07 janeiro 2008

A Formação da Personalidade

Na Revista Superinteressante de Janeiro/2008 (edição 248) foi abordado, como assunto de capa, o tema Personalidade. Por que você é assim? A genética determina o comportamento? Os pais influenciam a personalidade dos filhos? As amizades influenciam também? É possível mudar nosso jeito de ser? Essas foram algumas das perguntas feitas e que foram respondidas.

Eu achei a matéria da capa particularmente interessante e de fácil associação com a gagueira por diversos aspectos, os quais tentarei explicar nesta postagem. É claro que a gagueira não é apenas uma questão comportamental ou de personalidade, apesar de está muito relacionada a esses aspectos. Indivíduos com problemas na fala, conforme dito no periódico, tendem a apresentar traços de timidez.

Acima eu lancei um monte de perguntas, as responderei baseando-me no que foi dito na reportagem e farei algumas relações com a gagueira.

Genética

A genética não define o comportamento humano. Ela "não é um destino, não determina o que você vai ser. Ela oferece predisposições. Todos estão sujeitos a influências ambientais que podem sim, mudar a expressão dos genes e fazer com que eles simplesmente não se manifestem". Apesar de nos Estados Unidos existir a crença quase que absoluta que gagueira tem origem hereditária (logo, transmitida geneticamente), acredito que essa não seja uma questão muito importante no surgimento da gagueira em uma criança. Eu não acredito que a gagueira seja transmitida nessas condições. O ponto de discordância está no conceito do que é gagueira. Para mim, o que pode ocorrer é a tendência para ser disfluente. Já que falar é uma habilidade (motora fina), assim como correr. A gagueira é originada, de acordo com Silvia Friedman, nas relações interpessoais negativas, em relação à fala, do indivíduo com o meio. A vivência sistemática dessas condições levam a criança a perceber que sua fala não é aceita, que é rejeitada pelos outros, levando ao sofrimento. Esse tipo de relação é extremamente comum entre as pessoas com gagueira. Essa é a verdadeira "herança genética da gagueira". Por outro lado, conhecemos diversas pessoas que são disfluentes, mas que não sofrem com isso, ou seja, não são gagas. Muito possivelmente não tiveram suas falas disfluentes colocadas em questão.

Os Pais Influenciam

A influência deles no desenvolvimento da personalidade é imprevisível. Os pais "são os primeiros a conter o que há de animal em nós, nos ensinando a controlar desejos em nome de regras morais, castigos e convenções da civilização". "As noções de pecado e culpa são transmitidas pelos pais e podem ser a causa de vários dos nossos problemas. Do conflito entre os nossos desejos e culpas, sairiam traços de personalidade, recalques inconscientes e fraquezas que nos acompanham vida afora". "As sinapses cerebrais são construídas a partir das relações externas. Sem interação com o outro não há personalidade". Apesar da forte ligação existente entre os pais e as crianças, principalmente nos primeiros anos de vida, não há comprovação estatística a respeito do desenvolvimento da personalidade dos filhos em relação ao modo como foi educado.

Falando-se em gagueira, como as crianças aprendem com os pais as convenções da civilização, quando a criança é criticada, chamada de gaga, corrigida, solicitada para falar mais devagar/com calma, entre outras coisas (ver Guia para pais e educadores), então elas começam a perceber que o seu modo de falar não é o idealizado pela sociedade. Aquela fala com repetições e com prolongamentos não é aceita. Esse valor será percebido pela criança, que começa a fazer o que deveria ser espontâneo, através de tentativas para falar bem, para falar de um modo que seja aceito pelo outro. Já falei nas postagens anterior mais recentes, o que ocorre quando tenta-se algo que deveria ser espontâneo.


As Amizades Influenciam

A influência dos amigos é muito maior do que se imagina. Judith Rich Harris (no livro Diga-me Com Quem Anda...) afirma que as relações da criança com amigos da escola e da vizinhança "são o grande definidor da personalidade adulta". É mais importante do que o convívio com os pais. "A identificação com um grupo, e a aceitação ou rejeição por parte do grupo, é que deixam marcas permanentes na personalidade", afirma Judith Harris.

