18 julho 2005

Aluno Gago

A Revista Nova Escola, edição 183 de junho de 2005, da Abril, abordou a gagueira em sua pauta. É bem verdade que é uma revista bem segmentada, distante do grande público, mas é destinada para aqueles que são os mestres da socidade: os professores. Com isso, a luta por uma convivência mais harmoniosa com os "fluentes", está apenas começando. Este e outros exemplos é uma prova disso.

A matéria é "Gagueira: como ajudar seu aluno a se expressar melhor". Por achar diversas passagens prticularmente muito semelhantes a que vivenciei, não necessariamente na escola, separarei algumas partes e tecerei alguns comentários.



  • "Não há provas de que uma emoção forte desencadeie a gagueira. Mas emoções provocadas por críticas ou humilhações pioram o quadro", diz a fonoaudióloga Leila Nagib, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A minha gagueira tinha um ponto importantíssimo de agravamento que eram as cobranças do meu pai em cima de mim. Eu, talvez por ser o filho homem mais velho, fui muito cobrado por ele para sempre estudar, estudar e estudar. Coisa que não aconteceu com meus outros dois irmãos mais novos. A figura do meu pai era tão marcante, que se eu estivesse vendo TV e ouvisse o barulho do seu carro (um Opala SS, 1979) chegando em casa, muitas vezes eu apagava o TV e me dirigia ao meu quarto e fingia que estudava. Só para evitar que ele passasse por mim e dissesse: "Vá estudar!" ou "Tá perdendo tempo!". Sem falar nas inúmeras vezes que foi impaciente comigo ao me ouvir falar. Tudo isso fez com que eu o visse com muito (ou extremo) respeito/medo. Após iniciar minha terapia fonoaudiológica, passei a perceber que ele é assim mesmo. É o jeito dele! Por isso que, hoje em dia, a presença dele não me assusta mais. Falo qualquer coisa com ele sem me preocupar com a fala.

Mas crítica mesmo ou humilhação, vivencei na escola. Recordo-me por duas vezes que tentei ler em sala e por travar numa palavra, por não conseguir dá continuidade ao texto, os colegas começaram a rir. A primeira vez foi por volta dos meus 8 anos (memórias mais remotas da minha gagueira). Não sei exatamente qual foi a reação da sala, só sei que meus pais foram até a casa da professora conversar com ela. Na segunda vez, eu já com 16-17 anos, fazendo curso técnico de Geologia, fui ler um texto e a palavra enganchou. Todos os colegas e mais o professor começaram a rir. Não me segurei e começei a chorar e sai da sala. Para mim, a figura do professor rindo foi a gota d'água. Pensei: "como pode, o professor, que deveria entender e respeitar melhor as pessoas, rindo de mim?!?"

  • O problema só é preocupante quando o aluno repete sons e sílabas, demonstra esforço para falar, faz movimentos repetidos — como piscar os olhos, bater a mão ou o pé ou mexer nos cabelos — e não olha para a pessoa com quem conversa.

É comum ao gago encontrar meios para esconder ou disfarçar o seu problema. Na idade escolar, lembro-me de tossir, falar antes mesmo da outra pessoa terminar, aproveitar um barulho para iniciar a fala, na intenção de falar mais fácil e não ter a atenção dos outros em minha fala. A utilização desses artifícios podem "ajudar" naquele momento. Mas por não fazer parte da espontaneidade da fala, como o passar do tempo tornam-se parte "inseparável" da gagueira e com isso gaguejamos porque a nossa fala está repleta de elementos extras. Os truques são a nossa gagueira. Um truque que ainda persiste em mim é a utilização do "éééé" antes de comçar a falar. O que começou por um conselho de uma fono despreparada tornou-se algo inconveniente para mim. Meio que imperceptivelmente eu utilizo o "é", adiando o começo da fala, "fingindo" que estou pensando uma palavra.

  • Quando muito pequeno, ele se importa mais com o que quer falar do que como fazer isso. Como não percebe se está se expressando corretamente, não se sente rotulado nem deixa de conversar. Mas, se o adulto ressaltar os seus "erros", a criança começa a dar muita importância ao jeito de falar e fica com medo de abrir a boca outra vez.

Essa passagem da reportagem é uma das mais importantes. Muita gente tem sua gagueira originada nesta fase da vida. O adulto interfere em nossas falas. Modificam a espontaneidade que é característica natural deste ato. "Respire!", "fale devagar!", "fique calmo", "tá nervoso?", puxa vida, quantas vezes já ouvi isso?!?! Sobre isso, me lembro que há uns 5-6 anos, uma tia chegou para minha mãe e questionou se algum filho dela apresentou dificuldade para falar. Eu estava por perto e ouvi minha mãe afirmar que sim. Ela fez esta pergunta porque o filho dela, com uns 2-3 anos estava gaguejando e queria saber o que fazer. Não sei o que minha tia chegou a fazer com meu primo, só sei que atualmente ele tem 7 ou 8 anos e fala muito bem. As disfluências que ele apresentara não tornaram-se gagueira.

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A leitura da matéria é bem interessante. Na coluna do lado direito tem uma lista de atitudes positivas e negativas dos adultos que convivem com crianças e jovens gagos. Para quem é gago, esta lista também serve como uma orientação de como conviver melhor com a sua gagueira.

Um comentário:

Priscilla Silveira disse...

Não havia lido o artigo e o achei bem interessante, por ser direcionado a um público alvo peculiar quando se fala em prevenção à gagueira:o professor. Adulto que mantém contato com crianças em desenvolvimento,inclusive o da linguagem. Já orientei pesquisas com professores, que mostraram que os mesmos possuem pouco ou nenhum conhecimento sobre o assunto, assim como todo mundo. Vou divulgá-lo também em meu site!!