na faculdade, este e outros distúrbios de linguagem são vistos muitas vezes de maneira rápida. Se o futuro profissional desejar adquirir maiores conhecimentos, é importante a realização de uma pós-graduação, na qual terá melhores possibilidades de estudar e desenvolver novos métodos ou aprimorar os já existentes.

Diante deste quadro, deve surgir a seguinte pergunta: como saber se o fonoaudiólogo que vou procurar é capacitado ou não para me tratar? Para responder a esta pergunta, é preciso fazer uma série de outras perguntas diretamente para o eventual profissional.

Perguntas do tipo:
- Qual sua linha de tratamento?;
- Qual sua experiência com pacientes com gagueira?;
- Quais os resultados obtidos com estes pacientes?;
- O que posso esperar de um provável tratamento?;
- Tem pós-graduação? Em que? Estudou gagueira?;
- Possui trabalhos apresentados em congressos? (esta pergunta se respondida negativamente, não siginifca que ele não sabe tratar pacientes com gagueira. É só um diferencial);
- Qual é o "Dia Internacional de Atenção à Gagueira"?;
- Entre outras que você mesmo poderá elaborar ao pesquisar na internet sobre gagueira. Na coluna vínculos, aqui do lado direito, você terá boas opções para conhecer mais sobre o seu distúrbio.

Estes questionamentos são vitais para evitarmos fonoaudiólogos não preparados, os quais nos tratam com língua de sogra, rolha de vinho, balão de encher, mudança de tom de voz, etc. Além do mais, o profissional perceberá que você sabe o que está procurando e você também perceberá o grau de capacitação dele nesta área. A contratação de um fonoaudiólogo é um ato extremamente importante, mais até do que a de um médico "qualquer". O médico, geralmente, você o verá uma vez ou duas (no retorno), no máximo. Já o fonoaudiólogo, para tratar gagueira, será visitado pelo menos uma vez por semana, durante, possivelmente, por no mínimo um ano.

Anônimo, desculpe-me chamá-lo assim, mas não sei o seu nome, em seu comentário você se queixa de maiores dificuldades para falar com pessoas conhecidas (quando elas são estranhas você não gagueja) e ao telefone. Creio que no seu íntimo ocorra uma guerra entre dois personagens: um bom falante e outro mal falante. Quando a pessoa não lhe conhece intimamente, não sabe que você gagueja, você libera o "bom falante" dentro de você. Aos poucos, você "permite" que o mal falante tome conta. Seus pensamentos, limitações e crenças (não falar bem ao telefone, por exemplo) lhe empurram cada vez mais para baixo.

Essas
crenças que desenvolvemos geram mais gagueira. Já ouviu falar que somos aquilo que pensamos? Que a palavra tem poder? Pois é! Como nos libertaremos para falar ao telefone se toda vez que ele toca nossos pensamentos nos torturam? Como falaremos com conhecidos com desenvoltura, se temos a certeza de que a partir do momento que a barreira estranho/conhecido é quebrada "aí começo a gaguejar"?

Perceba o quanto você interfere em sua fala. O que deveria ser um ato espontâneo, está recheado de interferências indevidas. O "pense antes de falar" e "respire antes de falar" são exemplos disso. Em minha bem sucedida terapia, percebi que ninguém, dos ditos fluentes, possuía as mesmas preocupações que eu. Ninguém pensava antes de falar ou respirava antes de falar sem que lhe fosse espontâneo. A partir disso, elaborei a seguinte teoria:
se eu quero falar como eles, tenho que agir/pensar como eles.

A mudança de tom de voz, realmente nos proporciona maior fluência. Existem pseudos-tratamentos que incentivam isso. Porém, não nos garantem melhoras a longo prazo, por isso devem ser evitados. A mudança de tom de voz é um truque que temos para falar bem. É a quebra do espontâneo. Sem falar que a artificialidade gerada por uma mudança de tom é muito grande. Há tempos tentei fazer isso e parecia não ser eu falando.

Você também se refere a medicamentos. Não incentivo este tipo de atitude. Principalmente, sem receita médica. Tomá-los em uma situação estressante, como ter que falar em público, dar uma palestra, é aceitável. Alguns palestrantes não acostumados com a situação fazem uso de calmantes, tranquilizantes... Para nós, não faz sentido algum nos medicarmos para irmos a uma padaria comprar pão, por exemplo.

Você afirma que tem esperança de falar fluentemente. Eu acredito que somos capazes. Entretanto, cuidado com este desejo! Falar fluentemente significa não ter bloqueios, prolongamentos, hesitações, repetições... Isso, nem o melhor dos oradores consegue. A fala é um ato motor extremamente delicado. Ao caminhar torpeçamos, ao falar também estamos sujeito a alguns tropeções. O que não significa ficarmos depressivos, tristes, desenganados quando eles acontecem. No um ano e um mês de terapia, eu tinha algumas recaídas, o que é normal do processo evolutivo. Logo no início, as minha recaídas eram na fluência e no meu psicológico. Com o passar dos meses, passei a sentir somente recaídas na fluência. O abalo emocional já estava pequenininho. O que gera cada vez mais fluência.

"Será que a gagueira vai ser o maior obstáculo, a qual impedirá a minha realização profissional e a dos meus sonhos?" A reposta para esta pergunta, amigo, está dentro de você. Faça de tudo para quando, futuramente, você olhar para trás, ver que fez o que tinha de ser feito. Nossa vida não é fácil, mas, depois que você transcende a gagueira, com muita luta, muita disposição, pode sorrir e afirmar categoricamente:
valeu a pena!

Amigo, espero ter lhe dado a faca e o queijo, conforme você solicitou. Agora só falta cortá-lo. De contra-partida gostaria que você, futuramente, me procurasse, estarei na internet ou em algum outro local que discuta gagueira, e me dissesse como foi que você cortou o queijo.

2 comentários:

Mônica disse...

Pelo relato existente no campo dos comentários, vejo que é uma situação muito difícil, mas acima de tudo observei a força de vontade por parte do "anônimo" em tentar modificá-la e a resposta ao comentário foi muito bem elaborada e está muito incentivadora!
Estarei ansiosa e perseverante em saber o resultado positivo do " corte desse quiejo"!
Bj

Anônimo disse...

eu também gaguejo com pessoas intimas, já com pessoas que nunca vi, muitas vezes não.
Na verdade eu queria não gagueijar =(