Em relação à gagueira, acredito que este seja um grande tema para ser estudado. Qual a maior influência no surgimento e manutenção da gagueira, a dos pais ou dos amigos? O grau de "responsabilidade" que cada um desses possui ainda não se sabe. Sabe-se que influenciam! Para uma criança em idade escolar, é muito difícil e aterrador conviver com risos e chacotas oriundos de seus pares. Ser rejeitado deixará marcas permanentes na memória dessa criança. A sua imagem estará relacionada a alguém "que não fala direito", "gago", "que deseja fala bem para ser aceito socialmente". Segundo Friedman (no livro Gagueira: origem e tratamento), as experiências interpessoais que veiculam uma "ideologia do bem falar" podem colocar a fala dentro de um padrão subjetivo paradoxal, onde o indivíduo vê-se como um mau falante e tenta falar bem. "O falar fica associado à expectativas e emoções negativas, que por sua vez determinam alterações, isto é tensões, na produção articulatória", afirma Friedman. As risadas, entendidas como elementos de rejeição, estarão sempre no subconsciente do indivíduo mesmo já adulto.

É Possível Mudar

Sim, é possível! A nossa personalidade está a todo tempo em mudança. "Agimos de modos diferentes com pessoas de idade, sexo ou posição social diferentes". Podemos ser amigáveis e inteligentes com quem nos deixa a vontade, mas podemos ser o oposto com quem nos desafia. "A nossa personalidade depende do que os outros acham: você pode ser chato para uma pessoa, mas gente boa ou confiável para quem o conhece melhor". "É claro que há comportamentos e atitudes que são muito difíceis de largar. Somente 10% das pessoas com pontes de safena mudam hábitos alimentares e deixam o sedentarismo. As outras acabam morrendo de ataque cardíaco." Não existem pesquisas científicas afirmando que o ser humano não tem jeito. "De ter consciência de si próprio, um traço bem arraigado à personalidade, atribuir a ele uma causa, vencer derrotismos e apegos, vão anos, se não uma vida toda. Mas talvez o caminho de nos conhecer, mudar o que for possível e nos contentar com o que somos seja o grande desafio da vida."

Em relação à gagueira a mudança também é possível. Assim como temos personalidades diferentes para pessoas diferentes, muitas vezes, o sujeito com gagueira determina com/em quais pessoas/situações pode "falar bem". Muitos afirmam que com pessoas conhecidas a gagueira piora, para outros tantos piora com pessoas desconhecidas. Para uns falar em público é moleza, para outros é terrível. O que se percebe é que quanto mais a auto-imagem está em jogo, quanto mais a necessidade de falar bem está em questão e ao mesmo tempo há dúvidas na competência para falar do modo desejado, mais a gagueira está presente. O trabalho de mudança consiste, segundo Friedman (no livro já citado), na desmistificação da auto-imagem e da capacidade articulatória efetiva do sujeito. Ele é capaz de falar em diversas situações com fluência, o que comprova a sua integridade fonoarticulatória. O sujeito deve perceber a existência desses momentos fluentes; que a maior parte da fala é fluente; que sua consciência se ocupa apenas com a gagueira e que os comportamentos que usa para não gaguejar, além de manter a gagueira, são truques que também podem revelar sua capacidade articulatória íntegra (por exemplo: substituir palavras. Apesar de ser um truque, demonstra que a capacidade de articular as palavras está perfeita). Ele deve
"perceber que a gagueira não é a negação da fluência, mas se sobrepõe a ela e coexiste com ela. A fluência não é uma meta a ser alcançada, porque já existe, a meta é aprender a lidar com a gagueira, com a imagem de mau falante." (FRIEDMAN, 2004 - livro já citado acima).

10 comentários:

mariangela disse...

Muito interessante, aliás, super interessante a forma como você conduziu o seu texto.
É muito importante que se esclareça que a identidade é um processo dinâmico,sempre em construção.
A inserção da gagueira nesse contexto,apontando a importância da ideologia do bem falar e das interferências nos processos de relação sociais, de acordo com Friedman, facilitam a sua compreensão e mostram o caminho para a solução.
Parabéns pelo texto tão esclarecedor.

Bruno disse...

Genética não é tudo, mas também está longe de ser um mero detalhe a ser menosprezado. Já existem estudos muito conclusivos mostrando que o ambiente tem uma influência muito limitada no aparecimento da gagueira do desenvolvimento. Para o surgimento do distúrbio, e mesmo para sua remissão espontânea, a genética parece ser o fator preponderante.

