08 setembro 2005

O Monociclo e a Gagueira

A fluência não deve ser nosso objetivo final, pois se o for, fracassaremos, mais cedo ou mais tarde. Para alcançarmos a "fluência" devemos nos preocupar muito mais com o meio-pelos-quais, do que com o fim. Quem se preocupa com o fim (com a fluência), dificilmente chegará lá. As nossas posturas, nossas crenças, nossos pensamentos, nossos comportamentos é que devem ser trabalhados e modificados. "Consertando-se" isso, o objetivo final pode ser alcançado mais facilmente, ou pelo menos a gagueira deixará de ser um sofrimento.

O indivíduo que está aprendendo a andar de monociclo, em virtude do medo decair que o domina, instintivamente estica a cabeça para trás, o que perturba o equilíbrio e provoca uma queda inevitável. Para andar de monociclo é preciso perder o medo de cair, posicionar a cabeça para frente e pra cima e forçar as nádegas para baixo. Agindo-se dessa forma, voltando-se para os meios-pelos-quais pedalar o monociclo, consegue-se pedalá-lo por longos trechos. Caso o pensamento do indivíduo estivesse focado em pedalar o veículo, fatalmente nunca conseguiria.

A partir deste exemplo, é possível traçar um paralelo com a gagueira. O medo de cair e colocar a cabeça esticada para trás faz o indivíduo cair. Ter medo de falar com pessoas, imaginar que vai gaguejar, ficar nervoso por antecipar a situação, tensionar os músculos, criar truques para tentar falar faz a pessoa gaguejar. É preciso não ter medo para falar, não ficar nervoso, não tensionar os músculos na intenção de não gaguejar, não criar truques para tentar falar. Muitas dessas coisas o gago, por ter passado por situações vexatórias, cria para tentar falar melhor e defender-se de futuros risos e contratempos. Só que isso é meio paradoxal, porque em muito a disfluência é proveniente desses atalhos labirínticos. O ato de falar deve ser o máximo espontâneo. É assim com nossos amigos, familiares, namoradas(os), vizinhos, enfim, com todos os "outros". Devemos nos preocupar com os meios-pelos-quais, com os sintomas da nossa gagueira e não com o fim, e não com a fluência.

Obviamente eu não sei andar de monociclo. Li toda aquela teoria sobre ele no livro que já mencionei aqui (O Aprendizado do Corpo - introdução à técnica de Alexander) e fiz a minha analogia. Será que faz sentido? Vocês têm as suas opiniões. Depositem-nas!

2 comentários:

Eleide Gonçalves disse...

Gostei demais do primeiro parágrafo deste texto!
É nisso que eu acredito: primeiro a busca do equilíbrio, em todos os aspectos da vida, para, conseqüentemente, adquirirmos fluência (o que não significa, necessariamente, deixar de gaguejar).
Valeu, Wladimir!

Tatiana disse...

Wladimir, sei que esse seu texto é muito antigo, mas é meu preferido. Você foi muito feliz na analogia que fez. Estou sentindo falta dos seus textos. Volte a escrever!