Wladimir disse...

Mariângela e Bruno, grato pela participação e interação de vocês.
Bruno, quais são esses estudos que mostram que o ambiente tem influência limitada no aparecimento da gagueira? Poderia nos trazer em maiores detalhes? A linha que procuro seguir comprova que o ambiente é um forte influenciador para o aparecimento da gagueira. Tanto é que as pessoas com gagueira sempre possuem fatos marcantes de outros reagindo negativamentte a sua fala e isso torna-se motivo de sofrimento. Gaguejar sem sofrer não é gagueira (do desenvolvimento, como vc chama). Abraços.

Bruno disse...

São vários estudos, Wladimir, mas vou me limitar apenas ao mais completo de todos eles, um estudo que envolveu 6.446 pares de gêmeos uni e bivitelinos, desenvolvido ao longo de 10 anos pelo departamento de psicologia do King's College de Londres:

Genetic etiology in cases of recovered and persistent stuttering in an unselected, longitudinal sample of young twins

A conclusão do estudo foi a seguinte: "Stuttering appears to be a disorder that has high heritability and little shared environment effect in early childhood".

Ou seja: "A gagueira parece ser uma desordem que tem elevado caráter hereditário e pouco efeito ambiental compartilhado na primeira infância".

A base para essa conclusão foi a descoberta de que a gagueira, quando ocorre em gêmeos, tende a se manifestar de forma simultânea em gêmeos univitelinos (idênticos), ao passo que a taxa de manifestação simultânea reduz-se consideravelmente quando os gêmeos não são geneticamente idênticos, apesar de compartilharem o mesmo ambiente.

Wladimir disse...

Bruno, quando afirmo que o ambiente é um forte influenciador no aparecimento da gagueira, não me refiro ao aparecimento das disfluências. Não sei se não me fiz entender e houve confusão nesse ponto.

Muitas crianças passam por essa fase de desenvolvimento e não tornam-se gagas. Para ser gagueira tem que ser sofrimento. As disfluências podem evoluir para um quadro de gagueira quando os outros significativos (familiares, colegas...) passam a satirizar, imitar, ou seja, não aceitar a forma disfluente de falar. Com isso vamos percebendo que nossa fala não é aceita e interferimos no automatismo da fala, na intenção de sermos aceitos. Só que quanto maior interferência, menos consegue-se o objetivo, já que falar envolve espontaneidade. Essas inúmeras tentativas fracassadas, a constância negação do meio, geram cada vez mais sofrimento.

O que aconteceria se fóssemos disfluentes e os outros nem "percebessem" isso? Falaríamos sem problemas, pois seríamos aceitos assim mesmo.

Investigue e veja que inúmeras famílias com membros com gagueira apresentam o não acolhimento às disfluências. Suponho que essas pesquisas estadunidenses chamam de gagueira seja o disfluir. Mas há diferenças qualitativas entre disfluir e gaguejar.

Acredito que possa haver um gene para o disfluir, já que falar é uma habilidade motora, mas para gaguejar não acredito, pois necessita da interação, da negação, da não aceitação do outro, para que passemos a não nos aceitar também.

Abraços!

Bruno disse...

Não são estadunidenses. São britânicos. O estudo que citei (publicado há menos de um ano) foi feito por uma equipe de pesquisadores do Departamento de Psicologia do King's College de Londres, conforme mencionei no meu comentário anterior.

Sabe, às vezes fico com a nítida impressão de que você não consegue ler direito as opiniões discordantes da sua, de tão preocupado que fica em defender as teorias com as quais simpatiza.

Só que ciência não se faz com simpatias, Wladimir, e sim com ceticismo, troca de informações, revisão de idéias e muita humildade para reconhecer a própria ignorância em determinadas áreas do conhecimento.

Infelizmente, você parece estar tão doutrinado e dogmatizado pelas teorias que defende, que se fechou completamente para as novas descobertas. Seu entendimento da gagueira passou a ser uma questão de fé.

Wladimir disse...

Bruno,

Eu diria o mesmo para você: "às vezes fico com a nítida impressão de que você não consegue ler direito as opiniões discordantes da sua, de tão preocupado que fica em defender as teorias com as quais simpatiza."

O que foi que vc concordou com o que falei? O que falo não é baseado em crendices populares, fé ou qualquer coisa nesse sentido. É fruto de pesquisas e resultados clínicos. Além de conter forte vínculo pessoal com a minha história. Sem falar que estou buscando em estudos que versam também sobre o funcionamento do cérebro, mas com uma visão mais global do ser humano, que envolve emoção, pensamentos, atenção, consciência... Não restringe-se a neuroimagens fora de um contexto subjetivo, social, que também determina o funcionamento do cérebro.

O que as novas descobertas estão me demonstrando é que o funcionamento de cérebro está realmente diferente do "normal", mas longe de ser um cérebro com defeito, com lesões (como já ouvi fonoaudiólogas afirmarem).

Veja bem:
- A área cortical está mais ativa e não se comunica direito com áreas mais inferiores - "Uma vez a tarefa dominada, os padrões de ativação adquirem estabilidade e o comportamento torna-se automático. Deixa de requerer atenção consciente." A nossa fala exige a todo instante uma atenção consciente. Não está automatizada, nosso desenvolvimento e possíveis genes, não permitiram tal processo. Além disso, quando um atividade está automatizada, aprendida, como andar de bicicleta, por exemplo, "essa informação é condensada e
encaminha às estruturas subcorticais, nas profundezas do cérebro, onde ficam armazenadas para situações futuras. O destino de tais programas pode ser o cerebelo e os gânglios basais".

Há excesso de dopamina - Os níveis desse neurotransmissor "também podem ter um rápido aumento quando a pessoa se entrega a comportamentos de alto risco ou é posta em constante confronto com situações novas ou desafiadoras". Como afirma Silvia Friedman, situações comunicativas tornam-se de grande expectativa para o indivíduo com gagueira. Sabemos que muitos temem falar, muitos encaram como um desafio ir a uma padaria pedir 'três pães', pois 'tr' é um som 'difícil' de pronunciar.

- Há funcionamento anormal nos gânglios basais - Normal diante de uma situação de medo. "Quando vc teme uma serpente e vê uma na sua frente, a amígdala é alertada e inicia-se uma reação para entrar em alerta máximo. Isso ativa os gânglios basais, o cerebelo e o córtex motor. O coração trabalha mais depressa e os músculos das pernas contraem-se". Alguma relação com a gagueira? A situação de fala é temida! O que ocorre, por analogia, já devemos supor. Além disso, como falei anteriormente, quando uma atividade está automatizada as informações são encaminhadas para os gânglios basais. Como a fala não está automatizada, os gânglios não funcionam a contento. Certo ou errado?

Precisamos receber essas informações e investigar como é que ela ocorre em diversas outras situações. Só dessa forma poderemos afirmar categoricamente que o mau funcionamento é do cérebro, que "não é um computador, parece mais um ecossistema dinâmico."

Diante dessa dinamicidade, nem tudo está perdido. Temos o livre-arbítrio para modificar nossos pensamentos, ações, consequentemente, emoções e dessa forma também alterar o funcionamento do nosso cérebro. Sabemos que o cérebro é plástico. A
"Neuroplasticidade é um termo que descreve a capacidade de células nervosas para mudarem e modificarem sua atividade em resposta a mudanças em seu meio ambiente."

Tudo que está entre aspas são palavras do Dr. John Ratey, em "O Cérebro - um guia para o usuário".

Bruno, se você decidir comentar futuramente, exijo que o faça de maneira mais elegante. Não é porque discordo das interpretações que você dá à sua leitura que eu deva merecer a sua ironia e ofensa, guarde-aa para outras pessoas. Esse espaço é lido por muitos outros, os quais não merecem ler os seus despropósitos.

Atenciosamente!

Bruno disse...
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Wladimir disse...

Bruno,
Por que você não cria um blog para falar sobre a gagueira sob essa visão? Sob a visão neurológica. Nos traga os resultados das pesquisas britânicas (estadunidenses tbm rsrsrs). Com certeza teremos muito a discutir.

Agradeço pela correção. Portanto, nos comentários acima, onde lê-se "gânglios basais", leia-se "núcleos da base".

Abraços!

Wladimir disse...

Bruno,
Comente algo sobre o que disse no comentário mais acima, o terceiro acima desse.
Será que não faz sentido a minha relação?
Abraços.